Por que a seca nos Estados Unidos é ao mesmo tempo boa e ruim para a América Latina
As fazendas do Meio-Oeste americano estão cobertas de terra ressecada e de lavouras sem viço, sinais da pior seca que a região produtora de grãos já enfrentou em mais de 50 anos. O verão foi implacável com o agronegócio americano. A falta de chuvas arruinou as lavouras de milho, soja e os campos de trigo. As perspectivas são sombrias: O Centro de Previsão do Clima dos EUA prevê condições semelhantes às da seca atual até novembro.
O prognóstico é melhor para as fazendas sul-americanas. A Argentina e Brasil, dois dos maiores produtores de grãos do mundo, deverão se beneficiar com o colapso da fonte de alimentos americana. Nesses países, os altos preços estão levando os agricultores a plantar mais soja, trigo e milho. "A seca nos EUA criou uma oportunidade para os produtores. Os agricultores estão plantando mais aqui na América do Sul para atender à demanda internacional", diz Andrés Alcaraz, representante do Centro de Exportadores de Cereais da Argentina.
Isso, provavelmente, são boas novas para o consumidor. O aumento da produção na América do Sul poderia, no fim da contas, atenuar a elevação dos preços dos alimentos, que subiram 10% de junho a julho, em parte em decorrência da seca, conforme dados do Banco Mundial. Os preços do milho e do trigo subiram 25%, enquanto o custo da soja aumentou 17% ao longo desse período, informou o banco.
Contudo, antes que os agricultores sul-americanos entrem em ação, é importante notar que a alta dos preços dos alimentos pode resultar em uma situação potencialmente desastrosa para o consumidor latino-americano, especialmente para os pobres. Vários países são hoje dependentes das exportações de grãos dos EUA, o que os tornam mais vulneráveis às volatilidades do mercado. "A situação atual dos EUA, com a seca e o declínio da produção, é boa e ao mesmo tempo ruim para a América Latina", observa Fernando Soto Baquero, representante regional, no Chile, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). "Os países produtores de grãos, como Argentina e Brasil, serão beneficiados [...] Todavia, estamos muito preocupados com os outros países, como os da América Central, onde o preço dos alimentos está subindo."
Um problema global
Os agricultores americanos esperavam uma colheita abundante na primavera. Isso foi antes de a Mãe Natureza parar de cooperar. Em agosto, o Departamento de Agricultura dos EUA informou que mais de 20% das lavouras haviam sido classificadas de "boas a excelentes", uma queda significativa em relação à primavera, quando cerca de 80% das lavouras haviam recebido essa classificação, e 65% em junho.
Numa escala internacional, isso é importante porque os EUA sempre foram um dos maiores produtores de commodities do mundo. É o maior produtor de milho, e continua a ser o maior produtor de soja, mas isso pode mudar. Os agricultores americanos são responsáveis por cerca de ¼ das exportações de trigo do mundo. Quando a seca os atinge, o mundo sente.
"A situação é muito séria atualmente. Os preços dos alimentos subiram acentuadamente [...] principalmente os preços da soja e do milho, que estão hoje em patamares históricos de alta. O preço do trigo também está alto demais", diz José Cuesta, economista sênior do Banco Mundial.
As importações latino-americanas de cereais americanos já começaram a diminuir drasticamente. De maio a junho, as exportações americanas para a região caíram 35%, de acordo com os últimos dados de comércio dos EUA disponíveis. Enquanto isso, os preços altos levaram a um aumento significativo da produção de milho e soja na América do Sul, onde os agricultores estão plantando mais do que em qualquer outro momento na década passada, conforme mostram os números do Conselho Internacional de Grãos, que acompanha a produção agrícola.
Os campos de cereais da região deverão aumentar cerca de 18% em relação à safra de 2010-2011, chegando a 107 milhões de toneladas métricas, com Brasil e Argentina à frente, o que representa 90% do total do continente. Os campos de soja deverão aumentar cerca de 5% chegando a 142 milhões de toneladas, de acordo com o conselho.
"As lavouras estão respondendo à demanda internacional e aos preços elevados dos mercados de futuros de grãos", observa Alcaraz. "Os agricultores estão plantando mais grãos do que jamais plantaram." Os mercados de futuros estão operando em alta principalmente no caso da soja, com preços acima de 26% nos mercados americanos em relação há um ano.
