Aftosa: uma enfermidade capital que castiga a Argentina
Desde que, em princípios de fevereiro, divulgou-se a notícia de um novo surto de febre aftosa, as autoridades argentinas vêm trabalhando contra o relógio para controlar o foco infeccioso na tentativa de evitar conseqüências mais graves para bem-estar econômico do país. Contudo já se começam a notar alguns sintomas: imediatamente, Chile, Brasil, África do Sul, Israel, Colômbia, Uruguai, Rússia, Cingapura, Paraguai, Peru, Bolívia, Argélia e a União Européia fecharam suas fronteiras parcial ou totalmente à carne oriunda do terceiro exportador mundial. Os especialistas acreditam que o vírus possa gerar prejuízos de mais de 350 milhões de dólares ao país.
Apesar do alarme gerado pela febre, a aftosa não implica risco algum para a saúde dos seres humanos, diferentemente da tão temida gripe aviária ou da doença da vaca louca. O vírus afeta a boca, o focinho, as unhas e outras partes de certos animais de unha fendida, como bovinos, ovinos, caprinos, suínos, javalis, cervos, lhamas, vicunhas, entre outros. Poucos dias antes de contraírem a doença, surgem lesões na boca dos animais tirando-lhes o apetite; posteriormente, sentem dificuldades para caminhar por causa das aftas que crescem nas unhas, impedindo-lhes de alcançar as fontes de água e comida. Por fim, morrem de inanição.
A hipótese do contrabando
Enquanto o Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar (Senasa) da Argentina procura concluir a investigação sobre a verdadeira causa do novo surto, o laboratório Biogénesis, responsável pela fabricação da vacina, limitou-se a dizer em um comunicado que “garante a qualidade de sua vacina anti-aftosa comercializada no país e nos mercados para onde é exportada”.
Já foram sacrificadas 800 cabeças de gado bovino na fazenda San Juan, na província de Corrientes, no noroeste do país, onde foi identificado o novo surto da enfermidade. Contudo, para piorar ainda mais o pesadelo dos donos da fazenda em questão, as autoridades do Senasa adiantaram que o restante do rebanho provavelmente terá de ser sacrificado, algo em torno de 3.067 animais.
“O controle do Senasa não falhou”, assegura o engenheiro agrônomo Juan José Grigera Naón, professor titular da cátedra de Bovinos de Carne da Universidade de Buenos Aires (UBA) e diretor do Departamento de Reprodução Animal da UBA. Pela primeira vez, acrescenta, “somos obrigados a admitir que o órgão comportou-se de acordo com as regras. Deve-se felicitar também o veterinário e o produtor da fazenda em questão, já que comunicaram imediatamente o ocorrido”.
O dr. José La Torre, diretor do Centro de Virologia animal do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Cocinet) é o único especialista que aposta na hipótese de que o novo surto possa estar relacionado com o contrabando de animais.
“A pergunta que se deve fazer — diz La Torre — é por que teria surgido um vírus onde supostamente não havia nenhum? O vírus do novo surto chegou associado ao animal, por isso não cremos que tenha sido um problema relacionado com a vacina, já que esta é de ótima qualidade, e os controles são adequados.”
Conseqüências do fechamento das fronteiras
Portanto, se o consumo de carne não é prejudicial às pessoas, por que o Brasil e a Bolívia interromperam totalmente a compra de carne? De acordo com Torre, “os países compradores impõem medidas preventivas que, na realidade, escondem uma negociação cujo objetivo é derrubar os preços. Em outras palavras, trata-se de um expediente paratarifário”. São medidas que restringem a liberdade do comércio exterior entre os países e que visam a um fim econômico.
Hernán Marini, médico veterinário, professor e diretor de Relações Institucionais da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Católica Argentina (UCA), concorda: “Muitos países fecham seus mercados, a princípio, por razões sanitárias, já que uma fazenda poderia contagiar outra. Contudo, outros países recorrem ao fechamento como uma espécie de barreira tarifária.”
La Torre e Marini observam ainda que os cortes de carne sem osso e sem gânglios não são contagiosos. “É bom esclarecer que os cortes de lombo, bife de lombo ou cuadrada podem ser exportados sem problema algum, principalmente se forem conservados em câmara fria durante pelo menos 48 horas”, explica o especialista do Conicet. “O mesmo acontece com a carne cozida”, acrescenta Marini.
O fechamento dos mercados de exportação poderá gerar prejuízos superiores a350 milhões de dólares, algo como 20% das exportações do ano anterior, que ultrapassaram 1,4 bilhão de dólares.
Esse efeito sobre a economia preocupa os especialistas. “Especialmente pelo enorme esforço que o país vinha realizando para entrar no mercado americano, que se abriria este ano”, disse Grigera. Agora, acrescenta, “será preciso esperar no mínimo mais 12 meses para a realização de novas inspeções e novas negociações de abertura”.
