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Para combater o terrorismo, uma abordagem sistêmica é vital

Russell L. Ackoff é professor emérito da Wharton e forte defensor da teoria dos sistemas. Recentemente participou de um encontro no qual economistas e outros especialistas avaliaram os riscos de que novos ataques terroristas paralisassem o sistema econômico dos EUA. Aquela discussão o surpreendeu. "Por que os terroristas iriam atacar o sistema econômico americano?" perguntou. "Eles não precisam; os diretores executivos já estão fazendo um ótimo trabalho nesse sentido."

 

Essa observação irônica abriu a apresentação de Ackoff em uma conferência realizada em Washington, D.C. sobre o desenvolvimento de uma "Abordagem Sistêmica do Terrorismo". Organizada pela Association for Enterprise Integration (AFEI) junto com vários centros de pesquisa da Wharton, a Universidade da Pensilvânia e a Universidade George Washington, a conferência ressaltou a necessidade de empresas privadas e governo trabalharem juntos para desenvolver uma abordagem holística de combate ao terrorismo e controlar seu impacto sobre os negócios e a sociedade em geral. As sessões abrangeram perspectivas geopolíticas e econômicas sobre o terrorismo, métodos para avaliar os pontos vulneráveis e modos de controlar o equilíbrio entre o aumento da segurança e as liberdades civis em uma sociedade livre.

 

As questões que os professores da Wharton e outros especialistas levantaram durante a conferência foram particularmente oportunas. Quando o presidente George Bush apresentou sua proposta de 88 páginas sobre segurança interna, no Rose Garden da Casa Branca em 16 de julho, o documento propunha medidas como a criação de "equipes vermelhas" (red teams), especialistas em inteligência que conseguem pensar como os terroristas para identificar possíveis alvos; normas nacionais para carteiras de motoristas; melhor inspeção dos contêineres de navios internacionais; criação de um Departamento de Segurança Interna; e várias outras. Pelo menos dois desses pontos - a criação das "equipes vermelhas" e a inspeção de contêineres de navios - foram discutidos no primeiro dia da conferência.

 

Entre os patrocinadores do evento, por parte da Universidade da Pensilvânia, estão o Ackoff Center for the Advancement of Systems Approaches, o Risk Management and Decision Processes Center da Wharton, o SEI Center for Advanced Studies in Management, o Fels Center for Government e o Jerry Lee Center of Criminology. Por parte da Universidade George Washington, os patrocinadores são o Research Program in Social and Organizational Learning e o Organizational Sciences Program. A Association for Enterprise Integration foi co-patrocinadora da conferência.

 

"O único meio de enfrentar e resolver essas questões é concentrar-se nos problemas reais", disse Paul Kleindorfer, presidente do departamento de gerenciamento de operações e informações da Wharton e co-diretor do Risk Management and Decision Processes Center. Citando o economista Joan Robinson – que disse uma vez que o tempo foi inventado para que não tivéssemos que fazer tudo simultaneamente –, ele observou que a conferência iria analisar algumas soluções possíveis e também desenvolver uma pauta de pesquisa para posterior averiguação dessas questões.

 

Este relatório trata de duas perspectivas apresentadas na conferência. O artigo seguinte examinará outros aspectos.

 

Terrorismo: uma perspectiva sistêmica

 

Ackoff nota uma forte ligação entre terrorismo e fundamentalismo. Ressaltou que as mudanças normalmente provocam três tipos de resposta: a conservadora, que procura evitar a mudança; a reacionária, que tenta idealizar o passado e desfazer a mudança; e a liberal, que tenta fazer pequenas mudanças separadas e cumulativas. Os reacionários, acrescentou, se tornam fundamentalistas: desenvolvem um conjunto de crenças rígidas e "tentam encontrar o equilíbrio estático em um ambiente dinâmico". Ackoff distingue entre dois tipos de fundamentalistas: os introvertidos como, por exemplo, os religiosos menonitas - que fogem da tecnologia e querem essencialmente ficar sozinhos - e os extrovertidos, mais devotados e evangélicos. Aqueles que não aceitam suas crenças são vistos ou como pessoas que podem ser convertidas à sua causa ou como inimigos. Os fundamentalistas que se excedem e usam violência contra seus supostos inimigos são terroristas. Todos os terroristas são fundamentalistas, embora poucos fundamentalistas sejam terroristas, afirmou ele.

 

A fim de combater a ameaça do terrorismo, "devemos capacitar os fundamentalistas extrovertidos a lidar com seu ambiente de forma efetiva", explicou. "Isso significa proporcionar-lhes o conhecimento e os recursos necessários para que atinjam o que consideram um padrão de vida aceitável e uma vida profissional de qualidade." Ackoff compara esses esforços com os que o governo dos EUA tem feito desde a década de 1960 para integrar as minorias internas à vida social e comercial americana.

 

O problema básico que incita o terrorismo é a má distribuição da riqueza dentro dos EUA e no mundo todo. "A consciência dessa desigualdade é geral por causa das comunicações", observou. "Nós não sabemos como preencher essa lacuna, e o FMI e o Banco Mundial quase sempre pioram as coisas. Não podemos resolver os problemas das pessoas que sofrem privação. São elas mesmas que devem resolvê-los."

 

Ackoff propôs várias medidas para combater o terrorismo e, ao mesmo tempo, melhorar a distribuição da riqueza.