Os agricultores argentinos estão plantando um total estimado de 110 milhões de toneladas métricas de grãos, dos quais a soja tem maior percentual de plantio. No ano passado, o país também sofreu com a seca, por isso foram colhidos apenas 90 milhões de toneladas métricas, das quais 40 milhões eram de soja, conforme estatísticas do governo.
Marcelo Cesar Moscata, diretor da Exportadora Argentina de Grãos S.A., uma pequena exportadora (pelos padrões internacionais) de grãos e óleos, diz que a situação nos EUA é lamentável, mas dá oportunidade a outros países. "É claro que ninguém quer que os agricultores americanos sofram com a seca, mas estamos plantando mais para compensar a diferença. Portanto, entendemos o que está acontecendo como uma ordem para plantar mais", diz. "Passamos por uma seca também, por isso sabemos como é. Estamos satisfeitos porque este ano o tempo nos favoreceu." Moscata diz que espera uma queda de dois pontos percentuais na receita quando vender sua colheita.
No Brasil, país vizinho, os agricultores também sofreram com a seca no ano passado. No primeiro trimestre, a produção agrícola, que responde por 30% do produto interno bruto do país, encolheu 8,5%. Diferentemente dos EUA, porém, a seca não durou muito tempo. Os agricultores brasileiros, liderados pelas multinacionais, se recuperaram. As exportações de grãos aumentaram 111% em abril-junho em comparação com o ano anterior. As exportações de soja subiram um pouco mais modestamente, cerca de 1% no decorrer do mesmo período (embora esse grão seja mais importante para a economia brasileira).
A produção de cereais no Bolívia deverá subir de 4%, em 2011, para um milhão de toneladas métricas, graças ao tempo favorável e ao aumento do número de lavouras. O Chile e a Colômbia também estão cultivando mais grãos — cerca de 8% mais em relação aos níveis de 2011. A produção do México este ano deverá subir 14%, chegando a 21,8 milhões de toneladas, de acordo com previsões da FAO.
"A resposta que estamos vendo da parte dos principais produtores de grãos da região mostra sua importância para os mercados mundiais", diz Soto, da FAO.
As exportações de grãos, porém, tornaram-se uma fonte de conflitos, pelo menos na Argentina. A conhecida instabilidade política do país ficou evidente no início do mês passado quando os trabalhadores portuários entraram em greve durante três dias, prejudicando as exportações de um dos principais canais argentinos de embarque. A greve foi convocada porque os inspetores de saúde reivindicavam aumento de salário. Enquanto isso, o governo local, em conformidade com as políticas da presidente Cristina Kirchner, tentava proteger os preços dos alimentos locais impondo restrições sobre os mercados exportadores. O governo planeja subir o imposto sobre as exportações de soja, por exemplo, para 40%, ante os atuais 35%. O governo impôs também limites sobre a exportação de trigo e outros produtos. "É polêmico, sim, mas depende da parte com que você conversa", explica Alcaraz. Os controles fazem sentido do ponto de vista do consumidor, para quem a volatilidade internacional pode elevar o preço do pão, acrescenta Alcaraz, mas não faz sentido para o agricultor que gostaria de aumentar as exportações para tirar vantagem dos preços elevados.
Preocupação com o custo
O custo do pão e de outros produtos em países não produtores — ou exportadores — de grãos, já está subindo. As fazendas sul-americanas começarão a colher soja e grãos diversos de fevereiro a abril do ano que vem (a época da colheita na região difere da época da colheita nos EUA), abrindo um intervalo de vários meses até que o aumento da produção leve à queda dos preços.
"Não creio que os preços dos alimentos devam mudar nos próximos seis meses ou mais", prevê Timothy Wise, diretor do programa de pesquisa e política do Instituto de Desenvolvimento Global e de Meio Ambiente da Universidade Tufts de Massachusetts.
O Banco Mundial e a FAO disseram que os altos preços podem ter efeitos nocivos para o consumidor latino-americano. "Nos países que não são exportadores líquidos de grãos, o consumidor continua muito vulnerável às variações de preços", diz Soto.
A avaliação que a FAO fez da América Latina separa nitidamente países como o Brasil e Argentina, exportadores de grãos, de países mais pobres, que importam produtos básicos, especialmente os países da América Central. "Estamos muito preocupados com a situação de países como a Guatemala, na América Central, ou no Caribe, que dependem de importações dos EUA, principalmente de grãos", diz Soto.
