Article Image



Automóveis híbridos: Será que a Ford, a General Motors e a Chrysler irão se equiparar à Toyota e à Honda?

A notícia de que, pela primeira vez, a Toyota superou a Chrysler em agosto, alcançando a terceira posição em vendas de automóveis nos EUA, é o último aviso sobre a vulnerabilidade da Ford, da General Motors e da Chrysler à concorrência estrangeira. Além disso, o fato nos faz atentar para uma área de crescimento em que essas três fabricantes americanas estão com uma defasagem de vários anos - o mercado de veículos híbridos a gasolina/elétricos.

 

Embora atualmente os híbridos representem uma fração minúscula do mercado, estão sendo desenvolvidos por fabricantes japonesas e americanas que buscam reproduzir as características de desempenho dos veículos convencionais e, ao mesmo tempo, aumentar drasticamente a economia de combustível e diminuir as emissões.

 

A diferença fundamental entre as empresas japonesas e as chamadas Big Three (as Três Grandes) é que a Toyota e a Honda vêm vendendo seus veículos nos EUA desde 1999, ao passo que o primeiro modelo de uma montadora americana - o utilitário esporte compacto Ford Escape - não deverá ser lançado antes do terceiro trimestre de 2004.

 

Todas as montadoras reconhecem que o alto volume de vendas de híbridos dependerá de sua capacidade de produzir híbridos que pareçam carros normais a gasolina, dêem a impressão de o serem e tenham o mesmo desempenho. Depender de motoristas que tomem suas decisões de compra com base nas emissões, na economia de combustível ou na fonte de energia jamais criará um mercado de massa, dizem os analistas.

 

Os três modelos no mercado atualmente - dois da Honda e um da Toyota - fazem parte da categoria de carros compactos, cujas vendas provavelmente não serão expressivas por estarem muito distantes da tendência do mercado.

 

50 milhas por galão

"Muita coisa depende da potência e do desempenho”, afirmou o professor de administração da Wharton John Paul MacDuffie, co-diretor do Reginald H. Jones Center for Management Policy, Strategy and Organization. "O teste real será se as pessoas comprarão carros maiores com motores híbridos."

 

Como resultado, a versão de 2004 do modelo híbrido Prius da Toyota é maior e mais potente que seu predecessor de tamanho compacto, embora apresente maior economia de combustível e ofereça uma combinação de 50 milhas por galão e menos emissões. Está sendo vendido a um preço-base de US$ 19.995, o mesmo que a primeira versão lançada nos EUA em 2000. A versão híbrida do Honda Civic de 2004, com preço de US$ 19.650, consome oficialmente um galão de gasolina a cada 51 milhas. Estes números se comparam com 29 e 38 milhas por galão, respectivamente, no caso do Toyota Corolla, e 30/38 m.p.g. no caso do Honda Civic convencional.

 

Consegue-se maior economia de combustível com o uso de um motor elétrico que move o carro em velocidades baixas ou quando em marcha lenta. O motor a gasolina passa a operar automaticamente quando uma velocidade mais alta ou uma  aceleração mais brusca é necessária. A energia gerada durante a frenagem é captada e armazenada na bateria.

 

Os híbridos planejados pelas montadoras dos EUA atendem à mesma demanda do público por carros maiores e mais potentes. Os primeiros híbridos em showrooms da General Motors, por exemplo, serão o Chevrolet Silverado e o GMC Sierra, ambas pickups full size previstas para o final do próximo ano.

 

Mas Detroit conta com poucos incentivos imediatos para competir com os japoneses, por muitas razões. Em primeiro lugar, o mercado é pequeno - esperam-se 50.000 vendas nos EUA este ano em um mercado total de 16 milhões. Além disso, os incentivos fiscais não compensam os preços de compra de US$ 3.000 a US$ 4.000 acima dos modelos convencionais equivalentes e, ainda, a opção de escolha do consumidor é muito limitada.

 

As três grandes, cuja participação no mercado americano caiu para 57,9% em agosto, a maior baixa em 22 anos, também não estão dispostas a gastar seus escassos recursos com uma tecnologia sem comprovação de aceitação comercial em tempos de dificuldades financeiras. Os lucros do segundo trimestre tanto da Ford quanto da GM foram menores do que há um ano, ao passo que a Chrysler divulgou déficit no período. “Estão preocupadas com a própria sobrevivência”, observou MacDuffie.

 

Não existe uma grande expectativa de pressões para que sejam promulgadas leis obrigando os veículos a serem menos poluentes e mais econômicos da parte do governo Bush, mais preocupado com o aspecto comercial. O governo Bush demonstrou seu ceticismo com relação ao aquecimento global desconsiderando o Tratado de Kyoto e apoiando as células de combustível de hidrogênio – uma perspectiva distante – em vez da tecnologia híbrida, como solução para o transporte não poluente no futuro.

