“O que o mercado exige de nós é rentabilidade e transparência”
Inditex é uma das empresas mais admiradas do mundo. Presente em mais de 40 países, com 1.747 lojas e oito cadeias de moda - entre elas Zara, Pull & Bear e Massimo Tutti - seu modelo de gestão é considerado um verdadeiro caso para estudo. Defensora do crescimento orgânico e sem publicidade, cuida de sua imagem com extremo cuidado, por meio da localização de suas lojas nas esquinas mais importantes de cada cidade. No entanto, um dos aspectos que mais chama atenção é o modelo de liderança da empresa. O presidente e fundador, Amancio Ortega, é um ferrenho defensor de sua intimidade, a qual só rompeu em uma ocasião, o último dia 18 de setembro, quando concedeu sua primeira entrevista ao jornal britânico The Times. A face visível da empresa e que atua como interlocutor para os investidores é José María Castellano, vice-presidente e representante do conselho. Essa dupla oferece à Inditex a dose necessária de discrição e transparência, mas também deu origem a todo tipo de questionamento. A Universia-Knowledge@Wharton entrevistou José María Castellano sobre este assunto.
Universia-Knowledge@Wharton: Um dos aspectos que mais chama a atenção na Inditex é seu modelo de liderança discreta. Esse aspecto pode influir na confiança dos investidores?
José María Castellano: A Inditex é uma empresa com ações na bolsa de valores desde maio de 2001, ou seja, há mais de dois anos. No período anterior a seu lançamento na bolsa, a empresa fez um esforço expressivo que visou torná-la conhecida pelos investidores, explicando sua estrutura, seu modelo de negócios, sua organização. Os investidores demonstraram sua confiança respondendo à oferta pública de ações e gerando uma demanda pelas ações superior à oferta, principalmente quanto aos investidores institucionais. A partir desse momento, continuamos aplicando a política de máxima transparência que, acredito, continua sendo correspondida pela confiança dos investidores.
UK@W: Como se explica que o presidente da empresa não é quem responde publicamente aos investidores sobre o andamento do grupo?
Castellano: Trata-se de uma decisão pessoal de nosso presidente, que é perfeitamente conhecida e creio que compreendida pelos investidores. O que os investidores exigem são informações oportunas e detalhadas sobre a evolução de nossos negócios e o contato sem problemas com a equipe que dirige a empresa. Nesse sentido, acredito que satisfazemos suas expectativas.
No dia 19 de setembro, depois que a Inditex anunciou um crescimento de 21% no primeiro semestre do ano, seus títulos caíram 12,8% na bolsa. Essa não é a primeira vez que os investidores perdem a confiança no grupo galego/espanhol. No mês de março último, a Inditex sofreu um abalo na bolsa, com uma queda de 20%, depois de crescer "apenas" 29% em 2002.
UK@W: A que se deveu essa forte queda? É possível justificar uma desvalorização desse tipo com crescimento tão grande?
Castellano: O movimento da cotação das ações depende, em última instância, das decisões de compra ou de venda dos investidores, de acordo com as informações de que dispõem sobre uma empresa e das perspectivas que supostamente ela apresenta. Em março deste ano, houve uma ligeira diferença entre as previsões de alguns analistas e os resultados finais apresentados pela Inditex e, ainda que tenham sido bons em termos objetivos, causaram uma certa decepção.Com o passar dos meses, a empresa se recuperou após essa queda, à medida que a confiança dos investidores em nosso negócio foi restabelecida. Porém, qualquer empresa que esteja na bolsa tem de saber que o mercado tem liberdade para julgar sua atuação. De fato, um dos objetivos almejados no mercado da bolsa é precisamente ter um ponto de vista externo sobre o desenvolvimento da empresa.
UK@W: O mistério que cerca a empresa pode ter afetado, de alguma maneira, essa queda nas cotações?
Castellano: Não acredito que esta empresa gere incertezas ou esteja cercada de mistério. Muito pelo contrário, acredito que somos uma das empresas mais transparentes de nosso setor, tanto na Espanha quanto internacionalmente. Somos bastante conhecidos por gestores e analistas, pelos jornalistas especializados e pelos investidores. O público em geral inclusive tem, através dos meios de comunicação, uma imagem próxima da empresa. Nossa empresa é utilizada como caso para estudo nas escolas de administração da Espanha e de outros países. Francamente, não acredito que nenhuma empresa jogue com a incerteza como fator de valor; a Inditex, pelo menos, não faz isso.
