Trabalhadores latino-americanos rompem a barreira da conectividade
Embora a América Latina se caracterize pelo atraso com que adota tecnologias, os resultados de uma pesquisa realizada pela consultoria IDC mostram que empresários e profissionais independentes da região estão dispostos a dar o grande salto rumo à sociedade da informação digital. De acordo com o estudo, 64% dos profissionais latino-americanos que utilizam computadores se acham “hiperconectados” ou “cada vez mais conectados à Internet” para a realização do seu trabalho, superando nesse aspecto os profissionais da Ásia Pacífico (59%), Europa (50%) e EUA (44%), respectivamente.
Os profissionais que foram considerados “hiperconectados” dominavam pelo menos sete aparelhos e nove ou mais aplicativos, enquanto os que foram considerados “cada vez mais conectados” dominavam o uso de quatro aparelhos e seis aplicativos. O universo de entrevistados foi de 2.400 pessoas com idades até 40 anos, sendo a América Latina representada pelo Brasil, México e Argentina. De acordo com Eduardo González, professor da Faculdade de Engenharia e de Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, esses três países são os que apresentam melhor nível de desenvolvimento econômico e um posicionamento avançado em tecnologias da informação em âmbito empresarial em comparação com as demais nações latino-americanas. Portanto, esses três representam o conjunto de nações mais avançadas da região, além do Chile.
As características do grupo hiperconectado são as mesmas para todos os usuários, independentemente do seu lugar de origem. Todos utilizam computadores, PDA (agenda digital) e telefone celular, entre vários aparelhos de hardware, além de uma grande quantidade de publicações em blogs, boletins eletrônicos e comunidades online, criado assim uma verdadeira cultura digital. Cerca de 60% desse grupo hiperconectado é constituído por homens, sendo que a maior parte ocupa postos de gerência e tem 35 anos ou menos.
Contudo, que fatores contribuíram para que, até o presente momento, a região se caracterizasse por seu atraso tecnológico?
A barreira dos preços e a falta de capacitação
Jorge Gatica, professor da Faculdade de Engenharia e de Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, do Chile, ressalta que “como fator econômico destaca-se o preço extraordinariamente alto que os fornecedores de serviço de conexão à Internet e as operadoras de telefonia móvel cobraram tanto das empresas quanto dos usuários domésticos na América Latina desde o começo da indústria”.
O professor ressalta que enquanto os provedores americanos cobravam 20 dólares por 20 horas de conexão à Internet, nos países latino-americanos esse valor era três ou quatro vezes maior. “Desde então, sempre houve essa barreira de preços, e a diferença só aumentava quando comparada à renda per capita. Além disso, o mercado de telecomunicações sempre funcionou como monopólio natural regulamentado na região, embora os preços, é importante notar, sempre tenderam para baixo.”
José Maldifassi, professor da Faculdade de Engenharia e de Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, explica que o fator preço também se aplica à aquisição de hardware de primeira necessidade como, por exemplo, computadores. “Para obter uma conexão adequada à Internet, é preciso contar com computadores de qualidade, ou então, aumentar a memória e a velocidade das máquinas, o que é caro.” Conseqüentemente, na opinião do professor, os profissionais independentes de situação econômica precária não estão em condições de adquirir tais ferramentas, e o mesmo vale para as pequenas empresas sem a necessária liquidez para tanto.
Embora Carlos Bravo, professor da Faculdade de Engenharia e Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, admita que a barreira de preços tenha dificultado o acesso á tecnologia, ele não considera tal variável o principal obstáculo. “Há um componente geracional muito poderoso em todo esse cenário que faz com que o trabalhador latino-americano, especialmente aqueles acima de 40 anos, tenham pouca disposição para aprender a usar as tecnologias da informação e da comunicação (TIC), traduzindo com isso um sentimento de medo e de falta de confiança. Além disso, desconhecem o potencial da tecnologia e também do universo de produtos e de soluções de software disponíveis no mercado.”
José Maldifassi concorda com Carlos Bravo e diz que “há um segmento de profissionais na América Latina que não tem experiência no domínio das TIC e lidam com elas com uma certa inquietação, já que não foram adequadamente capacitados para a utilização dessas tecnologias”.
Sob o domínio do inglês
Enrique Canessa, professor da Faculdade de Engenharia e Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, explica que outro elemento de repercussão negativa é o baixo nível educacional que caracteriza a população latino-americana. “Cerca de 92% de toda a informação existente nos sites de Internet, descrição do perfil das empresas e portfólio de produtos e serviços, entre outros dados de interesse, encontram-se em inglês, o que impede os trabalhadores de baixa escolaridade da região de tirar proveito desses conteúdos”, observa José Maldifassi.
De igual modo, o professor expõe os motivos de ordem política que também atuaram como impedimento. “Em Cuba, o acesso á Internet se acha restrito a uns poucos trabalhadores estatais, sendo que os demais profissionais estão impedidos de acessá-la por motivos políticos.”
Contudo, esse cenário teria começado a mudar, já que como bem observa Samuel Varas, professor da Faculdade de Engenharia e Ciências da Universidade Adolfo Ibáñez, cresceu nos últimos tempos a pressão para que o profissional esteja sempre disponível e acessível ao mundo empresarial. “Se observarmos os últimos rankings internacionais sobre produtividade, os resultados aconselham uma maior adoção e uso das TIC para a obtenção de melhoras substanciais de eficiência e rendimento das empresas.”