Alívio para a inflação?
Por outro lado, esperam-se também mudanças imediatas no mercado interno, já que se houver redução, a curto prazo, no volume da oferta destinada à exportação, “a quantidade de carne disponível internamente será maior, pressionando os preços para baixo”, observa o dr. Carlos Steiger, reitor da Escola de Economia e Negócios Internacionais da Universidade de Belgrano (EENI).
Embora o presidente Néstor Kirchner tenha negado que tal situação “nos deixe contentes”, não há dúvida de que a crise no setor de alimentação caiu como uma luva ao governo. Havia uma tentativa nesse momento de negociar um ajuste de preços com os produtores de carne em face da inflação galopante por que passa a economia argentina (em 2005, ficou acima de 12%).
Contudo, a redução do preço da carne significa pão na mesa hoje e fome amanhã. Segundo Grigera, da UBA, “o estoque de animais cairá pouco a pouco e, passado um ano, no momento em que o problema atual estiver superado e os mercados tiverem retomado o fôlego, não haverá estoque suficiente. Portanto, haverá nova subida de preços no mercado interno. Além disso, é preciso não esquecer que as pessoas de maior poder aquisitivo continuarão a aumentar seu consumo”.
Para Steiger, da EENI, “a questão do preço da carne está associada ao subdesenvolvimento, já que em razão das baixas receitas, a cesta de alimentos representa agora 40% do orçamento de grande parte dos argentinos, enquanto nos países desenvolvidos a incidência do fator alimentação é de cerca de 10%”.
Martín Simonetta, diretor executivo da Fundação Atlas, critica a perspectiva mercantilista da política comercial argentina, “já que o país vem se fechando tanto para as importações quanto para as exportações. É curioso que a lógica oficial, baseada na idéia de que o bloqueio às exportações aumenta a oferta de bens e impede a elevação dos preços internos, não cogite em desbloquear as importações, que também colaboram para o aumento da oferta de produtos. Trata-se de uma ferramenta antiinflacionária que funcionou com sucesso em outros momentos da história argentina”.
Entretanto, a situação pode mudar de figura a longo prazo, diz Steiger, “já que a oferta dependerá do confinamento ou do abate de reses das quais depende a expectativa de rentabilidade. O abate por falta de expectativas favoráveis pode reduzir ainda mais os preços. Contudo, do ponto de vista da demanda internacional, há cenários favoráveis, uma vez que, por razões diversas, há menos carne no mundo e a demanda está crescendo”.
Com relação aos investimentos, “pode acontecer de os produtores se voltarem para outras atividades, e quem pensava em abrir um matadouro talvez busque alternativas diferentes”, adverte Grigera, da UBA. Já Steiger, da EENI, observa que os investimentos só não são maiores porque faltam regras claras para o mercado e não há segurança institucional. “E uma vez que todo investimento exige uma maturação de longo prazo, esse tipo de instabilidade obviamente atenta contra os investimentos.”
Um futuro otimista
Embora os prejuízos econômicos sejam inevitáveis, nem tudo são más notícias para o país. Para Grigera, “o surto será controlado, mas vamos ter de brigar para recuperar os mercados perdidos. A Argentina pratica preços baixos. Já o Uruguai comercializa quase toda a sua produção a preços mais elevados. Para abastecer seu mercado interno, compra carne argentina, mas nós não podemos fazer o mesmo, porque é impossível comprarmos fora de nossas fronteiras carne mais barata do que aquela que produzimos”.
Marini, da UCA, também se mostra otimista no que diz respeito a um controle rápido do surto, “porque a campanha de vacinação contra a aftosa já vem de muitos anos. Isto significa que o rebanho nacional conta com um alto nível de proteção, dificultando a difusão do vírus. Assim, é preciso retomar imediatamente as negociações com os países que fecharam suas fronteiras. O melhor para a Argentina agora é que, a curto prazo, o país continue a exportar carne de zonas livres da infecção, já que o surto ocorreu apenas na região da Mesopotamia, ao norte do país”.
Por sorte, observa, tanto a União Européia quanto a Rússia vetaram apenas a carne oriunda da zona mesopotâmica, onde se acha a província afetada de Corrientes.
No futuro, “será preciso reforçar os controles”, diz La torre. E acrescenta: “Seria igualmente importante melhorar o sistema de monitoramento do gado. Existem sistemas de certificação elaborados pelo Concet que são bastante acessíveis. Alguns mercados mais exigentes, como o alemão, requerem esses certificados, mas nós aqui na Argentina achamos que a relutância em aplicá-los se deva ao fato de que eles dificultariam a criação de gado ilegal.”
Além disso, como observa Marini, já que a doença afeta todo o cone sul e as fronteiras se acham desprotegidas, a “questão da febre aftosa deveria ser tratada em nível regional, envolvendo países como o Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Chile etc.”
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