 

E as montadoras americanas concordam com esta posição, pois não estão desejosas de investir em uma nova tecnologia para a qual não haja uma demanda em massa comprovada. “Conseguiram desconsiderar a questão ambiental totalmente”, afirmou MacDuffie. “A Ford foi a única que anunciou o objetivo de lutar por uma tecnologia menos poluente, mas se afastou do prometido.”

 

As três grandes também estão limitadas por sua dependência das economias de escala, um fator menos importante para os japoneses. "As montadoras japonesas conseguiram minimizar as economias de escala", afirmou MacDuffie. "É mais fácil para eles produzir pequenos volumes."

 

O alto custo dos híbridos

A liderança japonesa na corrida dos híbridos também é explicada por sua aparente disposição de subsidiar cada carro que sai da linha de produção. "Os custos de desenvolvimento dos híbridos são extremamente altos", afirmou Rex Parker, vice-presidente da Autopacific, firma de consultoria do setor de Los Angeles e Detroit. "É perfeitamente possível que as primeiras poucas unidades custem meio milhão de dólares cada. Grande parte do dinheiro está sendo aplicada como investimento em tecnologias futuras."

 

O alto custo do desenvolvimento dos híbridos pode ser a razão por trás da decisão da Toyota de oferecer apenas 36.000 unidades do novo modelo Prius, um número que provavelmente não será suficiente para satisfazer a demanda, disse Parker. "Conseguiram cumprir sua proposta política e tecnológica; ir além destes custos se torna economicamente inviável."

 

A Toyota produzirá mais unidades do novo Prius se a demanda for garantida, contou Dave Hermance, executivo de engenharia ambiental do centro técnico da empresa. Todos os modelos de alta produção da Toyota deverão oferecer opções híbridas dentro dos próximos 10 anos, observou Hermance. Ele se recusou a revelar quanto a empresa investiu até agora no desenvolvimento de híbridos.

 

As três grandes, por sua vez, estão planejando lançar 10 modelos híbridos nos próximos cinco anos, e afirmam que o interesse dos compradores potenciais está aumentando. Angela Coletti, porta-voz da Ford, contou que a empresa recebeu cerca de 15.000 pedidos de informações em seu website sobre o híbrido Escape SUV no espaço de uma semana. "Definitivamente, acreditamos que a demanda do mercado está crescendo", afirmou Coletti, acrescentando que a Ford tem planos de lançar outros modelos híbridos após o Escape e o sedan de tamanho médio Futura (que deverá ser lançado em 2005). Ela se recusou a revelar quanto a Ford investiu em desenvolvimento de híbridos até o presente momento.

 

No entanto, como o primeiro híbrido de Detroit ainda demorará um ano para ser lançado, as três grandes poderão ficar receosas em relação ao projeto todo, afirmou MacDuffie. "Se estiverem muito longe de oferecer protótipos que funcionem, talvez estejam dispostas a desistir deles."

 

As fabricantes americanas também estão de olho na Europa, pois lá os preços de combustíveis são muito mais altos e as normas mais rígidas de emissões sugerem que há espaço para as vendas de híbridos decolarem. Mas eles terão que superar a concorrência dos motores a diesel, amplamente utilizados no continente e que oferecem melhor milhagem que a versão a gasolina.

 

As estimativas do potencial do mercado dependem em parte da capacidade de desmistificar conceitos errôneos do público de que possuir um híbrido significa "ter de ligá-lo na tomada a cada noite". As estimativas serão também influenciadas pelo número de estados que seguirem a Califórnia no promulgamento de regulamentações de emissões que tenham potencial para incentivar a demanda por híbridos e outros veículos com baixas emissões. Até o presente momento, quatro outros estados adotaram medidas semelhantes.

 

David Friedman, diretor de pesquisa do Clean Vehicle Program da Union of Concerned Scientists (UCS) em Washington D.C., estima que as vendas de híbridos poderão chegar a 1 ou 2 milhões por ano, ou até 40 vezes sua taxa atual, nos próximos dez anos. A taxa dependerá parcialmente da aprovação, pelo Congresso, de medidas atualmente em debate para fornecer incentivos fiscais que reduziriam em até US$ 3.000 o preço de um híbrido, fazendo com que estes veículos pudessem competir com seus pares convencionais.

