BBVA encontra no México sua grande oportunidade de crescimento
As oportunidades de crescimento no setor financeiro são cada vez mais raras, por isso o Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) achou por bem não deixar passar o momento oportuno com que se deparou no México. A força do euro lhe deu de bandeja a possibilidade de propor uma oferta sobre os 40,6% que não ainda possuía do Bancomer, o que lhe permitirá controlar integralmente o banco mais poderoso do México, cujo Produto Interno Bruto (PIB) é o maior da América Latina. Os especialistas classificam a operação, que ocorre no âmbito de uma efervescência corporativa no setor, como um reflexo do retorno da confiança por parte dos investidores internacionais nos países mais avançados da região.
A demonstração anual de resultados do BBVA, divulgada no dia 2 de fevereiro, veio acompanhada de uma notícia a um só tempo inesperada e relevante. O segundo maior banco espanhol anunciou o lançamento de uma oferta pública de compra (OPC) de 40,6% do Bancomer, que ainda não possuía. Trata-se do maior banco centro-americano, com participação de mercado de 25%.
A operação custou ao BBVA 3,3 bilhões de euros, o que o obrigou a despender um enorme esforço financeiro. Pero Francisco González, presidente da instituição, não teve dúvidas: “Não é fácil encontrar hoje em dia uma oportunidade tão clara, cujo risco seja apenas o da execução, já que o Bancomer acha-se integrado ao grupo BBVA desde junho de 2000”, observou o executivo por ocasião da entrevista coletiva que se seguiu à notícia.
Os analistas concordam e elogiam a operação. E não somente eles, como também os investidores internacionais, que destinaram à transação fundos mais do que suficientes para cobrir na quarta-feira passada e, em apenas quatro horas, a ampliação de capital do BBVA em 2 bilhões de euros, o que lhe permitiu cobrir 60% da compra do Bancomer.
Para Altina Sebastián, professora adjunta da Universidade Complutense de Madri, o interesse demonstrado pelos investidores é sinal de que a compra foi considerada bem-sucedida em âmbito estratégico. “As perspectivas econômicas são agora mais positivas para a América Latina, e bastante positivas para o México. A operação realizada permitirá ao BBVA, agora o segundo maior banco da Espanha, diminuir a distância em relação ao Santander (SCH). No México, ele tomará a dianteira em relação ao seu rival”. Ali, o grupo presidido por Emilío Botín (SCH) controla 98% do Banca Serfin, o terceiro maior banco do país, de capital fechado.
Gonzalo Garland, professor de economia do Instituto de Empresa, acha interessante o momento escolhido pelo BBVA para ampliar suas atividades no México. “Depois de patinar em uma recessão que tomou conta do país nos últimos três trimestres de 2001 e iniciar uma recuperação muito suave em 2002 e 2003, todos os prognósticos se mostram positivos para o México, tanto no curto como no médio prazo. A economia encontra-se muito atrelada à dos EUA, para onde convergem 90% de suas exportações, o que lhe permitirá beneficiar-se de seu maior crescimento”, assinala Garland.
Além disso, o país apresenta uma situação financeira das mais estáveis da região: “A dívida corresponde a apenas 27% do PIB — ante os 44% do Brasil. O México também é o único país da região, ao lado do Chile, com classificação favorável aos investimentos”, ao contrário das demais nações, onde os investimentos são considerados “especulativos”, classificação que se aplica às dívidas que oferecem riscos elevados aos investimentos de numerosos fundos. De acordo com Garland, “um dos pontos obscuros no que se refere ao México é a concorrência emergente da China, embora isso não tenha impacto direto sobre o setor financeiro e sim sobre determinadas corporações”.
Trata-se de um mercado “interessante” para o BBVA, prossegue o professor, porque “a penetração das atividades bancárias no México é muito inferior à da Europa, e por isso mesmo oferece um potencial maior de crescimento. Além disso, as taxas de juros praticadas são mais altas — 4% — e mais estáveis do que em outras regiões”.
A questão das taxas de juros não é de modo algum fútil. Na Europa, os baixos percentuais — 2% — pressionam fortemente o negócio tradicional dos bancos, já que são eles que medem a margem de intermediação (ou spread, diferença entre os juros cobrados pelos bancos pelos empréstimos concedidos e o montante que pagam pela captação dos fundos). Portanto, nas contas de resultados de 2003, o spread na Espanha e em Portugal manteve-se intacto, com um crescimento de 1%. Contudo, na América Latina, onde as taxas de juros são mais elevadas, essa margem superou os 10% em moeda local; isto é, não foi levada em conta a depreciação das taxas de câmbio.
Aumento de volume
De acordo com Altina Sebastián, “observa-se uma retomada de crescimento de índole não-orgânica devido à pressão que exercem sobre as margens dos bancos as baixas taxas de juros. Como compensar margens tão estreitas? Não há outra saída senão aumentar os volumes”. Para Sebastián, seria esse o argumento que estaria animando novamente o interesse pelos movimentos de fusões e aquisições no setor financeiro, “que vem se valorizando desde o outono de 2003”.