 

Para isso, os EUA e outras nações ricas devem apoiar os esforços de desenvolvimento no resto do mundo. Mas esses esforços devem ser feitos – e reconhecidos – de modo condizente com os supostos beneficiários. Por exemplo, ele contou que na década de 1950 a Índia queria comprar navios da marinha mercante americana, que os EUA estavam planejando desativar. Os EUA recusaram porque temiam que a Índia, com menores custos de mão-de-obra, pudesse reduzir a lucratividade das frotas de navios mercantes americanas. Em vez disso, os EUA ofereceram-se para vender manteiga, sem perceber que, naquela época, a maioria dos indianos não comia manteiga (que precisa de refrigeração) mas o ghee, ou manteiga clarificada (que tem uma vida de prateleira mais longa, sem refrigeração, do que a manteiga). Esse episódio fez dos EUA um "objeto de ridículo na Índia" naquela ocasião, observou Ackoff. "Os indianos responderam: 'Sua generosidade visa resolver os seus problemas, não os nossos.'" Os EUA terão que mudar essa abordagem se quiserem combater efetivamente o terrorismo, acrescentou.

 

Ackoff também sugeriu que, se houver disponibilidade de fundos, seu uso seja determinado por um processo democrático. Isso significa excluir a corrupção da manipulação dos fundos ou de outros recursos. Além disso, os especialistas devem tentar ajudar os grupos mais pobres a tomar suas decisões do jeito que eles (os pobres) desejam. Por fim, as condições devem ser monitoradas por um grupo que seja aceito tanto pelos que prestam ajuda quanto pelos que recebem. "Se não fizermos isso", concluiu Ackoff, "estaremos apenas nos defendendo do terrorismo".

 

Perspectivas geopolíticas sobre as causas

 

Brian M. Jenkins, assessor sênior do presidente da RAND, organização de pesquisa sem fins lucrativos, observou que a pesquisa sobre terrorismo era uma atividade restrita a um nicho até o ano passado, mas ganhou um grande público a partir de 11 de setembro. "O terrorismo não é somente um conjunto de crenças, mas também um conjunto de táticas e ações", disse ele. Isso inclui os efeitos dessas ações, como o medo e as medidas de segurança que são tomadas para prevenir futuros ataques. Assim sendo, o terrorismo gera um efeito em cascata.

 

Jenkins sustentou que os terroristas inevitavelmente surgem em função das condições locais e que é fundamental compreender as causas que norteiam grupos como Al Qaeda, Ação Direta ou Exército Vermelho. Citou vários motivos pelos quais os pesquisadores devem analisar as causas do terrorismo. "Essa análise serve para fins de previsão e também permite uma intervenção preventiva", disse ele. "Conhecendo as causas, você pode descobrir como privar os terroristas de seus patrocinadores."

 

Os EUA têm deixado de lado as causas e se concentrado no combate ao terrorismo. Isso acontece porque a política americana relativa ao terrorismo evoluiu em resposta aos seqüestros e ataques aos diplomatas americanos no exterior e "o que nos afetava não eram as causas, mas sim as táticas", observou Jenkins. "Quando começaram a ocorrer ataques no exterior, os EUA precisaram da cooperação internacional. Ao tentar lidar com o terrorismo internacional, você acaba colidindo com o problema da definição, que é muito difícil de resolver. O que para uns é um terrorista, para outros é um defensor da liberdade. Essas discussões trazem discórdia e atrapalham a luta contra o terrorismo. Por isso, o governo americano forçou as definições de terrorismo com base na qualidade da ação e deliberadamente manteve a causa fora da discussão. Somente desse modo, os EUA poderiam obter a cooperação internacional."

 

Jenkins explicou que os pesquisadores levantaram cinco hipóteses sobre as causas do terrorismo. Em primeiro lugar, há as causas que os próprios terroristas alegam. O Exército Republicano Irlandês resume sua causa com a frase "Fora os britânicos!" enquanto os separatistas bascos proclamam "Fora os espanhóis!". Outros grupos brigam por conceitos mais amplos como o antiimperialismo ou a antiglobalização. Muitas causas de terrorismo são fundamentadas na religião. "Consultando-se a literatura terrorista, pode-se ver que eles expressam vagamente seus objetivos", disse ele. "Mesmo que não tivessem armas nem bombas, os terroristas poderiam matá-lo de aborrecimento com sua literatura."

 

A segunda hipótese sobre as causas do terrorismo baseia-se nas conspirações internacionais. "No passado, o terrorismo era visto como uma conspiração dos soviéticos, agora ele é visto como uma conspiração do Iraque", observou Jenkins. "Essas explicações não consideram os fatores locais que levam ao terrorismo; pelo contrário, ficam procurando um Império do Mal para acusar pelas ações terroristas. Pode haver um fundo de verdade nessas explicações, mas em geral elas são tendenciosas." Em terceiro lugar, alguns analistas indicam os fatores sociais como causa das ações terroristas. "Eles perguntam por que a Itália, a Espanha e a Alemanha têm altos níveis de terrorismo e se isso tem a ver com o passado fascista desses países." A quarta causa de terrorismo é atribuída à mudança tecnológica. Os terroristas observam a enorme superioridade militar do Ocidente e isso os força a procurar novas vulnerabilidades e novos recursos.


Por fim, alguns analistas acreditam que o terrorismo e suas causas podem ser mais bem estudados em termos de sua história natural. O fracasso das guerrilhas rurais em algumas áreas leva a um aumento no terrorismo urbano. Quando as manifestações em massa não conseguem atingir certas metas, as ações terroristas são planejadas com base nessas causas. "Compreender as causas é importante porque o terrorismo se perpetua", explicou Jenkins. "As causas podem mudar com o tempo, mas o terrorismo é constante."


Publicado em: 16/12/2002


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