 

A perda de uma oportunidade de mercado

Na ocorrência de uma situação defendida mas não prevista pela UCS, os Estados Unidos poderiam paralisar o crescimento no consumo de petróleo nos níveis de 2010 se as vendas de híbridos aumentassem entre 4 e 5 milhões por ano. No entanto, Friedman admite que o mercado ainda não tem esse potencial. "Os motoristas não estão preparados ainda para esse crescimento rápido."

 

Mesmo sem as projeções mais otimistas, existe o perigo de as montadoras dos EUA perderem terreno na competição dos híbridos, observou Friedman. A General Motors, por exemplo, está se preparando para oferecer alguns modelos comuns que utilizam tecnologia convencional para conseguir economizar combustível. "A GM já está tentando proteger suas apostas nos híbridos."

 

Ela poderá se arrepender de fazê-lo se a tecnologia dos híbridos realizar seu potencial de oferecer desempenho melhor do que o dos motores a gasolina convencionais, sugeriu James Winebrake, diretor do Instituto de Política Pública do Instituto Rochester de Tecnologia em Rochester, N.Y. "Os híbridos terão um impacto incrivelmente grande. Alguns conseguirão ter desempenho melhor que os veículos convencionais e, ao mesmo tempo, ser eficientes e não-poluentes. Se não investirem, temo que as empresas americanas estarão perdendo uma grande oportunidade de mercado."

 

Winebrake não quis estimar a extensão do mercado, mas previu que os híbridos se tornarão muito atraentes para os consumidores quando combinarem economia e eficiência com um desempenho na verdade melhor do que o dos veículos a gasolina convencionais.

 

A natureza dual do motor híbrido permite um maior escopo para avanços tecnológicos do que a versão convencional, pois os engenheiros têm flexibilidade para desenvolver tanto seus componentes elétricos quanto a gasolina, argumentou. "Este é o início da curva tecnológica; em alguns anos, o desempenho dos híbridos ultrapassará o dos carros normais", previu. Ele descartou, por ser "extremamente baixa", a estimativa do Departamento de Energia dos EUA de que os híbridos serão responsáveis por apenas 4% do mercado em 2025.

 

Mas algumas provas indicam que os fabricantes de automóveis terão que trabalhar duro para criar uma demanda significativa por híbridos. Em 2002, uma pesquisa da consultora do mercado automobilístico J.D. Power and Associates verificou que apenas 37% dos entrevistados afirmaram que a economia de combustível influenciava sua escolha de um veículo, sendo este o oitavo fator mais importante. Os fatores mais importantes foram dirigibilidade e desempenho, citados por 69% dos entrevistados.

 

As preocupações mais importantes dos consumidores com relação aos híbridos são a insuficiência de sua potência e desempenho, citada por 34% dos entrevistados, o fato de que sua compra e manutenção custarão caro demais e também o fato de não serem considerados confiáveis, segundo constatação da pesquisa.

 

A pesquisa descobriu ainda que os entrevistados também estavam mais inclinados a comprar veículos a diesel - desde que incluam tecnologia não-poluente - para economizar combustível. A demanda por veículos a diesel não-poluentes excede a demanda por híbridos à medida que o preço do combustível aumenta.

 

Entretanto, em tempos de maior preocupação com formas de energia mais seguras, mais pessoas parecem estar dispostas a ao menos considerar a compra de um carro híbrido. No final de setembro de 2001, logo após os atentados de 11 de setembro, quase dois terços dos consumidores afirmaram que provavelmente considerariam a hipótese de adquirir um desses veículos.

 

Recentemente, a J.D. Power reduziu sua previsão de vendas de híbridos para 531.000, ou cerca de 3% do mercado em 2013, em comparação com uma estimativa anterior de que a marca de meio milhão seria alcançada em 2008. A redução se deve à sentença de um caso em que a General Motors e a Daimler Chrysler processaram a California Air Resources Board por sua norma que obrigava a um grau zero de emissões. A sentença efetivamente reduziu as exigências de economia de combustível da lei. Portanto, para o analista do mercado automobilístico Walter McManus, da J.D. Power, a sentença deve resultar na redução da demanda por híbridos e outros veículos de baixa emissão.

 

Por enquanto, a atenção está centrada no novo Toyota Prius, a ser lançado dia 17 de outubro, na expectativa de quaisquer sinais de um novo nível de demanda por veículos híbridos. "O novo Prius poderia ser um substituto para o Corolla", afirmou MacDuffie. "Os híbridos maiores serão a chave para este mercado."


Publicado em: 08/10/2003




Sponsor Knowledge@Wharton

buscar | inscrição | sobre nós | ajuda | início | contato | patrocinadores


O copyright de todos os materiais é propriedade da Wharton School da Universidade de Pennsylvania e Universia. Política de Privacidade