UK@W: O senhor acredita que o mercado acabará por exigir que o presidente apareça mais publicamente?
Castellano: Francamente, acho que o mercado entendeu perfeitamente a posição de Amancio Ortega e que não exige que ele apareça mais nem existem motivos para que ele faça isso no futuro. O que o mercado exige de nós é rentabilidade e transparência.
UK@W: Qual é a explicação para o desejo do Sr.Ortega de continuar no anonimato?
Castellano: A decisão de Amancio Ortega de minimizar suas aparições públicas está relacionada com a proteção de sua vida privada e familiar. A Inditex tem seu centro de operações em uma pequena cidade, onde não é fácil manter a privacidade. Isso seria praticamente impossível para uma pessoa com presença destacada nos meios de comunicação.
UK@W: Qual é o esquema da Inditex quanto à divisão de poder entre o presidente Amancio Ortega e o senhor, o representante do conselho. Qual é o papel desempenhado por cada um?
Castellano: Amancio Ortega é, além do principal acionista de Inditex, com quase 60% das ações, o presidente executivo da sociedade. Isso significa que é o responsável máximo pela empresa, de forma direta, com papel perfeitamente definido, tanto nos órgãos de gestão da sociedade, como em seu cotidiano. Logicamente, depois de muitos anos à frente da empresa, Amancio Ortega aglutina uma equipe de profissionais – entre os quais me encontro - aos quais delegou a gestão cotidiana das diferentes áreas do negócio. Ele continua à frente da empresa, de sua estratégia e de suas grandes decisões e nós, seus colaboradores, temos diferentes níveis de responsabilidade em função de nossa posição na empresa. No meu caso em particular, essa responsabilidade é ser representante do conselho, cuja única especificidade com relação às outras empresas é o fato de eu ter assumido um certo papel público que o presidente prefere não assumir pessoalmente.
UK@W: A discrição, que sempre foi característica da Inditex (não só pelos aspectos comentados anteriormente, mas também por outros pontos, como o desejo de crescer sem publicidade), pode continuar agora, que é uma empresa com ações na bolsa?
Castellano: A Inditex cumpre escrupulosamente – diria eu que de forma mais que suficiente - a obrigação de informar seus acionistas, investidores e o mercado em geral, que é decorrente de sua condição de empresa com ações no mercado. Faz isso independentemente de sua política de comunicação manter um determinado perfil. Com relação à publicidade, não creio que as campanhas comerciais desempenhem função informativa imediata aos investidores.
UK@W: Essa discrição, de fato, sempre foi vista como um dos sinais distintivos da empresa e uma de suas armas. É realmente uma estratégia ou simplesmente falta de confiança no impacto da publicidade?
Castellano: A Inditex adotou uma linha de ação compatível com sua filosofia, com sua cultura empresarial e que, com o tempo, adequou-se a seus interesses do ponto de vista dos negócios. Em nossa atividade, não acho que se possa falar de discrição: nossas lojas são bem visíveis nos lugares com maior tráfego de pessoas de centenas de cidades da Europa, América e Ásia. Não desconfiamos da publicidade, mas sim optamos por um tipo de investimento publicitário que não é o convencional. Nossa publicidade são as vitrines de mais de 1.700 lojas que temos no mundo.
UK@W: A empresa recebe críticas por parte dos investidores institucionais, principalmente estrangeiros, pela recusa de Amancio Ortega de aparecer em público?
Castellano: Nunca. Quando nos perguntam sobre isso, explicamos a posição de nosso presidente e ela tem sido aceita e compreendida.
Modelo de boa administração
UK@W: A Inditex é uma das empresas mais transparentes e avançadas em matéria de boa administração. O senhor considera que a administração corporativa e o funcionamento do conselho devam ser regulamentados?
