Article Image



Europa: a luta para manter-se unida

O estalar da guerra contra o Iraque semeou o temor à recessão na União Européia. Imersos em seu próprio enfrentamento interno, os Quinze lutam para recuperar sua unidade de ação, uma vez que a campanha contra Saddam já começou. Espanha e Reino Unido, aliados incondicionais dos Estados Unidos, não puderam enfrentar a férrea oposição da França e da Alemanha. Mesmo assim, uma vez declarada a guerra, o Velho Continente tenta deixar de lado suas diferenças para combater o inimigo comum: a ameaça da recessão.

 

“O custo econômico da guerra variará em função de quão longo ou curto seja o conflito. Em princípio, uma ação rápida não terá graves repercussões. O problema virá se o conflito for longo, já que isso repercutirá negativamente no preço do petróleo e na confiança dos mercados. Além disso, a Europa não está preparada para o choque proveniente de uma guerra com essas características já que não tem capacidade econômica para absorver este custo”, destaca o professor de economia da Universidade de Valladolid, Félix López Iturralde.

 

No dia 20 de março, em meio aos primeiros bombardeios sobre o Iraque, o conselho do Governo do Banco Central Europeu destacou que estava preparando um plano para injetar liquidez no sistema financeiro, se fôsse necessário. Com esta mensagem, o organismo quis transmitir tranqüilidade ao mercado e assegurar que os países da UE não utilizariam o conflito para driblar a disciplina orçamentária. Há problemas de alguns países em cumprir com o máximo de déficit público de 3% do PIB. Entre eles, se destaca a Alemanha, cuja economia está à beira da recessão.

 

Coerentemente com sua oposição ao conflito armado, o chanceler Gerhard Schröder afirmou que “a Alemanha não participará da guerra, mas cumprirá com suas obrigações no marco da OTAN e contribuirá com ajuda humanitária, coordenada pela ONU, às vítimas da guerra”. O presidente francês Jacques Chirac, lembrou as “sérias conseqüências” do conflito, seja qual for sua duração, e expressou seu desejo de que “a intervenção seja a mais rápida possível, tenha as mínimas fatalidades e o que tenham feito os Estados Unidos, Reino Unido e Espanha não nos conduza a uma catástrofe humanitária.”

 

Apesar destas diferenças, os Quinze conseguiram elaborar um plano de emergência para evitar a recessão. Suas linhas de atuação se resumem em maior liberação, no repasse de ajudas às empresas públicas, no controle do déficit público e na busca de uma única voz para evitar fissuras na posição européia.

 

Apesar desta bateria de medidas, o professor de Relações Internacionais da Universidade Européia, José María Peredo, se mostra cético quanto a se alcançar uma única postura. “Um entendimento completo nunca aconteceu e é muito difícil que aconteça agora” afirma, ainda que considere que “esta diferença de opiniões não foi um passo para trás. A Europa é o que acabamos de ver agora. Alguns países com grande relevância internacional e outros que assumem uma ordem comum mas que querem continuar tendo poder de decisão em temas internacionais. A União Européia até agora viveu avanços, não retrocessos, na integração econômica e política.”

 

Recuperar a confiança

“Não se pode falar de uma divisão no seio da UE e sim de uma pequena fissura que, com o passar do tempo, será fechada” afirma o professor López Iturriaga. “Uma vez que a guerra tenha estourado, a Europa sabe que deve encontrar pontos de convergência para preparar a reconstrução do Iraque.”

 

Porém, qualquer decisão tomada pelos Quinze, estará subordinada à duração do conflito. “Deve-se ter cautela para não enxergar efeitos muito positivos. Para poder ver resultados benéficos temos que atentar à duração da guerra”, destaca o professor Peredo. 

 

As bolsas de valores foram s primeiras a mostrar suas reservas em relação ao conflito. Os principais índices europeus receberam a primeira jornada de bombardeios com quedas. Na semana anterior à guerra, os principais índices europeus tiveram alta, convencidos de que nada poderia parar o ataque e de que a intervenção seria rápida. Mesmo assim, o ânimo dos investidores desapareceu após o presidente Bush reconhecer que o conflito poderia ser mais longo do que o esperado.

