IPO gigante do Santander no México: uma atitude inteligente em tempos difíceis
Na semana passada, o Banco Santander divulgou planos de usar o excelente desempenho recente de sua unidade mexicana para levantar US$ 4,3 bilhões em uma oferta de ações — a maior da história do México. A decisão do banco, que se insere no programa de expansão de longo prazo na América Latina, também tem por objetivo sinalizar para os mercados financeiros que o banco tem potencial de crescimento elevado fora dos mercados turbulentos da Espanha e da zona do euro. Em entrevista concedida a Knowledge@Wharton, os professores da Mauro Guillen, professor de administração, e Adrian Tschoegl, discutem de que modo o acordo se encaixa no plano mestre do Santander. Ambos são autores de um livro intitulado Construindo um banco global: a transformação do Banco Santander.
Segue abaixo uma versão editada da entrevista.
Knowledge@Wharton: Essa é a maior oferta de ações do México com que o banco deverá capitalizar cerca de US$ 4,3 milhões. Qual a importância disso para o Banco Santander e para o México?
Mauro Guillén: Bem, mais uma vez o Santander dá um passo no sentido de usar plenamente sua base de capital. É possível que o banco tenha planos de pôr à venda — ou já tenha vendido — parte de suas ações na subsidiária brasileira, no Reino Unido e agora no México. Esses são os três mercados mais importantes em que o banco atua fora da Espanha. Portanto, deve-se entender a decisão do banco como parte de uma antiga política de uso pleno de sua base de capital. É bom lembrar que outros bancos fizeram a mesma coisa, e há muitas empresas, sobretudo nos mercados emergentes, que recorreram principalmente a parcerias nos mercados locais e puseram à venda parte de suas ações como forma de alavancar seus recursos mais amplamente, de modo que pudessem fazer mais coisas em menos tempo. É uma decisão inteligente e faz parte de uma estratégia antiga do banco.
Knowledge@Wharton: Isso é mais importante para o México neste momento do que para o Santander?
Adrian Tschoegl: Se é para vender alguma coisa, o México é o lugar ideal para isso, porque de todos os grandes mercados em que o banco opera, os melhores resultados estão na operação mexicana. No ano passado, ela respondeu por 10% dos lucros globais do Santander, ficando um pouco abaixo apenas dos resultados na Espanha. Mas está crescendo; é ali que os lucros crescem mais, ao passo que no Brasil, nem tanto, e o mesmo se diga em relação à Espanha. Portanto, se é para vender alguma coisa, que seja no México.
É bom ter em mente o percentual de 24,9%. O banco vendeu esse montante por volta de 2006 para o Bank of America. Cerca de dois anos depois, o Bank of America vendeu de volta esse mesmo montante para o Santander. Na verdade, o que eles estão fazendo, de certa forma, é pôr de volta esses 24,9% em jogo. Conforme disse o Mauro, essa estratégia faz parte de um plano antigo. Atualmente, parte da decisão do banco se deve ao fato de que ele levantou apenas 9% da base de capital que a autoridade bancária europeia exigiu. Eles querem chegar a 10%, e para isso usarão o montante arrecadado para elevar sua base de capital.
Em segundo lugar, num momento em que a Espanha está, por assim dizer, em baixa no mundo todo, há o problema do valor do Santander. Se conseguirmos uma avaliação de mercado para os principais componentes, de tal modo que haja um piso para a avaliação do banco todo [...] E se somarmos a esse piso o Brasil, o México e o Reino Unido, e mais algumas partes aqui e ali, o valor total terá de ser, no mínimo, tudo isso mais, pelo menos, um pouquinho da operação na Espanha.
Knowledge@Wharton: Na Europa, todos os bancos estão com problemas para atrair capital. Pede-se a eles que levantem capital com base no acordo de Basileia II e outras regulações novas que requerem o reforço das reservas. Eles estão num beco sem saída. Além disso, as economias dos países estão em uma situação cada vez mais difícil. Aparece então o Santander, um banco capaz de levantar capital — pelo menos fora da Europa. Se não me engano, faz um mês o banco teve uma oferta de ações bem-sucedida de cerca de dois bilhões de euros, um verdadeiro sucesso, principalmente se levarmos em conta que muitos títulos soberanos estavam afundando na época. Será que tudo isso é sinal de que o mercado vê o Santander de um modo diferente como vê os outros bancos europeus?
Guillén: Bem, não é um banco como os demais. São poucos os bancos do mundo que têm franquia — isto é, que têm operações no mercado regional de vários países diferentes. Em se tratando de bancos mundiais de varejo, o HSBC talvez seja o melhor exemplo. Com exceção dele, há alguns outros bancos, e o Santander está entre os cinco bancos principais com operações em numerosos mercados. É claro que a crise europeia — e, de modo especial, as dificuldades da Espanha — levou a uma situação em que as ações de pelo menos alguns bancos espanhóis fossem desvalorizadas. Suas ações estão sendo severamente penalizadas pelo fato de que estão associadas a um mercado hoje em dificuldades.