Castellano: Não só acreditamos nisso, como também demos passos significativos neste sentido, adiantando-nos, inclusive, à regulamentação de alguns aspectos. Há dez anos, o primeiro conselheiro independente foi incorporado ao Conselho de Administração da Inditex e, hoje, eles representam a metade de seus membros. No ano 2000, foram criadas dentro do Conselho comissões de Auditoria e Nomeações, tendo sido aprovado um regulamento e, desde 2002, emitimos informes públicos anuais sobre a administração corporativa. Na última Assembléia Geral de Acionistas, em julho deste ano, foram aprovadas modificações dos estatutos sociais e um regulamento da própria Assembléia para cumprir as novas obrigações de transparência, informação e proteção do investidor, introduzidas pela Lei de Reforma do Sistema Financeiro e de acordo com as recomendações contidas no Informe Aldama, antes de ser exigido por Lei.
UK@W: É possível exigir o mesmo rigor em matéria de boa administração de uma empresa familiar com ações na bolsa como a Inditex e de uma empresa não-familiar?
Castellano: O rigor deve ser o mesmo, na medida que são empresas com ações, independentemente de qual seja a estrutura de seu grupo de acionistas. A existência de um núcleo de acionistas estáveis ligados por laços familiares ou de outro tipo não pode condicionar o grau de exigência imposta a uma sociedade.
UK@W: A Inditex mantém distinção entre as figuras do presidente e do representante do conselho. Os códigos de boa administração recomendam a formação desta dupla. O senhor considera realmente importante esta divisão?
Castellano: Em nosso caso, essa separação de papéis é produto da própria história da empresa. Eu não poderia afirmar que nosso organograma seja melhor ou pior que o de outras empresas que têm modelo diferente. De qualquer maneira, é o que foi mais útil e eficiente, mas não é necessariamente o melhor para outras empresas com outro tipo de fatores condicionantes.
Expansão internacional
UK@W: Os Estados Unidos são um desafio pendente na estratégia da empresa, que tem ali uma dezena de lojas. Para quando está planejada a ofensiva definitiva?
Castellano: Ainda não temos um calendário definido para a expansão nos Estados Unidos. Atualmente estamos concentrando nossa capacidade de crescimento na Europa, em especial em locais como Reino Unido, Alemanha, França e Itália, mercados onde ainda temos muito espaço para crescer. Como exemplo, temos menos de 30 lojas na Alemanha, onde alguns de nossos concorrentes superam o número de 200 estabelecimentos.
UK@W: Quais foram os obstáculos que enfrentaram nos EUA e não nos outros países?
Castellano: Em relação aos Estados Unidos, estamos abrindo cerca de duas ou três novas lojas por ano e ampliamos nossa presença em Nova Iorque, onde abrimos as primeiras lojas, até a Flórida e Porto Rico. Vamos abrir, ainda antes do fim do ano, a primeira loja em Washington e não excluímos novos empreendimentos em outras cidades, porém, não como parte de um plano de expansão programado. Os Estados Unidos são um mercado muito grande, complexo e diferente do europeu, que exigirá de nós um grande esforço, que hoje estamos dedicando ao crescimento na Europa.
UK@W: O senhor planeja aumentar a publicidade para atacar um mercado tão amplo e no qual a imagem tem tanta importância, como o norte-americano?
Castellano: Não temos nada planejado, considerando que ainda não demos início a um plano de expansão neste país.
UK@W: A Inditex pensa continuar mantendo seu modelo de crescimento orgânico ou não descarta possíveis aquisições para entrar em novos mercados?
Castellano: Não descartamos nenhuma possibilidade e de fato realizamos aquisições no passado. Contudo, para nosso modelo de negócio, é mais simples criar um novo formato do que incorporar uma empresa estranha, o que exige um processo de adaptação importante. Isso ocorreu com sucesso no caso de Massimo Dutti e Stradivarius, mas se trata de duas entre as oito cadeias que formam o grupo atualmente.
UK@W: A sucessão da Inditex é um dos principais pontos de interrogação em torno da empresa. Quais são as alternativas que a empresa está estudando? Ela poderia perder sua característica familiar?
Castellano: Os gestores que, no futuro, venham a dirigir a Inditex farão isso sob as diretrizes de seu Conselho de Administração e, definitivamente, de seus acionistas, como em qualquer outra empresa. Quanto à propriedade da empresa, é uma questão que diz respeito exclusivamente a seus atuais acionistas. No entanto, devo ressaltar que um dos objetivos visados pela entrada da empresa na Bolsa era eliminar a incerteza com relação à transcendência do projeto no que se refere ao ciclo de vida de seu fundador.
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