Alta da energia e o dólar: um coquetel fatal para as empresas chilenas
O fechamento da Cerâmica Cordillera, fabricante chileno de produtos de cerâmica vinculado ao Grupo belga Etex, e que se destacou no cenário econômico local durante 25 anos graças a suas atividades rentáveis, foi interpretado como sinal de alarme pelo setor empresarial do país.
Embora a empresa contasse com 43% de participação no mercado chileno de piso e revestimentos cerâmicos, não pôde fazer frente ao aumento de 600% do gás natural — seu principal insumo— nos últimos cinco anos, valor seis vezes maior do que o valor pago pela concorrência dos países vizinhos. Some-se a isso a queda do dólar, o que impossibilitou a empresa oferecer seus produtos a preços competitivos com os dos produtos importados. Por causa disso, 517 profissionais foram demitidos e a empresa acumulou uma dívida de 30 milhões de dólares, que poderá quitar antes de se declarar legalmente falida.
Embora haja rumores no mercado de que várias empresas locais estariam passando por uma situação semelhante ao da Cerâmica Cordillera, a Câmara Nacional do Comércio (CNC) do Chile e outras associações nacionais têm procurado evitar dar nomes para não atrapalhar eventuais negociações bancárias e evitar a instauração de um clima de insegurança no mercado de trabalho.
“A alta da energia e a desvalorização do dólar afetam tanto a atividade das empresas exportadoras quanto as atividades daquelas que abastecem o mercado interno”, observa Alejandro Montecinos, professor da Escola de Negócios da Universidade Adolfo Ibáñez. Ele acrescenta que “esses dois elementos se uniram para elevar os custos da produção doméstica e reduzir o volume de receitas dos itens produzidos, o que se traduz em um leque de produtos importados a um preço mais competitivo em comparação com a oferta local”.
As restrições às exportações de gás natural argentino para o Chile e o aumento dos impostos cobrados sobre o produto obrigaram a matriz energética do Chile a recorrer principalmente ao diesel e ao gás liquefeito. O problema é que essas duas alternativas já tiveram um aumento de 150% desde junho de 2005 até a presente data, repercutindo sobre o custo da energia elétrica.
Além disso, conforme explica Christian A. Johnson, professor da Escola de Negócios da Universidade Adolfo Ibáñez, “o enfraquecimento da economia americana e a redução das taxas de juros do país produziram um efeito de dimensões globais que obrigou os demais mercados a se locupletarem de dólares a baixo custo”. A moeda americana hoje mal chega a 450 pesos chilenos, ao passo que há dois anos estava cotada a 650 pesos.
O impacto sobre a competitividade e sobre as demonstrações financeiras
Para Rodrigo Escobar, diretor do mestrado em engenharia de energia da Pontifica Universidade Católica do Chile, “esse coquetel — aumento do preço da energia e desvalorização do dólar — está prejudicando a competitividade das empresas nacionais”. O professor observa que o preço da energia hoje supera qualquer economia que se possa ter conseguido em termos de conservação e eficiência. “Portanto, o impacto, do ponto de vista do custo de produção, é igualmente significativo no caso de empresas que hoje trabalham com uma certa eficiência energética.”
Germán Echecopar, professor da Escola de Negócios da Universidade Adolfo Ibáñez, discorre sobre o impacto da atual conjuntura sobre a atividade dos exportadores. “A redução dos preços em moeda local, além do incremento dos custos com energia, mataram as margens de lucro. Esse cenário persistirá por algum tempo, portanto é preciso pensar em mudanças drásticas diante de uma situação que se estenderá por muito tempo.”
Christian A. Johnson acha que “a ameaça principal aos exportadores é a alta competitividade de outras regiões com capacidade de produção a um preço mais competitivo, seja por causa do baixo custo da mão-de-obra, seja por causa da concessão de subsídios”. Seja como for, o professor salienta que a maior parte das empresas locais não tem outra alternativa senão transferir os custos mais elevados ao consumidor final.