O Santander, porém, gera mais da metade dos seus lucros e tem mais da metade dos seus ativos fora do seu país de origem. Muito mais do que metade dos seus lucros. Os mercados sabem muito bem disso. Portanto, a oferta pública de ações no México nos ajuda a entender o que o Adrian estava dizendo, isto é, o Santander, no mínimo, é um banco que continua valorizado. Por mais nervosos que os investidores estejam em relação à Espanha, ou à zona do euro, o Santander tem grandes operações fora da zona do euro, por isso suas ações não devem ser tão penalizadas.
Knowledge@Wharton: Portanto, o retorno positivo da oferta de ações para a marca talvez seja até maior do que os lucros oriundos da venda de ações?
Tschoegl: Sim, se chamar a atenção para o fato de que, no Santander, a participação é de cerca de 50/50 em mercados maduros e emergentes. No caso dos mercados maduros, eu diria que, no total, a Espanha contribui, provavelmente, com menos de 30% dos lucros do banco. Portanto, se a oferta de ações no México conseguir chamar a atenção para o fato de que o Santander é, de fato, um banco global, e não apenas espanhol, isso poderá ajudar a percepção que se tem dele.
Além disso, o banco está reunindo outros fundos. Você fez referência a uma oferta recente de ações. O Santander acabou de vender sua operação na Colômbia. O banco chegou à conclusão de que não estava crescendo tanto quanto gostaria — 10% de participação de mercado ou mais — por isso vendeu a operação local. Se hoje ele tem um coeficiente de capital melhor do que o exigido, um dos melhores da Europa, isso também o deixa de fora da liga das instituições problemáticas.
Knowledge@Wharton: De que modo a crise financeira da Europa afetou o Santander? Já falamos um pouco sobre isso, mas talvez você possa dar mais alguns detalhes. De que maneira o banco será afetado no futuro?
Guillén: Em primeiro lugar, o preço das ações está numa baixa histórica, obviamente. Os lucros foram afetados, porque embora a Espanha seja responsável por muito menos da metade dos lucros do banco, ainda é um mercado importante para a instituição. Além disso, o banco tem operações financeiras dirigidas ao consumidor em toda a Europa, no norte e no oeste do continente, e um pouco também no leste europeu. Essas operações foram prejudicadas porque o consumo e o crédito para o consumo diminuíram em decorrência da recessão e da crise.
Portanto, a instituição está sendo atingida tanto como banco quanto como participante do mercado, porque o que acontece com a demanda também afeta a instituição se a economia não tiver um bom desempenho. Fora isso, conforme disse o Adrian, a empresa tem uma presença muito forte em outros mercados desenvolvidos ou maduros não necessariamente na zona do euro — principalmente no Reino Unido e nos EUA. Também está presente nos mercados emergentes do México e do Brasil e em alguns outros países importantes da América Latina. Portanto, o banco está bem posicionado no que se refere ao seu portfólio de negócios em diferentes moedas e tipos de mercado, e por isso tem condições de enfrentar a crise atual, contanto que, é claro, nem todas as economias afundem ao mesmo tempo.
Knowledge@Wharton: Você mencionou o Brasil, cuja economia vem se retraindo nos últimos tempos. O banco concedeu muitos empréstimos ali. Fala-se na possibilidade de que alguns deles sejam de amortização duvidosa. Existe a possibilidade de que esse tipo de empréstimo seja de um volume tal que inflija prejuízos ao banco? Ou se trata de algo que se possa administrar?
Tschoegl: Não creio em prejuízos. A gente sempre se surpreende. O trader que custou ao UBS US$ 2,5 bilhões em negócios duvidosos foi a julgamento hoje, se não me engano, em Londres. No Brasil, a operação do Santander é boa. Com a divisão do ABN Amro, ele ficou com uma das joias da coroa, uma operação brasileira muito bem administrada. Além disso, o CEO da unidade brasileira é muito respeitado — ele comandava um bom banco, o ABN Amro Real. Hoje ele é responsável pela operação toda e seu objetivo é juntar todas as peças. De modo geral, porém, o que se tem é uma operação 'boa' e 'muito boa' em fase de montagem. Portanto, não se deve imaginar que haverá ali alguma grande surpresa.
Mesmo na Espanha, o banco tem conseguido controlar muito bem os possíveis riscos. Eles estão um pouco abaixo da média em participação de mercado no setor de imóveis — de modo especial, imóveis residenciais. Portanto, o banco tem sido cauteloso ali também. É claro que sempre pode haver alguma surpresa, mas eu não contaria com isso.