Em janeiro, com a compra do Bank One pelo JP Morgan Chase, verificou-se a segunda fusão em apenas dois meses nos EUA. Em novembro, o Bank of America fundira-se ao FleetBoston. Além disso, circulam rumores na Europa de que bancos americanos estariam interessados em adquirir bancos europeus. Segundo boatos, o Bank of America estaria interessado no Barclays, e o Citigroup, no Deutsche Bank. Há rumores também de operações transnacionais na Alemanha e Itália. De acordo com Sebastián, “os bancos têm buscado continuamente oportunidades de crescimento, hoje tão escassas. Trata-se de um mercado muito maduro, onde é impossível conquistar clientes novos, portanto a única saída é arrebatá-los da concorrência”.
O comportamento do BBVA, prossegue Sebastián, tem também uma carga simbólica: “Com essa fusão, o BBVA quis sinalizar ao mercado que, em meio a essa onda de fusões e aquisições, o banco acha-se próximo dos maiores do setor. Com a nomeação de Francisco González para a presidência da instituição, o discurso oficial tornou-se moderado em relação a épocas anteriores, em que havia manifestações públicas sobre intenções de crescimento. Agora, porém, elas se mostram muito mais dinâmicas.” O próprio Francisco González vangloriou-se dessa fome de crescimento pouco depois de anunciar a operação em que esteve envolvida sua filial brasileira. “Estou contente com a oferta feita pelo Bancomer, mas não satisfeito; queremos muito crescer e estaremos atentos a novas oportunidades.”
Por enquanto, de acordo com os analistas, declarações desse tipo continuarão a gerar rumores de que o banco talvez faça alguma aquisição nos EUA, ou amplie sua participação de 14,9% no italiano BNL, embora a instituição tenha desmentido tais especulações. “Não faremos mais nenhum comentário sobre o futuro. Trataremos das operações à medida que forem se concretizando”, declarou González durante a entrevista coletiva.
Um dos fatores favoráveis ao BBVA na transação mencionada foi a força do euro (o peso caiu 21% em 2003 em relação à moeda européia). Culpava-se até agora a moeda única por boa parte dos males que sobrevieram aos grandes bancos espanhóis, já que se atribui a ela a depreciação das moedas latino-americanas, o que redunda em menores rendimentos quando se convertem em euros os lucros obtidos na região. A aquisição em pauta, entretanto, mostra que um euro forte pode ser também muito vantajoso: apesar de as ações do Bancomer terem subido 111% em pesos a partir do momento em que o BBVA passou a engordar o capital do banco em junho de 2000, na conversão para o euro, a instituição espanhola pagou somente 78 centésimos por ação desta vez, quando na ocasião havia pago 74.
O BBVA adquiriu participação no Bancomer no verão de 2000 com a aquisição de 30% da entidade, percentual que foi se elevando até chegar aos 59,6% atuais. Em 2003, a filial mexicana fez um aporte de 406 milhões de euros em favor do BBVA. Esse valor corresponde a 56% dos 715 milhões de euros com que a América Latina contribuiu para o resultado do grupo. Por fim, se o banco espanhol obtiver 100% de participação no Bancomer, o aporte de capital poderá chegar a 700 ou 800 milhões de euros, 1/3 dos lucros atribuídos à entidade, que em 2003 foram de 2,227 bilhões de euros. Este valor pressupõe um aumento de aproximadamente 30% em relação ao ano anterior, quando os lucros tiveram uma redução de 27% em virtude de provisionamentos feitos por causa da crise argentina.
O banco de investimentos Goldman Sachs considera a operação “estrategicamente positiva” para o banco espanhol, embora advirta para o fato de que ela “aumentará a volatilidade dos lucros do BBVA” em função do maior peso que terá para os resultados do banco à América Latina, uma região de maior instabilidade. Para Altina Sebastián, tal situação constitui um pedágio para o qual não há outro remédio senão pagar. “É certo que com essa operação será maior a volatilidade dos lucros do BBVA e, portanto, também o risco. Contudo, para que haja maior rentabilidade, é preciso arriscar mais”, acrescenta a professora,
A América Latina será confiável novamente?
Um debate que começa a vir à tona em torno da operação do BBVA questiona se não seria ela reflexo da volta definitiva da confiança dos investidores internacionais na América Latina. Para Gonzalo Garland, “não se trata da volta da confiança em toda a região, mas em países específicos, como o México e o Brasil. Entretanto, não se percebe essa mesma confiança em relação a outras regiões, como Venezuela e Argentina. No caso da Argentina, porém, as dúvidas se explicam pelas dificuldades colocadas por Kirchner no processo de negociação com o FMI e pelo congelamento das tarifas de preços dos serviços públicos”.