 

“O ministro da Defesa espanhola, Frederico Trillo, também apontou que a guerra poderia ser menos rápida do que o esperado ou, pelo menos, ser longa demais. Com estas palavras, sublinhou a necessidade de o mercado receber uma resposta. Para as bolsas não há nada pior do que a incerteza, por isso a evolução dos investimentos estará muito ligada à duração do conflito” destaca López Iturralde.

 

Os primeiros sinais de confiança chegaram durante a segunda jornada de bombardeios, em 21 de março. O rápido avanço das tropas americanas em Bagdá representou um novo alento. O índice alemão Dax Xetra ganhou 4,23% depois de ter perdido 0,40% durante o ataque anterior. O CAC 40 francês subiu 3,43%, deixando para trás a baixa de 1,51%; o espanhol IBEX 35 ganhou 2,55% frente à queda de 1,21% do primeiro dia de guerra; enquanto o britânico Footsie 100 melhorou 2,56% somados à leve alta de 0,1% do dia anterior.

 

Um estudo da firma de analistas Goldman Sachs sobre os conflitos bélicos dos últimos trinta anos afirma que não se pode prever a atuação do mercado. Em cada um destes períodos os mercados subiram entre 1,5% e 21%. BNP  Paribas, por sua vez, considera que a partir de agora o comportamento dos investidores deve melhorar, o que poderia gerar altas próximas aos 20%

 

Isto foi o que ocorreu na primeira Guerra do Golfo, conflito que os analistas europeus estão tendo como principal referência para tentar explicar a situação atual. Durante os seis meses que durou o enfrentamento bélico, as bolsas avançaram entre 16% e 20%. Porém, diferentemente daquele conflito, na guerra atual os mercados registravam altas motivadas pela confiança em uma guerra rápida; enquanto em 1991 registravam fortes quedas no período anterior à invasão.

 

Como resposta à indefinição que sofre a economia, o Banco Central Europeu se comprometeu a injetar a liquidez necessária aos mercados, inclusive sob circunstâncias excepcionais. A entidade presidida por Wim Duisenberg já tomou medidas similares em outras ocasiões, como após os atentados contra as Torres Gêmeas. Mesmo assim, o BCE não se atreveu ainda a avaliar as implicações do conflito para a economia a curto e médio prazos.

 

“Não é possível avaliar de forma conclusiva nesta conjuntura as implicações da guerra em curto ou médio prazo”, assinalou o organismo em um comunicado no mesmo dia em que começaram as ações contra o Iraque. Não obstante, os analistas interpretaram estas palavras como um sinal de que o BCE poderia baixar as taxas de juros caso a guerra ameace danificar a economia européia.

 

Sempre ansiosos pelo futuro

Para o professor José María Peredo, a chave que abrirá a porta para uma melhoria da economia não vai estar tanto na guerra como na posterior reconstrução do Iraque. “O conflito será breve, ainda que o desmantelamento do regime de Saddam Husseim e a reconstrução do Iraque sejam longos e complexos”, diz.

 

Em sua opinião, “do ponto de vista econômico, uma reconstrução assim não é prejudicial. Ao contrário, se os termos da reconstrução são corretos, se há um entendimento entre as partes, se é criada uma autonomia para os curdos do norte, se for estabelecido um regime de estabilidade e credibilidade no Iraque, será um processo benéfico para a economia mundial, ainda que a reconstrução seja longa e complexa. Mesmo que a reconstrução dure muito tempo, chegarão notícias positivas que estimularão a confiança dos mercados.”

 

“Dependendo do regime que se imponha, podem ser estabilizadas as relações econômicas das exportações”, acrescenta o professor López Iturralde. “As empresas européias terão grande relevância na reconstrução do Iraque, sobretudo as companhias de obras públicas e petrolíferas”. Porém, reconstruir o Iraque assim que o conflito termine, pode gerar novas fissuras no seio da UE.