Knowledge@Wharton: A oferta de ações no México é a maior que já houve no país. Isso seria parte de um padrão onde há cada vez mais IPOs — IPOs de grande porte, por sinal — nos mercados emergentes? O mesmo acontece na Malásia e também na Indonésia.
Guillén: Acho que é preciso colocar em perspectiva o fato de que essa é a maior IPO do México por duas razões. Em primeiro lugar, o México se destaca como mercado em que houve poucas privatizações. Na verdade, houve apenas uma grande privatização no país, no setor de telefonia, e a empresa resultante dessa privatização é controlada atualmente por Carlos Slim. Isso foi há muitos anos. O México, porém, não privatizou nada mais. Em vários países da América Latina, e mesmo na Europa continental, em países como a França e a Espanha, as maiores IPOs foram sempre de empresas estatais que abriram o capital. No México, porém, devido às limitações de privatização impostas ao Estado, registradas na constituição do país [...], foram poucas as IPOs. Essa é a primeira razão.
Em segundo lugar, há grandes empresas no México, mas a maior parte delas é controlada por famílias, e nem todas têm ação em bolsa. As que são listadas têm um volume pequeno de ações no mercado acionário. É o caso da Cemex, da Bimbo, Vitra, Grupo Modelo. São todas empresas mexicanas de grande porte, a maioria delas com presença global — no setor de cimento, cerveja, pão, assados e assim por diante.
Portanto, a IPO do Santander parece grande no México porque, em parte, são muitas as ações postas à venda. No entanto, mais do que isso, ela parece grande porque a dinâmica local nunca foi muito expressiva.
Knowledge@Wharton: Seria um caso especial então?
Tschoegl: Sim.
Guillén: O México é um caso especial sob vários aspectos. Outra razão para isso, é claro, se deve à proximidade com os EUA.
Knowledge@Wharton: Vocês escreveram um livro sobre o Santander. Poderiam dizer como anda a estratégia global do banco? Em termos de estratégia global, 50% dos negócios do banco estão fora da Espanha.
Guillén: Acho que eles estão seguindo um modelo. Esse modelo, desde o início da internacionalização levada a sério nos anos 80, consiste em crescer através do ingresso do banco em novos mercados, privilegiando principalmente o varejo, as atividades de banco comercial, em vez de entrar em outros segmentos. O banco está de fato presente em vários mercados, mais de 25, e tem saído de alguns deles — da Bolívia, mais recentemente da Colômbia, em resposta às circunstâncias. Portanto, o banco tem sido muito pragmático em suas entradas e saídas de vários mercados.
O Santander sempre procurou também diversificar as áreas monetárias em que atua e as características das economias locais — mercados maduros, mercados emergentes etc. Portanto, creio que as decisões que o banco tem tomado nos últimos dois anos — ingresso no Reino Unido, consolidação no Brasil, ingresso na Polônia, na Turquia etc. — são coerentes com o que vem se passando na empresa nos últimos 20 anos. Portanto, o banco não se intimida na hora de entrar em novos mercados, embora os demais bancos estejam se retraindo em meio à crise financeira. Também não se intimida na hora de sair dos mercados se achar essa a decisão certa, correto? Portanto, o banco continua a pôr em prática os princípios estabelecidos há algumas décadas no que diz respeito ao modo de crescer no mercado internacional.
Tschoegl: O banco não fica preso a um mercado por razões sentimentais. Ele faz uma experiência. Se der certo, se houver possibilidade de ganhar participação de mercado — e o banco trabalha muito com aquisições — se for possível conquistar uma boa posição, ótimo. O Santander atua em cerca de dez mercados prioritários, e isso não mudou, além de vários outros de pequeno porte em que ele faz experiências. Trata-se, porém, da continuação da mesma estratégia geral dos últimos 20 anos ou mais.
Knowledge@Wharton: O Santander parece ter uma agilidade que muitos analistas do setor dizem que os bancos precisam ter, mas geralmente não têm. Isso talvez o distinga dos demais bancos. E quanto a Ásia, que todos dizem ser o futuro dos bancos, uma vez que é região de forte crescimento? Qual a estratégia do banco para a região?
Tschoegl: O Santander saiu das Filipinas. Ele comprou algumas coisas ali e depois saiu porque não descobriu como fazê-las funcionar. Há um interesse evidente pela China, mas o banco não sabe ainda como entrar no país. Uma dificuldade especial é a falta de pessoal capaz de fazer a ponte entre a China e a Espanha e que tenha a confiança da alta administração. Talvez eu esteja enganado, mas não creio que o banco tenha posição minoritária em alguma instituição financeira da China.
