Article Image



Jóia da coroa do mercado acionário provoca disputa feroz

Em dezembro do ano passado, a bolsa alemã retomou a batalha pelo controle  dos mercados financeiros da Europa. A Deutsche Boerse fez uma oferta de compra à sua contraparte britânica, a London Stock Exchange (LSE), de 530 pennies por ação, avaliando assim em 1, 950 bilhões de euros esse mercado.

 

Uma semana depois, soube-se que a Euronext, a holding que congrega as bolsas de Paris, Amsterdã, Bruxelas e Lisboa, também desejava atrair o mercado britânico e com isso conquistar, definitivamente, a liderança do setor em toda a Europa, hoje em mãos dos britânicos.

 

A batalha promete ser longa. No dia 27 de janeiro, Clara Fusse, CEO da LSE, recusou a oferta da Deutsche Boerse, porém mostrou-se disposta a continuar negociando. Isto fez com que Jean François Theodore, principal executivo da Euronext, intensificasse suas investidas sobre a bolsa londrina, enquanto Werner Seifert, da bolsa alemã, anunciava que renovaria sua oferta, e não descartava a possibilidade de uma oferta pública de aquisição (OPA) hostil pelo mercado britânico.

 

Essas tentativas levadas a cabo no campo de batalha são reflexos, na verdade, de uma segunda onda de consolidação no setor. A primeira foi deflagrada exatamente pelas bolsas inglesa e alemã em 2000, por meio do chamado projeto  iX. Contudo, esse noivado jamais chegou ao altar por causa da oposição feita pelos “familiares” do mercado britânico, sobretudo os brokers, donos de cerca de um quarto da bolsa de Londres.

 

A ruptura foi oficializada no dia 22 de dezembro de 2000, apenas dez dias antes de Amsterdã, Paris e Bruxelas confirmarem sua intenção de compra em uma operação que se confirmaria nos primeiros meses de 2001. No ano seguinte, a Euronext compraria 51% do mercado britânico de futuros Liffe, acolhendo de braços abertos, na ocasião, a bolsa de Lisboa.

 

Será que a aquisição da bolsa londrina tem mesmo tantas vantagens a oferecer a ponto de ser ver tamanha disputa por sua aquisição? “Do ponto de vista do tamanho do mercado e de sua eficiência, há vantagens óbvias nessa operação de concentração dado o atual panorama acionário da Europa”, observa Sergio Torassa, ex-professor de mestrado em Finanças da Universidade Pompeu Fabra e hoje consultor independente.

 

“Melhoras operacionais e no setor de informações”

Gonzalo Chávez, professor de Finanças do Instituto de Empresa, também vê vantagens sob dois outros aspectos: “eficiência operacional e na transmissão de informações”. Com relação à primeira, destaca a geração de economias de escala. “Com uma única plataforma de negócios dotada de sistemas operacionais e de informações integrados, reduzem-se os custos para as bolsas.

 

“Além disso” — acrescenta —, “os clientes desses mercados, entre eles as empresas que desejam emitir títulos, terão menos bolsas com que lidar e, portanto, menos custos. Nesse sentido, já há uma demanda por medidas que tornem os custos dos serviços oferecidos pelas bolsas mais competitivos”, disse.

 

A Euronext já fez uma avaliação das possíveis sinergias obtidas com a aquisição da bolsa de Londres, embora, diferentemente de sua rival alemã, não tenha formalizado nenhuma oferta concreta, limitando-se a informar que o pagamento seria feito em dinheiro. De acordo com os responsáveis pelo mercado encabeçado por Paris, a compra da LSE geraria sinergias no valor de 203 milhões de euros nos três primeiros anos.

 

Com relação à maior eficiência na transmissão de informações, Chávez explica que “se os dois grandes mercados unirem de fato suas estruturas, conforme planejado, surgirá em decorrência disso um mercado muito líquido, gerando-se concomitantemente economias em maior escala. Com a maior globalização do mercado, os investidores passarão a comprar e a vender mais, o que, por sua vez, resultará na redução dos custos operacionais”.

 

Quando um investidor individual deseja comprar uma ação, recorre a um personagem  denominado “criador de mercado”, que lhe oferece uma posição de compra e de venda. A diferença entre uma e outra é chamada de spread e representa a compensação que obtém o criador de mercado pelo risco inerente à liquidez proporcionada. De acordo com o professor do Instituto de Empresa, “os spreads aumentam ou diminuem em função da liquidez do mercado. Por isso, quanto mais compra e venda houver, menor será o risco do criador de mercado e menores os spreads, reduzindo-se assim o custo da transação.”