O motor da mudança
Um dos motivos dessa hiperconexão à Internet ficou evidente durante a Quarta Conferência de Inteligência de Negócios realizada recentemente em Santiago do Chile pela IDC. Alejandro Oliveros, diretor de pesquisa e de consultoria da IDC Southern Cone, explicou que hoje o valor da informação ocorre de forma desestruturada em bancos de dados da Internet e na quantidade de e-mails que recebemos todos os dias. “De acordo com nossas medições, o universo digital da informação tem um tamanho aproximado de 281 exabytes (281 bilhões de gigabytes) e, em 2011, a previsão é de dez vezes mais em comparação com 2006.”
Portanto, o custo do não aproveitamento de todas essas informações pode acarretar a perda de oportunidades importantes de negócio, observou Oliveros. O professor Carlos Bravo compartilha plenamente do cenário proposto pelo executivo, assinalando que “as oportunidades de negócios que se apresentam na Internet são numerosas, por isso a necessidade de estar conectado”.
Nesse ponto, Samuel Varas assinala que “estar cada vez mais plugado não só facilita o recebimento e envio de correios eletrônicos, como também potencializa a tomada estratégica e oportuna de decisões, que podem ser monitoradas de qualquer lugar e qualquer momento”.
Todavia, não apenas existe um motor econômico, explica Jorge Gatica, associado à atitude hiperconectada do empregado latino-americano, existem também motivações profissionais, sociais e individuais. “As motivações profissionais ficam evidentes na maior produtividade, graças à utilização de aparelhos que permitem ao trabalhador ficar disponível 24 horas do dia, nos sete dias da semana, ao passo que as motivações sociais decorrem do atual estilo da vida moderna, que amplia a pressão social para que o indivíduo esteja cada vez mais integrado à rede — pressão esta que se articula mediante a Lei das Redes. Isto significa que o valor de uso de uma rede de comunicações — no caso, a Internet — aumenta proporcionalmente a medida que aumenta também o número dos seus usuários.” As motivações individuais, acrescenta o professor, seriam determinadas pela necessidade de exibir uma imagem cada vez mais afinada com a tecnologia e pela necessidade de satisfazer exigências de consumo.
Outro fator responsável pela referida mudança refere-se à globalização da cultura, que leva os profissionais da região a adotar condutas de países desenvolvidos, observa José Maldifassi. “Não se deve esquecer também que os níveis de renda da região cresceram, transformando os mercados latino-americanos em consumidores mais ativos de produtos e serviços de TIC.”
Oportunidades e desafios da indústria
Os professores consultados concordam que a hiperconectividade continuará a se acentuar na América Latina, e que a essência da mobilidade — “em qualquer parte, em qualquer lugar” — passará a ser “em qualquer parte a todo momento”, o que remete a oportunidades atraentes para as diversas empresas da indústria.
Samuel Varas observa que, a curto prazo, “abrem-se possibilidades interessantes para os provedores, que poderão incorporar e massificar novos serviços como transmissão de imagens (televisão e videoconferência), voz sobre IP [VoIP] e serviços de localização, além das tradicionais aplicações de voz e transmissão de dados”. No que diz respeito aos efeitos disso sobre as empresas, o professor prevê que se abrirão novos mercados relacionados a serviços móveis de banda larga, seja através de aparelhos que convirjam para voz e dados, seja através daqueles que convirjam para o conteúdo propriamente dito.
Sem dúvida, prevê Samuel Varas, “o que foi dito aqui terá um impacto importante do ponto de vista econômico, traduzindo-se no aumento da produtividade e da atividade empresarial a médio prazo. Contudo, a oferta desse tipo de serviço dependerá da capacidade das atuais plataformas tecnológicas (cobertura de Internet e velocidade de banda larga) e das que forem implantadas futuramente”.
José Maldifassi explica os efeitos disso sobre as empresas da região, como o desenvolvimento de modelos de negócios baseados no processamento remoto da informação e o acesso a bancos de dados com informações de alta qualidade ou de cunho analítico. “Isso reforça a capacidade para mais negócios e de melhor qualidade, aumentando a eficiência e o rendimento da gestão produtiva, aspecto este que dependerá também do grau de capacitação conferido aos empregados no uso da tecnologia atual e das próximas inovações.”
“Na medida em que os países desenvolvidos aumentem a demanda por profissionais qualificados no domínio das TIC e outras competências, os trabalhadores latino-americanos terão maiores oportunidades de opção entre as alternativas disponíveis”, conclui Maldifassi.
A questão, ou a grande pergunta, na opinião de Enrique Canessa, consiste em saber se tudo isso realmente contribuirá para o aumento da competitividade da economia regional, “já que não basta apenas estar cada vez mais conectado, sendo igualmente necessário usar e aplicar as TIC corretamente”.
Sob esse aspecto, conforme o professor, há um desafio ainda não resolvido por parte dos provedores da indústria: converterem-se em “sócios” de seus clientes, de modo que as TIC sejam incorporadas de forma adequada às atividades dos profissionais, contribuindo para a produtividade e a inovação da empresa. “Embora haja intenção de chegar a esse ponto, a maior parte das empresas do setor está mais preocupada em vender hardware e software para automatização dos processos do que em proporcionar soluções que agreguem valor ao negócio das empresas regionais”, adverte Canessa.
Jorge Gatica conclui que “na medida em que novos funcionários, clientes e provedores afeitos à hiperconectividade e à mobilidade passem a trabalhar nas empresas da região, haverá pressão para que as operações internas da empresa acolham as inovações, sobretudo no que diz respeito às interfaces com diferentes comunidades e grupos de interesse”.
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