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Benefícios são mútuos na nova onda de alianças entre empresas farmacêuticas e de biotecnologia

A disputa entre a gigante farmacêutica Bristol-Myers Squibb e a empresa de biotecnologia ImClone Systems sobre sua parceria para o desenvolvimento de um novo medicamento contra o câncer fez com que a estrutura das alianças entre empresas de pesquisa e grandes laboratórios farmacêuticos se tornasse foco de atenções.

 

Alianças e outras formas de parcerias de desenvolvimento são cada vez mais importantes para empresas de biotecnologia como uma fonte essencial de capital. E elas são importantes para os laboratórios farmacêuticos porque ajudam a manter o desenvolvimento de novas drogas.

 

Ao juntar forças, empresas farmacêuticas e de biotecnologia aumentam suas probabilidades de obter a regulamentação para comercializar novos medicamentos, segundo pesquisa dos professores de sistemas de saúde da Wharton Sean Nicholson e Patricia Danzon. “A principal descoberta é que o mercado para acordos entre laboratórios farmacêuticos e empresas de biotecnologia parece estar funcionando bem”, disse Danzon. “Ao que parece, os acordos vêm sendo realizados quando são do interesse mútuo das partes envolvidas e quando aumentam a produtividade.”

 

A pesquisa, publicada em um trabalho intitulado “Biotech-Pharma Alliances as a Signal of Asset and Firm Quality”, baseou-se em parte em um estudo de 539 acordos de licença realizados entre 1988 e 2000. Ela indica que medicamentos produzidos por uma parceria de desenvolvimento têm maior probabilidade de serem aprovados pela Food and Drug Administration (órgão do governo dos EUA que regulamenta a produção e a comercialização de remédios e alimentos) do que medicamentos desenvolvidos por uma única empresa.

 

Das 691 novas drogas aprovadas pela FDA entre 1963 e 1999, 38% foram resultado de alianças. A média de alianças biotecnológicas por companhia farmacêutica cresceu de 1,4 ao ano no período de 1988 a 1990 para 5,7 de 1997 a 1998. A pesquisa também indica que a probabilidade de um medicamento desenvolvido em conjunto passar por testes com seres humanos aumenta em até 30% em relação a medicamentos desenvolvidos por uma empresa individualmente.

 

O estudo dos pesquisadores da Wharton questiona a teoria de que as empresas de biotecnologia se aproveitaram do conhecimento superior relativo a produtos e projetos das grandes companhias farmacêuticas, devolvendo-lhes apenas “abacaxis”, disse Danzon. De fato, Nicholson observou, “Esses acordos são bastante importantes para ambas as partes. Para os laboratórios farmacêuticos, cerca de um quinto dos medicamentos das empresas de biotecnologia são licenciados, o que as torna “uma fonte valiosa de produtos”.

 

Entre as empresas de biotecnologia, acrescenta Nicholson, “é possível que haja empresas que digam: ‘Não estamos interessados em colocar produtos no mercado. Não somos bons nisso. É mais provável colocar nosso medicamento no mercado e conseguir grandes vendas se fizermos uma parceria com uma empresa que seja boa em executar testes clínicos em grande escala e que já tenha operações de marketing e vendas’.”

 

Geralmente, esse é o modelo. Mas não foi esse o caso da Bristol-Myers e da ImClone. Nessa aliança de US$ 2 bilhões, a ImClone ficou responsável por obter a aprovação da droga Erbitux. Depois que a FDA recusou-se até mesmo a considerar o caso da ImClone em dezembro, a Bristol-Myers exigiu mudanças no acordo original. Mas quando uma reunião subseqüente com a FDA criou novas esperanças de aprovação, as empresas anunciaram um novo acordo. A Bristol-Myers reduzirá alguns adiantamentos e limitará pagamentos posteriores para a ImClone e, talvez como medida mais importante, um de seus vice-presidentes seniores ficará responsável pela equipe de regulamentação da droga Erbitux. Segundo Nicholson, a aliança para a Erbitux deve ser considerada atípica.

 

O mais comum é a abordagem da GlaxoSmithKline. Jean-Pierre Garnier, diretor executivo do segundo maior laboratório do mundo, tornou o licenciamento uma parte fundamental da estratégia de pesquisa e desenvolvimento adotada pela  empresa. No ano passado, a GlaxoSmithKline licenciou 10 drogas potenciais de outras empresas, “e estamos no caminho certo para licenciar outras tantas”, disse Garnier a analistas de Nova York no mês passado. Garnier acrescentou que sua empresa prefere comprar produtos em estágio final por apresentarem menores riscos.

 

Segundo Garnier, na negociação com empresas de biotecnologia menores, os recursos e o atrativo de sua grande força de venda dão à GlaxoSmithkline uma posição de vantagem ao concorrer por medicamentos promissores. “O porte da empresa é muito importante”, disse aos analistas. “Não é possível ser bem-sucedido no desenvolvimento clínico final a menos que se tenha uma infra-estrutura mundial. Vemos isso a todo o momento com as empresas de biotecnologia, e a ImClone é uma demonstração disso.”

