Article Image Riscos para o investimento e para o emprego no atual contexto econômico e político da Argentina

Conforme uma frase anônima, "a confiança é como o dinheiro: difícil de ganhar e fácil de perder". Algo parecido está acontecendo na Argentina, que enfrenta a perda de credibilidade perante os investidores locais e estrangeiros, o que se traduz em uma diminuição de capitais genuínos em comparação com outros países próximos, como o Brasil e o Chile.

De acordo com dados da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o investimento estrangeiro direto (IED) na Argentina foi de US$ 12 bilhões em 2012, ante US$ 65 bilhões no Brasil, US$ 30 bilhões no Chile e US$ 16 bilhões na Colômbia.

Somente no primeiro trimestre de 2013, o Chile recebeu 87% a mais de investimentos estrangeiros do que no mesmo período do ano anterior, informou o Banco Central chileno. Durante esse período, os investimentos subiram para US$ 9,13 bilhões, ante US$ 4,87 bilhões no mesmo período de 2012.

Na Argentina, pelo contrário, a mineradora brasileira Vale anunciou no mês de março sua saída do país, apesar de haver anunciado um investimento inicial de US$ 5,9 bilhões na planta do Río Colorado, em Mendoza. "A inflação e as oscilações da taxa de câmbio" inflacionaram o custo da planta em cerca de US$ 11 bilhões, o que praticamente duplicou o valor do investimento calculado inicialmente, conforme explicou Murilo Ferreira, CEO da Vale.

Os economistas privados estimam a inflação deste ano em, no mínimo, 25%, ao passo que a diferença entre o dólar oficial e o paralelo (no mercado negro) é de mais de 74%: US$ 5,22 o oficial e US$ 9,15 o informal. Essa disparidade na taxa de câmbio se acelerou quando o governo limitou a compra de dólares em outubro do ano passado, isto é, proibiu a aquisição da moeda exceto para as viagens ao exterior. A medida foi tomada para pôr fim à fuga, desde 2007, de US$ 80 bilhões em direção a contas no exterior, cofres ou "colchões" por falta de credibilidade na economia e no governo.

Depois da Vale, outras empresas brasileiras se retiraram, como a construtora Andrade Gutierrez, incumbida da construção de um terminal portuário em Bahía Blanca para o transporte de potássio, além da fabricante de torneiras Decca Piaza, que deixou de produzir no país depois de 125 anos de atividade.

Este ano fizeram as malas também marcas de luxo como Calvin Klein Underwear e Fendi, que se somaram a Louis Vuitton, Escada, Ermenegildo Zegna, Yves Saint Laurent e Cartier, entre outras. No caso dessas marcas especificamente, o principal motivo foi o fechamento das importações para proteção da indústria têxtil local.

Tempestade perfeita?

"Há vários motivos pelos quais a Argentina é menos atraente hoje em dia", observa Edgardo Bindelli, diretor de Licenciatura em Comércio Internacional da Universidad del Museo Social Argentino (UMSA). Bindelli diz que o aumento dos custos em dólares é uma das razões pelas quais algumas empresas se sentem mais prejudicadas do que outras, especialmente se se trata de projetos de longo prazo e que requerem grandes investimentos, como é o caso do setor de mineração. Com relação às outras indústrias, como a farmacêutica, "torna-se mais complicado para elas a remessa de lucros; e, no caso de outras, como vestuário e automóveis de luxo, as dificuldades dizem respeito à importação", acrescenta. No atual modelo econômico do governo de Cristina Fernández de Kirchner, as empresas não podem remeter seus dividendos ou lucros para seus países de origem, além de numerosas barreiras à importação cujo propósito é proteger as indústrias nacionais.

Em última análise, porém, conforme explica Marcelo Celani, diretor das Licenciaturas em Administração de Empresas e Economia Empresarial da UTDT (Universidad Torcuato Di Tella), "é a situação macroeconômica, que tem como consequência uma distorção de preços relativos muito grande (por exemplo, o custo da energia elétrica continua subsidiado e é igual ao do ano 2000) e a distorção da taxa de câmbio, o que impede que os investimentos sejam rentáveis. A Vale é um bom exemplo disso." 

