Sim, existe vida depois da China
O dragão, o gigante adormecido, ou simplesmente China, despertou, e desde que começou a abrir sua economia, não pára de crescer. E, praticamente no mesmo ritmo, cresce seu insaciável apetite por matérias-primas. A América Latina percebeu isso e passou então a exportar para este país e a atrair investimentos. Contudo, nem tudo que reluz é ouro. Os especialistas consultados advertem sobre o perigo que há em limitar a exportação latino-americana a matérias-primas. Fazem também uma recomendação: aproveitar a plataforma chinesa para avançar sobre as demais regiões do sudeste asiático.
A República Popular da China tem mais de 1,25 bilhão de habitantes, dos quais estima-se que 8% estejam abaixo da linha da pobreza. Apesar de se autodenominar comunista, tornou público em 1978 seu objetivo de incrementar o desenvolvimento por meio de uma reforma que traria mudanças profundas em sua economia, incorporando os mecanismos de mercado e reintroduzindo o país no comércio mundial e nos mercados financeiros internacionais.
Desse momento em diante, a China passou a experimentar um crescimento econômico irrefreável, entre 7% e 9% ao ano, um fenômeno que mudou por completo o cenário do comércio internacional. No início, foram os países desenvolvidos os que primeiro apostaram suas fichas na China, investindo pesadamente no país. Em anos recentes, a América Latina juntou-se timidamente ao ritmo imposto pelo gigante.
Este novo panorama significou, entre outras coisas, uma mudança no comércio norte-sul, dando lugar a um intercâmbio sul-sul cada vez mais fluido. Um dos melhores exemplos disso na América Latina é o Chile, país que há pelo menos dez anos começou a estreitar os laços com a Ásia. Foi precisamente essa visão que permitiu aos chilenos colocar seus produtos na China e em outros países asiáticos mais desenvolvidos, como o Japão.
“De modo geral, a América Latina esqueceu-se da Ásia porque não tem laços fortes com este continente. Alguns países, como o Chile, souberam tirar proveito da situação a tempo, alcançando não somente a China como também o Japão. Essa lenta incursão latino-americana não agrada aos EUA, porque este não considera boa idéia a ‘amizade’ da China com países subdesenvolvidos”, observa Gerald McDermott, professor assistente de Gestão da Wharton.
A combinação de um mercado doméstico gigantesco com um estoque abundante de mão-de-obra barata e uma rápida taxa de crescimento econômico fizeram da China um protagonista de grande destaque na economia mundial. Além disso, o país conserva sua moeda muito abaixo do dólar, razão pela qual seus produtos penetram facilmente nos EUA e em muitos outros países.
Ao que tudo indica, a afirmação de McDermott é correta. Além do México, Peru e Venezuela, bem como os países mais importantes do Mercosul, Brasil e Argentina, buscam hoje desesperadamente um lugar na concorrida agenda chinesa. O presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, esteve em março passado em Pequim, capital da China, e, além de sua comitiva, levou junto mais de 500 empresários com o objetivo de incrementar o comércio entre os dois países. O mesmo fez recentemente Néstor Kirchner, presidente da Argentina, ao visitar a China na companhia de 270 empresários.
Alimentos para 1,24 bilhão de chineses
As visitas dos mandatários sul-americanos a empresários e funcionários do governo geraram expectativas renovadas. Eles voltaram com as malas cheias de promessas, acordos firmados e com a garantia de que o intercâmbio crescerá. A Argentina, por exemplo, assinou um memorando de cooperação com a China na área de biotecnologia; outra conquista foi a abertura do mercado chinês para a exportação de cítricos argentinos. Até onde, porém, irá esta abertura comercial, e que rumo tomará?
Os economistas calculam que o potencial de exportação do Mercosul para a China é suficiente para alimentar três quartas partes dos mais de 1,24 bilhão de chineses, já que esse bloco de países sul-americanos — do qual também fazem parte o Uruguai e o Paraguai — é responsável por 50% das exportações mundiais de alimentos. Este dado refere-se especialmente à produção de soja, milho, carnes etc. O Mercosul pode também abastecer a China com aço, gás natural, cobre e urânio, materiais essenciais nesta etapa de crescimento e de modernização do gigante asiático.
Infelizmente, porém, o Mercosul só se beneficia de parte das oportunidades possíveis: em 2003, menos de 2% das importações chinesas tiveram origem no mercado sul-americano. No caso argentino, as exportações representam apenas 0,8% da demanda do “Dragão”.
Além disso, do total de produtos exportados pelo Mercosul à China, mais de 80% provém do setor agropecuário. Essa equação ganha contornos ainda mais fortes no caso argentino, que em 2003 vendeu a seu sócio asiático produtos que totalizaram US$ 2,35 bilhões, ou 125% a mais do que o ano anterior. Foram produtos em grande parte de origem agropecuária, segundo informações fornecidas pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura. Em outras palavras, azeite, feijão, peles, couro, madeira e cereais.