 

Os comentários de Garnier foram feitos várias semanas antes de a FDA rejeitar o pedido de aprovação da empresa de biotecnologia Corixa Corp. para uma nova droga contra o câncer, a Bexxar, utilizada para tratar linfomas não-Hodgkins de grau baixo. Segundo reportagens publicadas na imprensa após a decisão da FDA em 13 de março, a Corixa estava trabalhando no medicamento e no processo de aprovação em parceria com a GlaxoSmithKline. A Corixa havia sinalizado planos de se reunir com a FDA para determinar quais medidas adicionais seriam necessárias para obter a aprovação do medicamento.

 

Mark Edwards, diretor administrativo da Recombinant Capital, empresa de consultoria de São Francisco especializada em alianças no setor de biotecnologia, diz que na maioria das vezes os acordos estão sendo bem-sucedidos: “As alianças podem e devem ser benéficas para as duas partes, mas às vezes é difícil chegar a esse ponto.” Edwards observou que as empresas de biotecnologia tendem a licenciar seus produtos num estágio mais avançado, quando há menos risco e mais retorno. Ele disse que isso talvez possa ser explicado pelo fato de elas terem sido capazes de levantar capital suficiente, em particular durante o grande boom de financiamento em 2000, para custear o processo dispendioso do desenvolvimento clínico.

 

Segundo Danzon, hoje várias empresas de biotecnologia são grandes e têm experiência para conduzir seus produtos pelo processo de regulamentação, reduzindo os riscos das empresas farmacêuticas compradoras. “A curto prazo veremos uma ênfase em acordos de estágio final devido às expirações de patente enfrentadas pela indústria farmacêutica”, disse. “Mas a longo prazo, espera-se que o impacto das expirações de patentes passe, e a expectativa normal é de que as companhias farmacêuticas deverão fazer tantos acordos de estágio inicial quanto de estágio final.”

 

Além de acrescentar valor global, Nicholson disse que as alianças entre empresas de biotecnologia e grandes laboratórios farmacêuticos também têm um papel na comunidade financeira ao sinalizarem uma valorização apropriada da empresa de biotecnologia de porte menor. Em 1998, as empresas de biotecnologia levantaram US$ 6,2 bilhões em alianças farmacêuticas, três vezes o que levantaram nos mercados de ações públicas e privadas.

 

“Uma das conseqüências disso é que os investidores verão quais empresas de biotecnologia estão fechando acordos e o volume dos pagamentos e farão inferências sobre a qualidade dos produtos das empresas de biotecnologia. É uma maneira dos financiadores desse setor descobrirem quais empresas são de alta qualidade e quais não são.”

 

É claro que essa não é a principal missão das companhias farmacêuticas, disse Nicholson. Mas, ao empregar sua experiência e conhecimento científico no desenvolvimento de medicamentos para dar valor a suas próprias transações, os grandes laboratórios farmacêuticos ajudam a comunidade financeira, que pode encontrar dificuldades diante da complexidade e ciência envolvidas.

 

“Se considerarmos as empresas da internet, esse modelo não era [particularmente] difícil de ser entendido, e agora sabemos que os investidores de empreendimentos de risco cometeram erros. Mas não foi difícil para um investidor de risco, que é um generalista com um MBA, entender como esse negócio daria dinheiro”, disse Nicholson. “E mesmo com um cientista ou com um médico na sua empresa de capital de risco, não há como ser especializado o suficiente para entender de proteômica, hipertensão e imunologia. Isso seria impossível e não faria sentido. Portanto, por que não contar com uma grande empresa que vem fazendo isso há anos?”

 

A pesquisa de Nicholson e Danzon mostra que as empresas de biotecnologia normalmente recebem pagamentos com descontos quando fazem seu primeiro acordo com um grande laboratório farmacêutico. Nicholson disse que o desconto normalmente é de cerca de 60% do valor real de um produto ou de cerca de US$ 18 milhões, com base no preço médio. Na segunda licença, o desconto cai para 30%. Ele desaparece a partir da terceira licença, à medida que a empresa de pesquisa se estabelece no mercado como um produtor confiável.

 

De fato, o desconto da empresa de biotecnologia compensa a companhia farmacêutica por seu tempo e esforço em devida diligência, disse Nicholson, acrescentando que as empresas que conseguem fechar vários acordos desfrutam de um aumento de 23% no valor de mercado. “Esse valor é muito próximo do que é descontado das empresas no começo”, observa Nicholson. “No final, elas não estão pagando pelo desconto porque recebem o valor de volta.”

 

Nicholson disse que ficou surpreso ao descobrir que os pagamentos dos acordos não dependiam das oscilações do mercado para as empresas de biotecnologia, que é um setor que quase sempre tem altas e baixas de acordo com as tendências de investimento. “Pensávamos que quando o mercado de biotecnologia estivesse em baixa e as empresas do setor estivessem com pouco dinheiro elas correriam para as companhias farmacêuticas, mas não constatamos isso.”

 

No entanto, Nicholson não visualiza o dia em que as grandes companhias farmacêuticas passem a adotar um modelo virtual e contratar todas as empresas de pesquisa, como a Nike contrata fabricantes de tênis. Esses laboratórios farmacêuticos, disse, “ainda estão colocando bilhões em seus próprios departamentos de pesquisa e desenvolvimento”.


Publicado em: 18/02/2003
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