 

“No passado, os países que tiveram participação mais ativa no conflito também mantiveram uma atuação maior na reconstrução posterior da região. Isto favorece, por exemplo, Espanha e Reino Unido”, diz o professor da Universidade de Valladolid, embora também lembre que “França e Alemanha não ficarão à margem do processo. Os países são dois atores básicos na Europa e será necessário contar com eles para reconstruir o Iraque.”

 

Até o momento, já se produziram os primeiros desencontros na hora de fixar a participação da Europa quando a guerra terminar. Reino Unido e Espanha estão pressionando para que os sócios da UE abram suas reservas nacionais para reconstruir o Iraque. Mas a Alemanha e a França demonstraram sua oposição e dizem que o financiamento deve vir do próprio petróleo iraquiano.

 

As más previsões sobre o crescimento da UE neste ano, próximas de 1%, aconselham a evitar qualquer tipo de gasto extra. Além disso, em função da duração do conflito, a UE pode chegar ao final da guerra à beira da recessão e com alguns de seus setores fundamentais seriamente atingidos.

 

Turismo e petróleo

“O turismo e todas as indústrias relacionadas ao petróleo, como as companhias petroleiras, o transporte ou a indústria de plásticos, serão as mais prejudicadas pelo conflito”, diz López Iturralde. Caave (Cúpula Associativa de Agência de Viagem) já assinalou que, somente na Espanha, a demanda por viagens durante o feriado da Semana Santa cairá entre 10% e 20%. PricewaterhouseCoopers também fez seus cálculos e lembra que uma guerra com duração de quatro a seis semanas faria com que as vendas de quartos de hotel diminuíssem em cerca de 50.000 quartos.

 

A cadeia hoteleira norte-americana Starwood conta com um plano de contingência e estuda corte de pessoal que se somará aos mais de 10.000 demitidos em decorrência dos atentados de 11 de setembro. A espanhola Sol Meliá, décima maior rede hoteleira do mundo, informa que o cancelamento de viagens começou a ser notado no mercado corporativo, porém está confiante de que os estragos da guerra não afetarão os resultados da companhia.

 

As linhas aéreas também já começaram a se movimentar para que o conflito lhes afete o menos possível. No primeiro dia de bombardeios, a British Airways suspendeu seus vôos para Israel e Kwait; a holandesa Lufthansa, terceira maior companhia aérea da Europa, cancelou todas as viagens à Jordânia, Arábia Saudita e Israel, medida esta seguida pela Air France e KLM. A espanhola Iberia estuda suspender o vôo que liga Madrid à capital israelense.

 

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) considera que o tráfego aéreo mundial cairá cerca de 10% no mundo todo enquanto durar o conflito e calcula perdas superiores a US$ 9 bilhões, se o conflito for longo. Os analistas consultados pela Bloomberg destacam que “a maioria das linhas aéreas estão reduzindo a freqüência de vôos ao Oriente próximo, de maneira que a pergunta é se elas podem suportar um excesso de lotação nestes momentos”. Como medida cautelar, a australiana Quantas Airway já anunciou que aumentará em 3% as tarifas, enquanto a Japan Air estuda medidas semelhantes.

 

As companhias automobilísticas também estão fazendo planos para evitar que a guerra ameace o abastecimento. Nas semanas anteriores ao conflito, os principais fabricantes europeus aumentaram seus estoques. Porém, o grande medo destas empresas é de que o conflito se alongue e gere uma queda de vendas. No exercício passado, o mercado europeu foi o mais afetado pela recessão econômica com queda de 2%, o que lhes obrigou a reduzir suas planilhas para se  adaptar à demanda. Uma medida que poderiam repetir caso a guerra do Iraque dure mais do que o previsto.