Germán Echecopar, porém, trata mais detalhadamente das ameaças que colocam em xeque a situação financeira das empresas nacionais, tanto as que participam do comércio exterior como as que não participam. “As empresas já estão se endividando em pesos chilenos, e as mais endividadas terão de se sujeitar a despesas operacionais e financeiras mais onerosas em relação ao preço dos seus produtos.’ Isso, assinala o professor, resultará em sérios problemas de caixa na hora de fazer frente a suas obrigações contratuais, podendo vir a faltar as receitas necessárias ao pagamento das despesas incorridas “levando as empresas a uma situação de possível falência”.
Rodrigo Escobar, por sua vez, tem uma visão mais pessimista da situação. “Se as empresas não tiverem tomado medidas anteriormente e suas dívidas forem muito elevadas, ficarão em um beco sem saída. Poderão se endividar ainda mais, ou então colocar em prática programas de eficiência energética, mas a essa altura serão todas medidas paliativas.”
Pequenas e médias empresas: as mais vulneráveis
Para Guillermo Paraje, professor da Escola de Negócios da Universidade Adolfo Ibáñez, o segmento de mercado mais afetado pela desvalorização do dólar e do aumento do preço da energia “é constituído por pequenas e médias empresas, já que por sua menor capacidade e tamanho são as que apresentam tradicionalmente maior grau de vulnerabilidade nesse tipo de conjuntura”.
Christian A. Johnson diz que “as grandes empresas podem recorrer aos seguros cambiais em busca de proteção, defendendo-se em parte do vaivém do dólar, coisa que as pequenas e médias empresas não podem fazer, obrigando-as a enfrentar a volatilidade do preço da moeda internacional.” O professor ressalta que, sem dúvida alguma, essas empresas são as mais prejudicadas por contarem com menos respaldo financeiro “ou garantias, que lhes permitiriam reagir a episódios desse tipo, que põem à prova sua competitividade”.
Alejandro Montecinos também acha que a queda do dólar repercute com menos força sobre as grandes empresas, já que essas podem substituir a mão-de-obra por capital sem nenhum problema, “ao passo que os pequenos produtores dispõem de menos alternativas de ação devido a um fluxo de caixa mais modesto. Desse ponto de vista, portanto, justifica-se perfeitamente a intervenção do banco central no preço do dólar”, ressalta o professor.
Recentemente, a autoridade monetária chilena interveio para evitar que o valor da moeda continuasse a baixar. O governo de Michelle Bachelet também fez sua parte, reduzindo o imposto sobre a gasolina. Embora tais iniciativas tenham sido bem recebidas pelo mercado, há um consenso entre as principais empresas locais de que foram insuficientes.
Alejandro Montecinos diz que o governo poderia facilitar a concessão de subsídios aos setores mais desprotegidos, como as pequenas e médias empresas, através de empréstimos condicionados a planos de produtividade, ressaltando que “cabe ao Estado apoiar o setor privado em momento difíceis, como agora”.
Germán Echecopar concorda com Montecinos e observa que “o apoio estatal deveria também se estender aos empréstimos de longo prazo sob condições favoráveis, para modernizar as operações das empresas mais afetadas, ou seja, as pequenas e médias empresas”. Por outro lado, o professor observa que embora essas empresas contem com menos recursos para enfrentar as transformações exigidas pelo mercado internacional, “se reagirem rapidamente, poderão encontrar pequenos nichos de mercado menos afetados pelas forças econômicas, especialmente nos mercados locais”.
Oportunidades
Aproveitar o preço baixo do dólar para adquirir novos equipamentos e maquinário, substituindo assim a infra-estrutura antiga por tecnologia de ponta; tirar partido, além disso, do fato de que o sistema financeiro oferece crédito a taxas de juros mais baixas são algumas das oportunidades que vê Christian A. Johnson, apesar do clima adverso por que passam as empresas locais.
Para Germán Echecopar, porém, “a estabilidade da economia chilena é uma oportunidade em si mesma de sobrevivência à crise, já que temos uma base mais previsível em relação a outras economias da região e contamos com um sistema financeiro mais desenvolvido”.
Montecinos acredita que o principal desafio para os exportadores consiste em inovar, buscar outros nichos de produtos e dotá-los de maior valor agregado, “uma vez que o Chile exporta principalmente commodities, como frutas, verduras e produtos manufaturados, sendo exceção à regra a indústria do salmão e do vinho, que inovaram e incorporaram tecnologias de última geração a seus processos”.