Guillén: Tampouco no mercado asiático em geral. Há, na verdade, dois ou três bancos apenas que, historicamente, têm alguma presença em talvez um ou dois, no máximo três, mercados da Ásia. Esses mercados, por exemplo, da Índia, Tailândia, Indonésia, Filipinas, Coreia do Sul, Japão, China, são todos muito diferentes. Estão todos na Ásia, mas não podiam ser mais diferentes um do outro. Eles diferem em termos da estrutura de concorrência, nas regulações, na existência ou não de empresas fortes no setor etc. É evidente que o banco está atento a isso. Creio que todo banco europeu quer acompanhar o que se passa ali.
No entanto, estamos falando aqui de um banco que quer atuar no mercado de varejo, abrir filiais e receber depósitos, conceder empréstimos. Talvez essa não seja uma parte do mundo em que o Santander deva estar. Eles estão sondando. Estão tentando ver se faz sentido ou não. Mas há muito espaço para crescer na América Latina, Europa e nos EUA. Ainda nem falamos dos EUA. Ali, o banco tem forte presença em uma pequena parte do país — o corredor noroeste, e só. E esse é um mercado muito grande, maduro para a consolidação porque é constituído de vários bancos pequenos.
Por isso, não há necessidade de ingressar na China para continuar crescendo. O mercado chinês talvez seja um mercado difícil. Parece que a China está seguindo o Brasil atualmente no que diz respeito à deterioração dos indicadores macroeconômicos, especialmente no tocante ao crescimento. Portanto, não é certo que a China seja o lugar certo para aportar, e é claro que a Índia é um mercado muito complexo. Há bancos locais muito sofisticados e entrincheirados em seus segmentos.
Portanto, não está claro por que o banco haveria de querer, pelo menos nos próximos dez ou 20 anos, alocar recursos naquela parte do mundo se há oportunidade de crescimento na Europa, América Latina e na América do Norte.
Knowledge@Wharton: Uma última pergunta: vocês falaram sobre oportunidades de crescimento na Europa. Muitos analistas de bancos dizem que a Europa tem bancos demais, que haverá uma consolidação, talvez de grande porte. Onde entra o Banco Santander nesse processo?
Tschoegl: Essa análise ignora outras coisas e se concentra apenas no crédito ao consumidor, e não nos bancos. Se você olhar para a Escandinávia, ou para a Alemanha, e assim por diante, verá que eles não construíram uma presença bancária efetiva ali. Há uma certa presença bancária na Alemanha etc., mas essa presença se restringe mais ao crédito ao consumidor. Durante muitos anos, o alvo foi a Itália. O Santander estava interessado na Itália. Por fim, conseguiu entrar ali graças à divisão do ABN Amro. Um mês depois, venderam-na para o Banco Monte dei Paschi di Siena, o que prova mais uma vez a inexistência de laços sentimentais. Embora estivessem tentando entrar na Itália há um bom tempo, o Monte dei Paschi apresentou uma oferta ridiculamente alta, por isso um mês depois o Santander já havia vendido a operação.
Acho que um dos problemas da Europa é que a região continua a ser um continente de nações, por isso é muito difícil para um banco estrangeiro fazer uma grande aquisição sem que haja muita preocupação local de permeio. Basta lembrar mais uma vez do ABN Amro e do que aconteceu quando ele se fragmentou: os holandeses nacionalizaram sua parte; os belgas fizeram o mesmo e só o Santander ficou de fora, porque não era dono de nenhuma dessas frações.
Guillén: A Europa continental é complexa. Haverá consolidação? Bem, primeiro temos de saber o que acontecerá ao euro. Depois, é preciso saber se na esteira de uma possível reorganização dos títulos do tesouro da região, ou talvez de algum tipo de união fiscal, os governos deixarão de se preocupar tanto com as aquisições estrangeiras dos bancos locais. É inconcebível que, num contexto de união monetária, ainda se tenha, em cada um desses mercados, bancos que ocupem a primeira, segunda e terceira posições entre os maiores e que esses bancos sejam locais. Portanto, nenhum banco invadiu a seara do outro depois de 12, 13 anos de união monetária. Isso é realmente muito estranho.
Por isso, acho que tudo depende do que acontecerá com o euro. Depende do tipo de união fiscal. Se o euro sobreviver, será certamente com algum tipo de união fiscal. Que forma tomarão as coisas então?
Será que os governos se tornarão mais abertos às aquisições no setor financeiro? É um setor politicamente sensível e estratégico. É um segmento peculiar, por isso nos atrai tanto, certo? Na Europa, boa parte dessas instituições tem pelo menos 100 anos, e é muito difícil não levar isso em conta. Até mesmo nos EUA é difícil ver como possa haver mais consolidação onde, talvez, devesse mesmo haver. Portanto, são inúmeros os problemas nesse setor no mundo todo. Creio que a Europa é um caso muito claro de compartimentação ou fragmentação num contexto de união monetária, o que é muito estranho.
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