Esse cenário levou, inclusive, algumas empresas argentinas a buscar outros horizontes, observa Diana Mondino, diretora de Relações Industriais e professora da UCEMA (Universidade do CEMA), sendo o caso, em sua opinião, da empresa de agropecuária argentina El Tejar, a maior empresa de grãos do país, com atividades no Uruguai e no Brasil, "muito mais grave (por se dedicar à atividade mais importante do país) do que o caso da Vale. A empresa já não produz no país e levou seus funcionários para outras localidades onde, embora a rentabilidade seja menor, as regras do jogo são mais claras", explica.

Embora as indústrias enfrentem diferentes barreiras na hora de produzir, para as que necessitam pensar a longo prazo a instabilidade das regras do jogo é nociva ao clima de investimento. Celani diz que "historicamente, a Argentina pouco fez para mantê-las, e no caso dos projetos de maturação longa, como é o caso da Vale, a mudança das regras para o capital, como a repatriação de dividendos ou os aumentos obrigatórios, tornam esses projetos mais arriscados".

Contudo, a desconfiança em relação ao governo tem também inúmeras raízes políticas. Eduardo Fracchia, diretor de Economia do IAE, diz que algumas medidas influíram de forma significativa no clima de investimento, como a "estatização das AFJP (Fundos de Aposentadorias e Pensões) em 2008, as mudanças nos estatutos do Banco Central, que afetaram a confiança dos investidores (porque colocam em suspenso sua independência), o confisco da espanhola Repsol no ano passado e a maneira como isso foi feito [...], assim como a demora em pagar a dívida do calote, o que se traduz em um risco-país elevado, além de não ter dívida". Some-se a isso a recente reforma do Conselho da Magistratura, órgão responsável pela nomeação e destituição de juízes, bem como a restrição às medidas cautelares contra o Estado aprovada pelo governo de Cristina Kirchner, o que limita a possibilidade de acionar o governo no poder, "que tampouco é bem visto pela ONU (Organização da Nações Unidas)", observou Fracchia em referência ao que disse a brasileira Gabriela Knaul, titular da Relatoria Especial da ONU, que afirmou haver na Argentina "um possível risco de rompimento da independência" do poder judiciário.

O pífio investimento do Estado no setor de energia e de infraestrutura é um complicador a mais nesse panorama. Desde 2003, ano em que Néstor Kirchner chegou ao poder, a capacidade elétrica não foi ampliada, apesar de a economia ter crescido em alguns momentos 8% ao ano, além de um forte consumo, por exemplo, de aparelhos de ar condicionado. Mondino, da UCEMA, adverte que "para produzir é preciso ter conhecimento tecnológico, pessoal adequado e energia, que há cinco anos pelo menos é extremamente escassa. Não foram construídos nem mesmo pontes, estradas ou portos para baixar custos".

No ano passado, o país importou gás num total de US$ 4,698 bilhões, o equivalente a 37% do saldo comercial de 2012, que é o indicador da macroeconomia que o governo monitora para saber de quantos dólares disporá e até que ponto deve insistir na restrição cambial. De acordo com Ernesto O'Connor, diretor do Mestrado em Economia Aplicada da Faculdade de Ciências Econômicas da UCA (Universidade Católica Argentina), "por enquanto a escassez de hidrocarbonetos foi compensada pelas importações, mas a tendência decrescente de ingresso de divisas (devido à fuga de dólares) coloca outras interrogações sobre a oferta de hidrocarbonetos no futuro, uma vez que se trata de insumo fundamental para a produção".

Efeitos sobre o emprego

Este ano a economia argentina crescerá 3,5% de acordo com a Cepal, o que reduz a previsão de crescimento do país, já que antes a projeção era de um crescimento de 3,9%. Essa diminuição na atividade terá, entre outros efeitos, o de impactar o emprego a longo prazo. "Se a economia não cresce, as vendas estancam, e com isso o emprego se mantém ou cai. É um processo lento, porém em um ano e meio poderá ser sentido", vaticina O'Connor.