Com relação à pesquisa e à inovação, é pouco o que podem fazer as empresas sozinhas, diz Montecinos, enfatizando que “essa contingência representa uma grande oportunidade para a criação de redes de colaboração e de associação com as universidades do país através de joint ventures”. De igual modo, Montecinos explica que, no Chile, o vínculo entre o segmento empresarial e as universidades é praticamente nulo, “e é graças a esse tipo de aliança estratégica, entre empresa e universidade, que se promovem projetos de inovação e de melhoria da produção, da gestão comercial, administração e também de setores mais técnicos, como a infra-estrutura tecnológica”.
Alejandro Montecinos acredita que se tais alianças se concretizarem, o país estaria em melhor situação para enfrentar o vaivém da moeda americana e a alta do preço da energia por meio da oferta de produtos de maior valor agregado e a preços mais baixos. “Para isso, é preciso aproveitar todos os recursos de capital humano de que dispõe o Chile fazendo-os trabalhar em conjunto”, observa.
Estratégias para amenizar a crise
Para combater a desvalorização do dólar, observa Christian A. Johnson, as empresas deveriam começar a negociar em outra moeda, como o euro, por exemplo, e, ao mesmo tempo, avaliar a possibilidade de se proteger através de seguros cambiais (futuros ou opções ao dólar).
Guillermo Paraje indica outra tática possível para as empresas: “Procurar outros mercados, evitando a concentração das exportações para um único destino e em um único produto. Isso, certamente, exige uma estratégia de longo prazo.”
Com relação aos preços elevados da energia, o caminho a seguir é mais complicado, explica Rodrigo Escobar, “uma vez que o custo da energia é tão complexo que não pode ser tratado com base apenas em um ponto de vista estratégico. Além disso, as empresas precisam ser compreendidas em seu dia-a-dia. Esse é um dos motivos pelos quais a maior parte delas não elaborou previamente planos de contingência para fazer frente à atual conjuntura”.
Para Alejandro Montecinos, a infra-estrutura energética atual do Chile contribui para a perpetuação da crise energética. “Estamos nos comprometendo com um projeto energético que se tornará mais caro a cada dia. Se a tendência do preço do petróleo se mantiver em alta, os custos das centrais que operam com diesel aumentarão cada vez mais”, observa o professor. De igual modo, ele estima que os projetos de centrais hidrelétricas à base de carbono e gás natural liquefeito, atualmente em construção, serão insuficientes para garantir um abastecimento a preços competitivos em 2012.
Não obstante isso, há soluções de longo prazo como as propostas por José Etcheverry, especialista em pesquisa e políticas de desenvolvimento de climatização e energia da David Suzuki Foundation, organismo de meio ambiente canadense que visa ao desenvolvimento sustentável. “O país deve dar atenção às energias renováveis e à eficiência energética, o que pode tornar a economia chilena mais rentável e avançada.”
Durante recente encontro sobre ‘Segurança e eficiência energética: uma contribuição científica para a geração de políticas públicas’, realizado na Pontifícia Universidade Católica do Chile e organizado pelo ministério de Relações Exteriores e pela Corporação Cultural Chiletodos (cujo propósito é o fortalecimento e a promoção da comunidade chilena no exterior), José Etcheverry disse que a energia solar fotovoltaica é um recurso com perspectivas positivas, sendo que seu uso cresce velozmente no Canadá.
“Os sistemas de telecomunicações canadenses utilizam muito os sistemas fotovoltaicos em razão do seu baixo custo. Trata-se de um insumo que as empresas chilenas poderiam levar em conta em seu plano de negócios daqui a cinco anos”, observa José Etcheverry.
Carlos Monreal, pesquisador científico e assessor de ciência do ministério da Agricultura e Agroalimentos do governo canadense, e que participou também do encontro sobre energia, disse que o “Chile tem um grande potencial em recursos e conta com reservas de biomassa florestal (refugos de madeira) que podem ser aquecidos em escala industrial, obtendo-se com isso uma alternativa à geração de energia térmica.”
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