 

O cetro está em jogo

Todavia, todas essas sinergias e melhoras operacionais não passam de um aspecto a mais do que parece ser o verdadeiro interesse por trás dessa operação: a conquista objetiva dos mercados financeiros da Europa. Na ocasião em que apresentou os detalhes de sua proposta de negócios em Londres, Jean François Theodore procurou dar um status especial à sua oferta afirmando que ela criaria um “líder europeu de dimensões maiores do que qualquer outra combinação possível”, numa clara alfinetada à oferta de Frankfurt.

 

Sob esse ângulo, entende-se o interesse por Londres, uma bolsa cuja contratação anda perto dos 4,15 trilhões de euros, valor superior à somatória da Euronext (1,95 trilhão), Deutsche Boerse (1,23 trilhçao) e Bolsas e Mercados Espanhóis (963,367 bilhões), instituição responsável pela gestão da bolsa espanhola.

 

Se somarmos os negócios realizados pela LSE aos de qualquer um de seus pretendentes, teremos um quadro nítido do volume de benefícios obtidos com a aquisição da jóia da coroa, bem como do cenário definitivo que se desenhará no mapa acionário do continente. “Qualquer uma das operações determinaria o veredicto final sobre os mercados de valores europeus. A nova bolsa seria um pólo de atração de tal magnitude que se converteria em ameaça para os demais mercados”, observa Sergio Torassa.

 

Chávez concorda e vai mais além ao afirmar que se a LSE for comprada de fato, criando assim um grupo de grandes dimensões, “é possível que haja uma reação em cadeia por parte dos mercados que ficarem de fora da operação. Madri e outras praças se verão forçadas a tomar uma decisão em relação ao futuro, de modo que não fiquem isoladas tornando-se mercados periféricos”, disse. Outras praças de segunda linha seriam a italiana, a nórdica — denominada OXM e da qual fazem parte Helsinki, Estocolmo, Copenhague e Vilnius — e a suíça, todas elas com valores negociados ligeiramente inferiores aos do mercado espanhol.

 

Esse novo mercado acionário gigantesco repercutiria também no mundo empresarial, de acordo com Sergio Torassa. “Do ponto de vista das empresas, aquelas que quiserem um lugar ao sol no primeiro time não terão outro remédio senão emitir ações nesse mercado, como já acontece atualmente com empresas não-americanas com ações listadas em Nova York. A aquisição da LSE por um ou por outro pretendente daria lugar a uma espécie de Wall Street européia.”

 

O obstáculo regulatório

Diante da pouca eficácia da proposta alemã, Theodore preferiu não falar sobre preços por enquanto, detendo-se nas principais dificuldades que se colocariam a uma operação desse tipo, procurando com isso uma saída e soluções convincentes tanto os acionistas da Euronext quanto para os do mercado britânico.

 

Um dos temas mais complexos — a questão dos marcos regulatórios — já se encontra em processo de avaliação por meio de pedido de esclarecimentos feito à Autoridade de Serviços Financeiros (FSA), o grande regulador dos mercados britânicos, que já demonstra preocupação com a possibilidade de a LSE cair em mãos de uma instituição estrangeira, dados os problemas operacionais e de boa governança que resultariam disso.

 

De acordo com Gonzalo Chávez, “no campo da regulamentação, há numerosas dúvidas que deverão ser tratadas paulatinamente. São inúmeros os questionamentos, por exemplo, sobre o que acontecerá à transparência e à boa governança. Quais regras serão adotadas? A que legislação recorrer no momento de defender os interesses dos acionistas de uma companhia britânica se a LSE for adquirida pela Euronext ou pela Deutsche Boerse?”

 

Torassa concorda e afirma que “há necessidade de mudanças importantes. Uma operação de concentração de tais dimensões levaria as demais instituições a implementar reformas de mesmo calibre para adequar-se às novas circunstâncias. O problema é que o pensamento das autoridades européias não vai atualmente por essa via”.

 

Por esse motivo, os próximos lances estão suspensos à espera da jogada definitiva da Euronext ou de Frankfurt. Quem vencerá a batalha da Inglaterra? “No momento, só a Euronext apresentou números concretos sobre as possíveis sinergias resultantes da compra da LSE, o que lhe confere uma posição relativamente vantajosa. Além disso, ela tem a seu favor o fato de que conhece os termos da oferta feita pela Deutsche Boerse, e que foi recusada pela LSE. Por enquanto, tudo o que temos não passa de especulação”, conclui Chávez.


Publicado em: 09/03/2005


Printer Friendly Version



Sponsor Knowledge@Wharton

buscar | inscrição | sobre nós | ajuda | início | contato | patrocinadores


O copyright de todos os materiais é propriedade da Wharton School da Universidade de Pennsylvania e Universia. Política de Privacidade