 

As lojas européias de fabricantes japoneses, como Toyota, Mazda ou Mitsubishi, serão as mais afetadas no caso de uma guerra longa. Estas companhias usam como principal via marítima para importar seus automóveis o Canal de Suez, situado em pleno coração do conflito, o que poderia obrigar uma mudança de rota, margeando o continente africano pelo sul, pelo Cabo da Boa Esperança. Porém esta rota é mais longa e dispendiosa, o que afetaria negativamente nos resultados das companhias se elas tivessem que fazer a rota alternativa durante muito tempo.

 

As empresas de transporte também podem sofrer danos se o preço do petróleo disparar. “Uma ação rápida dos aliados favorecerá a queda do preço do petróleo bruto; se o conflito se alonga e o preço do petróleo dispara, haverá danos a todas as indústrias dependentes do petróleo” diz López Iturralde. Durante as duas últimas semanas, o petróleo atingiu uma queda de 28%, queda de até US$ 25,  devido à aposta dos fundos especulativos de que a guerra durará duas semanas. Ainda assim, os analistas não descartam que o panorama pode mudar caso se confirmem os rumores de que Saddam Husein ordenou queimar os poços de petróleo ou de que a guerra dure mais do que o esperado.

 

Neste caso, o preço do petróleo bruto poderia disparar acima dos US$ 30 por barril. Os executivos de várias petroleiras européias afirmam que não têm problemas de abastecimento e duvidam que o preço do petróleo bruto dispare, a menos que ocorra algo muito grave no front. A forte queda do petróleo fez com que as principais petroleiras européias tenham visto seus preços despencarem.

 

Ao contrário, as companhias farmacêuticas estão sendo as mais favorecidas pelo conflito. O medo de uma guerra bacteriológica disparou a cotação da Novartis em 3,8 por cento, até 51,9 euros, desde que começaram as ações bélicas. Pfizer viu aumentar seus títulos em 6,6 por cento, até 32,02 dólares.

 

Dúvidas para depois da guerra

“Os males da economia foram atribuídos até agora à incerteza da guerra com o Iraque. Todavia, creio que existam outros fatores de fundo, como os escândalos com o tesouro ou a instabilidade dos mercados financeiros”. O professor Peredo considera que o mercado não pode jogar todas as suas cartas neste conflito. Em sua opinião, o impacto que pode ter o enfrentamento bélico sobre a economia européia é importante, mas também deve ser avaliado o novo cenário que surgirá quando a paz estiver consolidada. 

 

“Devemos levar em conta que a incerteza geopolítica não desapareceu, já que após este conflito há a possibilidade quase permanente de haver um atentado terrorista em qualquer lugar do mundo. Se isso acontecer, dará margem a uma desaceleração da economia como conseqüência das medidas de segurança em aeroportos, dos controles nas fronteiras e do tráfego de mercadorias, etc. Além disso, deve-se ver como se gerencia o petróleo iraquiano durante a reconstrução, já que, durante uns meses, os poços podem estar inativos.”

 

Os governos da UE terão papel fundamental neste processo. Sobre suas costas deverá recair grande parte da responsabilidade para levantar o Iraque e criar um novo marco de segurança internacional. Ainda assim, todas suas ações estarão determinadas pelo impacto econômico que a guerra causou sobre suas contas.”

 

“A guerra vai afetar igualmente todos os países, já que vivemos em um mundo globalizado. Todavia, haverá pequenas variações em função das decisões políticas que forem tomadas” diz López Iturralde. Em sua opinião, “os países mais ativos na guerra terminarão um pouco mais favorecidos. Porém, no fundo, todos os membros da UE acabarão tomando uma posição comum porque sabem que, acima de qualquer atrito interno, têm um objetivo comum, que é a Europa.”


Publicado em: 21/10/2003




Sponsor Knowledge@Wharton

buscar | inscrição | sobre nós | ajuda | início | contato | patrocinadores


O copyright de todos os materiais é propriedade da Wharton School da Universidade de Pennsylvania e Universia. Política de Privacidade