Para Celani, os dados não são uma boa notícia, mas tampouco representam uma tragédia, "porque se não há criação de novos empregos, pelo menos são preservados os que existem". E acrescenta que "o consumo ainda é alto, e não se notam prejuízos nas fontes de trabalho. As incógnitas ficam para os próximos quatro a cinco anos, quando não haverá mais crescimento líquido de emprego porque, além disso, as empresas estão trabalhando com sua capacidade máxima".

O fato de as empresas estarem trabalhando a pleno vapor e por isso não podem ampliar sua capacidade de trabalho com novos investimentos mostra que recorrer à proteção da indústria local tampouco deu certo. "É um mito. A indústria local não cresceu, proibiu-se, isto sim, a concorrência sem que se tenha modernizado e capitalizado a indústria", observa Mondino, da UCEMA.

Fracchia, do IAE, observa como na província da Terra do Fogo se montam telefones e televisores graças à proteção de que goza essa indústria, "mas o resultado não são telefones muito modernos, porém mais caros do que no exterior. O mesmo acontece na indústria têxtil, de brinquedos, metalmecânica. A maior proteção permitiu o crescimento da indústria, mas ao custo da eficiência", observa o economista.

Nesse sentido, Mondino explica que as autopeças sobem de preço devido à impossibilidade de se armar uma cadeia de valor isenta de imprevistos. Para ela, a eficiência é afetada porque "é impossível liberar o produto devido a greves, piquetes ou à falta de gasolina. Como não há um volume suficiente de produtos importados, o produtor se vê obrigado a pagar o dobro do preço do frete porque faltam contêineres", diz.

Um dos custos mais expressivos é o dos salários, conforme mostram as paritarias (regulação de salários) de cada ano e que, até o momento, não foram fechadas, embora os sindicatos peçam, em média, aumentos de 25% a 20%. O problema é que a inflação foi maior do que o aumento do dólar. "Em maio de 2009, 1 dólar custava 3,71 pesos; hoje, são 5,22 pesos, o que representa um aumento de 40%. Contudo, os salários acompanharam a inflação crescendo, em média, 125% (isto é, 25% ao ano desde 2009)", observa Bindelli, da UMSA.

Oportunidades

Em águas revoltas, o lucro é do pescador. Essa é outra expressão popular que também se aplica ao caso argentino. Para Diana Mondino, o contexto atual não impede que haja oportunidades no país para aqueles empresários locais próximos ao poder, como é o caso de Cristóbal López, com investimentos em cassinos, barcos, meios de comunicação, combustíveis e alimentação. "O conceito de conglomerado formado por 12 ou mais empresas de diferentes setores já não se aplica mais ao mundo, mas eles estão crescendo na Argentina, e são os amigos do poder. Expandem-se de forma horizontal, direta, o que gera ineficiência, porque não se pode saber de tudo ao mesmo tempo", diz.

Por outro lado, segundo O'Connor, da UCA, também estão chegando ao país "empresas chinesas e árabes com planos de expansão e buscam mercados com empresas em oferta". Este ano, por exemplo, as 103 agências do velho Standard Bank foram compradas pela chinesa ICBS (Banco Comercial e Industrial da China), que adquiriu 80% da instituição financeira. 

Bindelli, da UMSA, crê que sempre haverá alguém interessado em investir, o que só dependerá do negócio e do risco que se queira correr. "Dizia-se que diante do problema da YPF e Repsol, seria impossível que uma petroleira se interessasse em investir novamente na Argentina, mas estamos vendo que não é bem assim. Há várias empresas nacionais e estrangeiras explorando possibilidades de associação", observa o especialista.

Não obstante isso, para que melhore o clima de investimento no futuro, Eduardo Fracchia, do IAE, enfatiza a importância de o governo enviar sinais, "principalmente no que diz respeito à transparência do poder judiciário e do legislativo, com um marco regulatório confiável e inflação baixa, porque são coisas cuja falta prejudica o sistema econômico e afasta o investimento. É muito importante que haja esforços maiores no setor de infraestrutura, educação, mais inovação e, o que é essencial, que o sistema seja mais produtivo e mais eficiente".

"A economia é uma teia de aranha: quando se toca uma parte dela, todo o resto vibra. É preciso começar a ser coerente, como dizem os livros. Deveria haver menos restrições, e as que permanecerem, devem ser fixas para que o mercado vá se ajustando a elas", assinala Diana Mondino.

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