Estudos de casos na América Latina: do Peru ao México, da AmBev à Enersis
Embora a recessão continue a incomodar as economias de muitos países latino-americanos e os investidores continuem temerosos com relação à região, o Peru, no início de 2002, foi aos mercados de capitais para refinanciar sua dívida.
A oferta de títulos no valor de US$ 1,4 bilhão para o Peru deve dar esperança aos outros países latino-americanos que querem refinanciar suas dívidas, afirmou Susana de la Puente, diretora administrativa do J.P. Morgan para a América Latina. De la Puente, junto com Carlos Brito, diretor de operações da AmBev e Ricardo Alvial, chefe de investimentos da Enersis, participaram de um painel de discussões sobre estudos de casos latino-americanos.
O banco representado por De la Puente liderou um grupo de instituições financeiras que assumiu os gastos e os riscos dos títulos peruanos. “O Peru não entrava nos mercados de capitais há 74 anos, apesar do desempenho econômico espetacular apresentado pelo país em meados de 1990”, afirmou De la Puente. Ao invés disso, o país dependia de empréstimos de organizações multilaterais como o Banco Mundial. Mas quando o ex-banqueiro de investimentos Pedro Pablo Kuczynski, que também se pronunciou na conferência da Wharton, tornou-se ministro da Fazenda no Peru, os benefícios de se recorrer a Wall Street foram reconhecidos. Ao fazer isso, o Peru reduziu as despesas com sua dívida em US$ 330 milhões, afirmou De la Puente.
A oferta de títulos do país também solucionou outros problemas. O Peru enfrentava dificuldades para cumprir o plano de amortização de sua dívida, com grande parte dela a ser paga nos próximos 12 anos. “O país precisava remodelar o perfil de sua dívida”, concluiu De la Puente, que nasceu no Peru.
Além disso, grande parte da dívida estava em títulos Brady, que não atraem muitos investidores. (Os títulos Brady foram emitidos como parte de um plano de reestruturação de dívida para países em desenvolvimento, liderada pelo ex-secretário do Tesouro norte-americano Nicholas Brady). “Os investidores gostaram da idéia de substituir os títulos Brady, de menor liquidez, pelos novos títulos”, informou De la Puente. O total de US$ 1,4 bilhão era composto por US$500 milhões em dinheiro novo e o restante em títulos novos obtidos pela troca com os antigos títulos Brady.
Para recorrer ao centro financeiro de Wall Street, é claro, um país precisa ser capaz de dar aos investidores a segurança de que serão pagos. Parte dessa segurança é conquistada por um sólido desempenho econômico e por medidas que evitam o erro, tal como a recente desvalorização monetária ocorrida no Brasil e na Argentina, salientou De la Puente.
O centro financeiro de Wall Street premia os países que não o desapontam, acrescentou De la Puente citando o México como exemplo, que desde a desvalorização de 1995 esforça-se para colocar em ordem seus assuntos econômicos e abrir seus mercados. “O México tem se comunicado bem com os investidores – proporcionando informações transparentes e consistentes. E a entrada de capital permanece consideravelmente estável”.
Infelizmente, os países da América Latina, em especial os menores, também podem ser golpeados por eventos que fogem ao seu controle.
Considere a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, o mais populoso país latino-americano. De la Puente diz que a ascendência “esquerdista/populista” do Partido dos Trabalhadores de Lula deixa muitos investidores nervosos. “O Brasil tem um grande impacto nos outros mercados latino-americanos. E a grande questão é se o Brasil, no governo Lula, tem a disposição e a habilidade de honrar sua dívida. Parece que Lula tem a disposição – e ele tem feito barulho suficiente para demonstrar que é um aliado do mercado. Mas o Brasil possui a habilidade? Supomos que sim”.
Isso poderá apenas beneficiar uma região onde os investimentos, especialmente os estrangeiros, continuam fundamentais para o crescimento futuro. O produto interno bruto dos países latino-americanos acompanha a entrada de capital, salientou De la Puente. “Os países que administram mal suas economias registram mais saídas de capital”. A retirada de capital cria um círculo vicioso onde as taxas de juros crescem, os investimentos diminuem e o déficit aumenta. Isso, conseqüentemente, resulta em diminuição de acesso ao mercado e numa dívida mais cara. “A Argentina é um bom exemplo disso”, afirmou De la Puente.
“A América Latina é essencialmente um importador de capital”, acrescentou. “As entradas de capital – investimentos estrangeiros e nacionais – são mesmo a única solução para o crescimento permanente de todos esses países. Como atraí-los? A resposta é confiança, confiança, confiança”.
A confiança do investidor depende não apenas da administração econômica do governo, mas também da promoção de companhias abertas bem administradas como a brasileira AmBev, a maior companhia de bebidas latino-americanas, e a Chilena Enersis, a maior empresa de energia pública do país. A AmBev é também a quinta maior produtora de cerveja do mundo, afirmou Carlos Brito, diretor de operações da companhia e também membro do painel. Ela possui 17 mil funcionários e 52 fábricas. A receita da AmBev cresce anualmente, em média, 20% e os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização cresceram 34%.
Brito, em seus 13 anos de AmBev, desenvolveu o que ele chama “kit de sobrevivência de negócios para a América do Sul”. Primeiramente, o dinheiro é a peça mais importante. “Fazemos tudo que podemos para [reduzir custos]. Temos de extrair todo o dinheiro possível do negócio porque os mercados que fornecem crédito na América Latina não estão tão desenvolvidos”. As empresas da América Latina não podem contar com empréstimos da maneira como fazem as companhias norte-americanas.
Mesmo quando conseguem os empréstimos, eles tendem a ser mais caros do que os concedidos a empresas semelhantes dos Estados Unidos ou Europa. Portanto, a estrutura de capital de uma empresa – seu nível de endividamento – deve ser bastante conservadora, afirmou Brito. E qualquer companhia, de qualquer parte do mundo, deve comparar o seu desempenho ao desempenho das outras empresas do mesmo setor e, quando necessário, progredir.
Outro membro do painel, Ricardo Alvial, chefe de investimentos e diretor de riscos da Enersis, também criou regras para fazer negócios na América Latina. O valor de uma empresa de serviços públicos como a Enersis depende de sua dívida; hoje ela vale US$ 9,2 bilhões, salientou. Portanto, ela precisa ter acesso aos mercados de capitais. Isso exige uma boa administração financeira para manter uma alta classificação de crédito, assim como manter um contato próximo e uma comunicação transparente com os investidores. “É preciso ser consistente com suas metas corporativas de longo prazo”. E, principalmente, em períodos de instabilidade, saber que o crescimento pode ser adiado. Sempre que uma empresa fizer essa opção, porém, é necessário procurar maneiras de melhorar sua eficiência e produtividade.
A Enersis faz negócios no Chile, Brasil, Argentina, Colômbia e Peru. Os ativos da empresa cresceram de US$ 600 milhões em 1991 para US$ 16,1 bilhões em 1998. Em 1999, a Endesa, uma empresa espanhola de energia, comprou o controle da companhia.
Finalmente, disse Alvial, as companhias que fazem negócios na América Latina precisam dar aos investidores o mesmo tipo de transparência financeira que as melhores companhias dos Estados Unidos e do oeste europeu oferecem. Suas demonstrações financeiras precisam fornecer um retrato completo de suas atividades.
“Não esconder esqueletos dentro do armário, não possuir contas extrapatrimoniais, essa é a saída. Sempre tentamos dizer exatamente o que acontece com a nossa companhia. Os investidores merecem saber”.
Essa é uma lição que algumas companhias dos Estados Unidos também deveriam levar em consideração.
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