Por outro lado, as exportações do Brasil à China totalizaram, em 2003, US$ 6,68 bilhões de dólares. A China está ávida por alimentos e produtos agropecuários “porque é um país de uma pobreza imensa. Todavia, a América Latina não deve exportar apenas commodities, mas também produtos mais elaborados e com valor agregado”, assinala McDermott.
A Argentina tem experiências de sucesso nesta área, principalmente no setor de software, uma indústria que requer muitas horas de programação e de desenvolvimento. Juan Acevedo Miño, diretor do Centro de e-Learning da Secretaria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade Tecnológica Nacional, assessorou uma empresa Argentina na colocação de seus produtos na China. “Meu papel foi assegurar a qualidade do produto. Constatamos por meio de vários estudos que os chineses, de modo geral, dão muito valor às normas, daí a importância da certificação do produto argentino pela ISO 9000, uma norma importante para o setor de software”, explica.
Para garantir a inserção exitosa do produto nesse mercado, procurou-se também “apresentá-lo em inglês, chinês ou mandarim, já que, felizmente, a Argentina possui excelentes tradutores de chinês”, disse Miño. O ponto-chave da estratégia que permitiu a entrada do produto argentino no gigantesco mercado asiático foi a busca, segundo o professor, de um preço mais baixo em relação a outros similares, “além de uma prestação de serviços online de 24 horas por dia durante os 365 dias do ano”.
China: porta de acesso ao sudeste asiático
O certo é que também a China vê a América Latina como um grande mercado para seus produtos. “A China não faz nada de graça. Os chineses também querem colocar seus produtos e seus investimentos na América Latina”, ressalta McDermott.
Os produtos de origem têxtil estão na mira da China. De fato, o México, que tem uma indústria parecida, sofreu a invasão dos produtos asiáticos, de preços muito mais em conta. A Argentina também teme essa indústria; embora alguns enxerguem na China a possibilidade de crescer por meio da aquisição de máquinas fabricadas no país, muito mais baratas. E é justamente a indústria têxtil argentina que deve obter financiamento no valor de US$ 250 milhões para a compra de bens de capital, um crédito que será concedido por dois bancos chineses.
Os governos do Mercosul procuraram também captar investimentos na China, sobretudo para a construção de portos, estradas-de-ferro e rodovias — e até mesmo redes transoceânicas em direção ao Pacífico, até portos do Peru e Chile. Os acordos, as exportações concretizadas e as promessas de investimentos constituem motivo de esperança e de confiança no que diz respeito às relações entre América Latina e China. Seja como for, deve-se ver nisso apenas o início de uma parceria que, para se consolidar, terá de contar com esforço de ambos os sócios a longo prazo.
Tanto a China como os países latino-americanos são subdesenvolvidos e têm de lutar contra dificuldades tecnológicas e outras decorrentes da pobreza, da precariedade econômica e do acesso ao crédito. Terão também de se conhecer melhor, principalmente no que se refere às diferentes culturas e realidades. María Martha Rodríguez Blanco, diretora da Lexor, uma empresa Argentina especializada em software, acredita que é preciso dar mais atenção a certos detalhes: “O mercado chinês constitui um grande desafio para nós. Os produtos, por exemplo, devem ter necessariamente uma apresentação em ideogramas chineses. Por outro lado, temos de aprender a negociar com um país asiático, isto é, é preciso aprender quais as regras de conduta nesse caso. Empresas do mundo todo, e de todos os tamanhos, estão de olho na China, portanto a concorrência é grande. Cremos, porém, que vale a pena tentar.”
Outra coisa que a América Latina precisa fazer é diversificar seus mercados. “Não acho que se deva enfatizar demais o mercado chinês. É preciso que a América Latina diversifique os mercados e aproveite a plataforma chinesa para chegar a outros países do sudeste asiático”, disse McDermott.
Também fazem parte do sudeste asiático países como a Índia, Paquistão, Coréia, Japão, Cingapura e Filipinas, entre outros. Isto significa que não se deve fazer da China uma árvore que encubra o acesso a um bosque cheio de perspectivas que nos oferece o comércio internacional. McDermott observa também que a Argentina “deve zelar por sua imagem em todo o mundo, para que haja mais confiança no país, sobretudo quando, do lado de fora, observam-se escândalos e fragilidades políticas internas. Por outro lado, tanto a Argentina como seus demais colegas latino-americanos devem buscar competir com o sudeste asiático, diferenciando-se dele no tocante aos serviços prestados, à qualidade e à competitividade dos produtos.”
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