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Com algumas reformas básicas, os mercados de capitais da China estarão prontos para alçar vôo

Os mercados de capitais da China, inclusive os setores de operações bancárias, de capital de risco e as bolsas de valores, continuam em seus estágios iniciais. Porém, os profissionais da área financeira que fazem negócios no país dizem que estes mercados estão crescendo rapidamente e, uma vez estabelecidos, podem ser bem-sucedidos em evitar alguns dos erros cometidos por seus colegas nos Estados Unidos.

Até agora, o crescimento dos mercados de capitais da China foi estimulado por sua enorme população e a relativamente recente adoção da livre iniciativa, que provocou uma enxurrada de atividades empresariais. “A população da China – 1,3 bilhão de pessoas – faz do país o maior mercado consumidor do mundo”, diz Sharon Avison, sócia-diretora da Princeton Global Consulting Group. “E o lançamento de um maior número de bens de consumo e serviços começou a criar uma infra-estrutura de serviços financeiros para o consumidor.”

Como é do conhecimento de qualquer pessoa que acompanha o noticiário sobre negócios, a China está bem estabelecida como a “oficina” do mundo, com fábricas sendo instaladas em todo o país. Essa combinação – uma enorme população ávida por bens de consumo e fabricantes que estão crescendo rapidamente – tem atraído mais capital estrangeiro a cada ano que passa. “No ano passado, o investimento estrangeiro direto na economia chinesa chegou a US$ 52 bilhões, um aumento significativo em relação ao ano de 2001”, diz Avison, ex-funcionária do Bank of America. “E o investimento direto durante os dois primeiros meses deste ano foi ainda maior – US$ 22 bilhões em apenas dois meses.”

Avison fez esses comentários no final de abril durante um painel sobre os mercados financeiros nascentes na China, realizado durante o Fórum de Negócios Chineses da Wharton. O fórum foi realizado pouco antes do surto da síndrome respiratória aguda (SARS), cujo impacto até agora é difícil de avaliar. Alguns analistas sugerem que a SARS pode reduzir de 1 a 3 pontos percentuais o crescimento do produto interno bruto de US$ 6 trilhões do país; outros dizem que a epidemia não fará qualquer diferença. Segundo estes analistas, se a SARS realmente chegar a refrear o crescimento da China, provavelmente será só por algum tempo, uma vez que a epidemia parece já ter dado sinais de estar regredindo.

Uma etapa fundamental para a continuidade do rápido crescimento dos mercados de capitais será a privatização dos quatro maiores bancos do país, que ainda pertencem ao Estado, diz Avison. “A principal questão com que se defrontam é o alto valor de créditos irrecuperáveis. Estimativas oficiais indicam uma taxa de 25% de devedores incobráveis, ou um total combinado de US$ 1,8 trilhão. Pode ser até que o valor seja superior a isso.” Uma vez que os investidores privados não vão querer assumir os riscos por estes empréstimos, as autoridades governamentais terão de resolver a situação sem provocar turbulências na economia. Além disso, para poder atrair capital estrangeiro, os banqueiros chineses terão de demonstrar que reformaram suas políticas de empréstimos.

As dúvidas sobre devedores incobráveis estão diminuindo também o ritmo de crescimento do setor de crédito ao consumidor, diz Avison. Em termos simples, os chineses não têm tido acesso a produtos financeiros como cartões de crédito e outros tipos de crédito ao consumidor e os credores estão preocupados por não saber como lidar com eles. Os chineses, por sua vez, desconfiam de cartões de crédito. “Aconteceu a mesma coisa nos EUA quando surgiram os primeiros cartões de crédito”, diz Avison, acrescentando que, para tentar atrair os consumidores chineses para o dinheiro de plástico, os credores talvez devessem primeiro tentar usar cartões de débito.

Por fim, o crescimento do setor de crédito ao consumidor deverá estimular o crescimento de outros setores financeiros, aumentando a capacidade dos empresários chineses médios de investirem nos empreendimentos uns dos outros. “Os consumidores vão começar a poupar muito, o que deverá gerar dinheiro para investir em novos negócios”, prognostica Avison.

“Falar é fácil”

Charles Lee, sócio-diretor e fundador da Charles Lee Enterprises, empresa de investimentos de risco, descreveu o mercado de capital de risco da China como “embriônico”, mas observou que esse tipo de negócio no país não é assim tão diferente do mercado dos Estados Unidos. Não importa onde Lee invista, seus critérios para selecionar empresas são os mesmos. “Eu tenho cinco critérios: o número 1 é gente. O número 2 é gente. O número 3 é – adivinhe – gente. O número 4 é o mercado e o número 5, tecnologia. Gente é a fonte de todas as idéias.”