Altina Sebastián, por sua vez, acredita que a operação aponta efetivamente para o retorno da confiança na região: “Na minha opinião, trata-se de uma demonstração clara de confiança na América Latina. Se observarmos as contas de resultados, veremos que os provisionamentos para possíveis insolvências diminuíram consideravelmente. A longo prazo, os países latino-americanos oferecem oportunidades interessantes. Trata-se de mercados menos desenvolvidos, em que se observam as maiores oportunidades de crescimento, ainda que acompanhados de riscos igualmente maiores.
As estimativas de crescimento para a economia mexicana encontram-se na faixa de 2,5% a 3% em 2004 e de 3,3% em 2005. Na entrevista coletiva em que foi anunciada a compra do banco, Francisco González disse que o México “é, de longe, a economia mais saudável da América Latina. Não há dívida e nem déficit fiscal e, portanto, nada tem a ver com outros países emergentes”. O presidente do BBVA destacou que tanto o PIB quanto a renda per capita do México são duas vezes maiores do que os do Brasil.
Sem mencionar o concorrente, a mensagem de González tinha em mente o banco Santander, que tem no Brasil sua grande aposta na região desde a aquisição do Banespa. Ali, o BBVA tem apenas 4,4% do Bradesco, entidade cuja capitalização é de 5,2 bilhões de euros.
Sebastián recorda que o “Santander e o BBVA levaram para a América Latina os produtos tradicionais que tanto êxito tiveram no mercado espanhol”. No princípio, o BBVA optou por uma fórmula de entrada na região mediada por acordos com os bancos locais que lhe permitiram o controle da gestão. A estratégia mudou com a compra do Banco Francês na Argentina, em 2001, embora a crise do país obrigasse a instituição a buscar mercados com indicadores mais seguros, como o mexicano, sobretudo depois de reduzir sua posição no Brasil com a venda do BBVA Brasil ao Bradesco em janeiro de 2003.
O fato de que dois grandes bancos tenham repartido os dois maiores mercados financeiros não se explica pelo desejo de ambos de evitar a concorrência. De acordo com Sebastián, o “BBVA e o Santander apostaram em mercados distintos, mas não porque quisessem evitar a concorrência em um mesmo país, e sim porque o Santander pagou um preço muito alto pelo Banespa, que o BBVA não tinha como cobrir”.
Vendas industriais
Outro aspecto muito importante da operação Bancomer foi que parte do financiamento da transação foi feita com a venda de participações industriais cujos valores superaram 1,4 bilhões de euros. O banco vendeu 0,25% da participação que tinha na Telefónica; 1,2% na Iberdrola; 2,3% na Repsol; 2,3% na Gas Natural e 0,47% na Endesa. Além disso, obteve nos últimos meses receitas de 466 milhões com a venda em participações financeiras não-estratégicas, como os 24,4% do Banco Atlántico, vendidos a Sabadell; 50% da Driect Seguros, vendidos a AXA e 9,9% do banco marroquino Wafabank.
Segundo Altina Sebastián, “quebra-se com isso a tendência verificada antes das grandes fusões no setor bancário espanhol, quando os bancos diversificaram seu negócio investindo em empresas de telecomunicações e elétricas, entre outras. Verifica-se agora um novo deslocamento, passando-se dos investimentos industriais para os financeiros”. E por que isso? “São movimentos ditados pela moda e pelos ciclos econômicos. A desvantagem do investimento industrial é que ele tem um impacto muito forte sobre as contas de resultados. Por um lado, se a situação econômica for desfavorável, aumenta a morosidade e as contas de resultados sofrem com o aumento de provisionamentos. Por outro lado, com o esfriamento dos mercados, diminui o valor das participações industriais.”
Os desinvestimentos em participações industriais podem ser também decorrentes do acordo de Basiléia II — como são conhecidas as normas em gestação para a regulamentação de solvências bancárias —, visto que o referido acordo poderia incrementar o consumo de capital que os investimentos nas empresas impõem às entidades financeiras em decorrência dos riscos envolvidos. Contudo, não se sabe ao certo ainda a forma definitiva que tomará o acordo.
Se os varejistas do Bancomer aceitarem a oferta feita e as autoridades mexicanas não vetarem a operação — o Banco do Brasil mostrou-se contrário à intenção do BBVA de manter o capital fechado — o BBVA arrematará 100% de uma instituição com nove milhões de clientes, 1.650 agências, primeira no ranking de negócios de transferências de imigrantes, com participação de mercado de 40%, cujo valor em bolsa é de 7,75 bilhões, além de ser a quarta empresa mais capitalizada do país.
Para Altina Sebastián, “a pergunta-chave aqui é se a operação será capaz de gerar valor. Para que isso ocorra, a rentabilidade do investimento terá de ser maior do que o custo do capital. A operação terá de ser mais rentável ao acionista do que outros investimentos possíveis. A oferta pública de ações será tanto mais rentável para o BBVA”, assinala Sebastián, “quanto forem as melhoras introduzidas na gestão e no aprimoramento da eficiência do negócio”.
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