A Colômbia, que importa cerca de 75% dos grãos que a população consome, teme que o efeito dos preços elevados se espalhe. "O aumento prejudica a criação de aves, porcos e gado leiteiro", disse a Reuters Rafael Mejía, diretor da Sociedade de Agricultores da Colômbia, que representa a indústria agrícola do país. "O pior de tudo é que os preços continuarão a subir."
No mercado de hortifrútis fora de Santo Domingo, capital da República Dominicana, num dia de semana há pouco tempo atrás, Juliana Alvarez lamentava a elevação dos preços dos alimentos básicos com que alimenta sua família de quatro pessoas. "A maior parte das coisas que consumimos aumentou de preço. É estressante", diz ela enquanto escolhe verduras no momento em que uma chuva pesada começa a cair sobre o teto de metal corrugado das barracas do mercado.
Cerca de dez anos atrás, havia muita esperança em países como a República Dominicana de que um pacto comercial com os EUA pudesse trazer estabilidade aos mercados e preços mais baixos para o consumidor.
Em vez disso, os especialistas dizem que o pacto comercial — mais conhecido como CAFTA-DR — tornou os países mais vulneráveis às altas dos preços sujeitando-os aos caprichos dos mercados mundiais. Por exemplo, as importações de grãos dos EUA pelos países centro-americanos e para a república Dominicana — todos signatários do acordo comercial — aumentaram nos últimos anos.
Enquanto isso, os EUA têm destinado um volume maior de milho e outros grãos para a produção de biocombustíveis em decorrência de normas de utilização de combustíveis renováveis. Os EUA se tornaram o principal produtor de etanol em 2005 depois que entraram em vigor os decretos federais de aumento de produção. A produção aumentou ainda mais em 2007, e hoje os EUA produzem bem mais de 50% do total mundial de etanol, um combustível derivado de vegetais, entre eles, o milho.
O aumento da produção do etanol é responsável, em parte, pela elevação dos preços dos alimentos no mundo todo. Um estudo da Universidade Tufts constatou que, desde 2008, de 20% a 40% dos aumentos dos preços dos alimentos nos países importadores se deveu à política americana de ampliar a produção do etanol.
A dependência cada vez maior das exportações americanas numa época em que o país elevou a produção do biocombustível prejudicou o consumidor. O preço dos alimentos aumentaram paulatinamente. De acordo com o Banco Central da República Dominicana, os preços de alguns produtos, como óleo de soja, aumentaram 50% nos últimos três anos. Outros aumentos de preços foram mais moderados. Para Alvarez, o consumidor da República Dominicana "tem sofrido com os aumentos de preços há anos".
Isso acontece, provavelmente, porque o salto dos preços este ano foi um dos três que os consumidores do mundo todo experimentaram nos últimos anos devido a fenômenos climáticos ou mudanças de políticas. "Não vejo o aumento de preços deste ano como algo isolado. Vejo como a continuação do que vem acontecendo nos últimos cinco anos", diz Wise, da Universidade Tufts.
O aumento hoje célebre das commodities no período de 2007-2008 suscitou uma controvérsia generalizada no México, onde o preço da tortilla disparou. O aumento de preço ocasionou manifestações maciças e fez com que o presidente Felipe Calderón, em fim de mandato, instituísse um Pacto de Estabilização do Preço da Tortilla, que fixava o preço máximo da tortilla em US$ 8,50 o quilo (2,2 libras).
Foram, porém, soluções esparsas e pouco frequentes. O BID estima que o aumento de 2007-2008 nos preços dos alimentos (cerca de 20%) tenha jogado na pobreza 10 milhões de latino-americanos — foi o maior aumento em relação ao tamanho da população de qualquer região do mundo.
"Não sei de nenhum país latino-americano que tenha posto em prática reformas reais nos últimos anos para proteger" o consumidor, diz Wise. Outro aumento ocorreu em 2010-2011, culminando com o aumento deste ano, que Wise classifica coletivamente como "um aumento longo e persistente que continua a testar a resistência das famílias latino-americanas. Quanto mais tempo o aumento persistir, tanto mais as famílias se tornarão vulneráveis."
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