Assim que começa a investir, ele aplica os mesmos métodos em todo o lugar. “Se você toma meu dinheiro emprestado, toma a mim também: isso acontece na China assim como nos Estados Unidos.” Ele traz sua experiência dos setores de telecomunicações e tecnologia da informação e de uma rede de contatos no Vale do Silício e em Wall Street.

Jim Miller, presidente e principal executivo da China Elite Ltd., empresa de pesquisa de mercado com sede na China, concorda com a avaliação que Lee faz do mercado de capital de risco. Para Miller, no mínimo os investidores no mercado de capital de risco que estão tentando investir na China são muito parecidos com seus colegas dos Estados Unidos.

Miller, ex-executivo da UTStarcom, companhia de telecomunicações da Califórnia com fábricas na China, fundou a China Elite em 2001 para ajudar empresas norte-americanas de tecnologia como a Microsoft e a Oracle a identificarem clientes em potencial, administrar call centers para empresas chinesas e pesquisar audiência e propaganda na televisão chinesa.

À época da fundação da China Elite, Miller tentou atrair investidores em capital de risco, porém teve pouco sucesso. “Cada empresa que eu contatava mostrava bastante interesse, mas em pouco tempo aprendi minha primeira lição sobre capital de risco: falar é fácil. Acabamos conseguindo a maior parte de nossos recursos financeiros de parceiros estratégicos e pessoas físicas dispostas a investir em novas empresas.”

Miller descobriu que os investidores americanos em capital de risco são “muito conservadores quando têm de decidir em que investir”. Na maior parte dos casos, eles queriam garantias de que teriam uma saída – isto é, a capacidade de vender suas ações e, preferivelmente, conseguir ter algum lucro – em cinco a dez anos. Mas é simplesmente impossível prever isso em uma economia em desenvolvimento como a da China, diz Miller.

Steve Sammut, sócio da Burrill & Co. e palestrante da Wharton, concorda com as observações de Miller. “Existe um pensamento uniforme entre os investidores em capital de risco; eles se interessam somente por um pequeno número de modelos de empresas”, diz ele. “Mas quando se está tentando construir uma economia nacional, a última coisa que se deseja é adotar um modelo de capital de risco do Vale do Silício. Estamos começando a construir a indústria da China e vamos precisar de novos enfoques.”

Miller reconhece, no entanto, que os investidores em capital de risco precisam ter garantias de que poderão sair a qualquer momento, mesmo que os horizontes do investimento sejam maiores na China. E, atualmente, os mercados financeiros da China não são desenvolvidos o suficiente para oferecer muitas opções.

“Atualmente, estamos em uma fase com poucas opções de saída”, observou. O mercado de ações de Hong Kong abriu suas portas para companhias do continente e, à medida que as empresas da República Popular da China passem a vender ações lá, os investidores deverão estar capacitados a vender suas ações. O problema é que alguns investidores estrangeiros são precavidos em relação às ações negociadas na bolsa de valores de Hong Kong, em virtude de os requisitos de registro não serem tão rígidos quanto os da Bolsa de Valores de Nova York e os da Nasdaq. De acordo com Miller, a República Popular da China tem sua própria bolsa de valores, mas “ela tem sido usada basicamente como veículo para a venda de ações das companhias estatais. Trata-se de um mercado altamente manipulado, com índices relativamente elevados de P/L (índice de preço/lucro). Mas, à medida que os investidores estrangeiros comecem a fazer pressão pela reforma, a Bolsa vai se tornar uma forma importante de obter recursos de capital a partir do consumidor chinês.”

Aquisição – uma terceira opção de saída para as empresas chinesas

Até que os mercados de capitais estejam bem estabelecidos, os chineses talvez tenham de depender substancialmente deles mesmos – e de parentes que morem no exterior - para obter recursos para seus empreendimentos, concordam os participantes do fórum. Isso é o que eles têm feito há muito tempo, disse Lee, que nasceu na China. “Existem 55 milhões de chineses vivendo no exterior e eles sempre foram uma fonte importante de repatriação (de dinheiro).“

Avison acrescenta ainda: “Durante muitos anos, vimos muitas pessoas saindo da China, mas agora estamos vendo muitas optando por ficar nos Estados Unidos por algum tempo, para depois voltar para casa com alguma especialização. Esse capital intelectual é que vai construir a ponte. Capital financeiro é muito importante, mas a China não precisa só de dólares. Precisa também de gente com conhecimento financeiro”.


Publicado em: 13/08/2003


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