Consolidação do mercado de smartphones: resta pouco tempo para uma terceira opção
A HTC, fabricante de smartphones, já reduziu por diversas vezes suas perspectivas de lucros e receitas e consta que estaria fechando seu escritório na Coreia do Sul. A Nokia enfrenta a acolhida morna que tiveram os Lumia Windows Phones, além de dificuldades em mercados como o da China. A Research in Motion perdeu participação de mercado e adiou para 2013 o lançamento da sua nova geração de smartphones.
Os problemas por que passam esses fabricantes de produtos tecnológicos refletem o que está se configurando como um processo de consolidação do mercado de smartphones em constante evolução, e que é cada vez mais dominado por duas empresas apenas: Samsung e Apple.
Os fabricantes de hardware provavelmente serão os mais prejudicados nessa reacomodação do mercado, porque grande parte da concorrência na indústria se resume a duas plataformas operacionais e a dois ecossistemas de aplicativos rivais: o Android, do Google, e o iOS, da Apple. O sistema operacional da Apple roda exclusivamente nos aparelhos da empresa, ao passo que o mercado do Android abastece uma concorrência implacável e diversos aparelhos da Samsung, HTC, LG, Motorola Mobility (comprado pelo Google) e de empresas chinesas como ZTE e Huawei.
"Essas acomodações são comuns na maior parte das indústrias e em diversas categorias", explica David Hsu, professor de administração da Wharton. "Resta saber quanto tempo ainda resta até a consolidação." Hsu nota que as consolidações têm sido frequentes na indústria de tecnologia. No momento em que o hardware se torna uma commodity, a consolidação vem logo em seguida. Na indústria de PC, por exemplo, o mercado de disco rígido está hoje, basicamente, nas mãos de duas empresas: Western Digital e Seagate. Os mercados de PC também encolheram e hoje estão limitados a uns pouco fabricantes. Nos segmentos de software e de Internet, os duopólios são uma consequência do curso natural dos negócios: é o caso do Google, por exemplo, que domina o mercado de pesquisa, e do concorrente Bing, da Microsoft. Os sistemas operacionais para computadores resumem-se hoje ao Windows, da Microsoft, e ao Mac OS X, da Apple, além dos softwares livres, como o Ubuntu e outras versões do Linux, que contam com público reduzido de usuários.
Há dois anos apenas, a onda dos smartphones deu um grande impulso a muitos fabricantes de hardware. A expectativa era de que a maioria dos usuários de telefones móveis acabasse migrando para um smartphone, um prognóstico que está se realizando atualmente: de acordo com a comScore, 110 milhões de americanos tinham um smartphone em abril, ante 44% há um ano.
Ao mesmo tempo, 61,5% dos novos donos de smartphones prefere adquirir aparelhos equipados com Android, enquanto 25,2% prefere o iPhone da Apple, conforme dados da comScore. Com 86,7% do mercado coberto pelo Android e iOS, empresas como a Nokia, que usa o sistema operacional Windows Phone em seus novos aparelhos, e a Research in Motion, que usa um sistema próprio, disputam o que sobrou.
Essas empresas estão perdendo terreno rapidamente. De acordo com um relatório de 26 de julho da empresas de pesquisas IDC, a Samsung e a Apple duplicaram sua participação conjunta de mercado nos últimos dois anos. (Na semana passada, as duas empresas foram ouvidas em um tribunal federal que deu ganho de causa a Apple em uma ação de violação de patentes movida pela empresa contra a Samsung).
O software domina sobre o hardware
De acordo com Saikat Chaudhuri, professor de administração da Wharton, as empresas de hardware acabam sempre por último na cadeia alimentar de um setor como o de smartphones, em que o software e um ecossistema de desenvolvedores e aplicativos são meios de que se valem as diferentes empresas para se diferenciarem das demais. "Se há uma coisa que aprendemos é que o ecossistema é fundamental: os aplicativos que estão por aí são bons?", indaga Kendall Whitehouse, diretor de novas mídias da Wharton. "Quem se dedicar apenas à ponta do hardware verá que é difícil ser bem-sucedido."
"O mercado de smartphones está passando por uma batalha de padrões, e o hardware é o item menos importante dessa disputa", observa Chaudhuri. A Nokia, por exemplo, está migrando do antigo sistema Symbian OS para a plataforma Windows Phone, da Microsoft, o que fez aumentar significativamente suas vendas, mas nada de excepcional. A Research in Motion aposta seu futuro sucesso no sempre adiado BlackBerry 10, cuja estreia está prevista para 2013.
Tanto a RIM quanto a Nokia esperam se tornar a terceira plataforma móvel com chances de desafiar a Apple e o Android.
Se os softwares não se diferenciassem uns dos outros e não houvesse hardwares avançados, os fabricantes de aparelhos teriam de competir em escala e preço. Isso é o vem acontecendo no mercado de Android. A HTC, que já foi a favorita dos fabricantes de aparelhos equipados com Android, reduziu reiteradas vezes suas perspectivas de receitas nos últimos meses. "O mercado de smartphones está passando pelo curso normal de evolução", diz Chaudhuri. "No início, havia inúmeros designs diferentes e mais a inovação do touch-screen. Houve melhoras significativas. Agora, os aprimoramentos são graduais e não tão radicais que obriguem o consumidor a trocar de aparelho a cada seis meses."
Nem a Apple está imune ao que se passa. Os resultados do terceiro trimestre fiscal da empresa, divulgados em 24 de julho, ficaram aquém das estimativas de Wall Street porque, segundo os analistas, o consumidor prefere esperar pela próxima geração do iPhone, em vez de comprar simplesmente o último modelo, o 4S. "As vendas semanais de iPhone continuam a ser afetadas por rumores e pela especulação em torno de novos produtos", disse Peter Oppenheimer, diretor financeiro da Apple, durante a conference call de lucros da empresa.
A situação da Apple e da Samsung no topo do setor ainda não está consolidada, diz Chaudhuri, porque o mercado "não chegou ainda a um hardware dominante". Muitos consumidores ainda preferem um aparelho com teclado físico, em vez de touch-screen. Além disso, o mercado de smartphones continua a se fundir com o setor de tablets. "O design dominante ainda não está definido em razão das limitações físicas que dificultam a criação de um aparelho que possa dar conta de todas as funções."
Mesmo que surja uma terceira plataforma forte, Hsu indaga: o que as empresas de hardware teriam a ganhar com ela? A resposta a essa pergunta, diz ele, depende da inovação do modelo de negócio e da possibilidade de os fabricantes de hardware para smartphone, como a RIM, Nokia e HTC captarem receita com anúncios ou cobrar das empresas de software pela criação de aplicativos que rodem em seus aparelhos.
Pegos no fogo cruzado
Enquanto a Apple e a Samsung brigam pelo domínio do mercado de smartphone, as vítimas desse fogo cruzado já começam a se amontoar.
Em 6 de junho, a HTC, antigo carro-chefe do Android, anunciou que os resultados do segundo trimestre ficariam aquém das projeções anteriores. Os analistas presentes a conference call com o diretor financeiro da empresa, Chialin Chang, não pouparam críticas à empresa. Um deles disse que a HTC "é invisível" em Londres, enquanto a Samsung está por toda parte promovendo seu Samsung Galaxy S3. O analista disse que a "máquina de marketing da Samsung é gigantesca, o que torna a empresa um concorrente difícil".
Em resposta às críticas feitas, Chang disse que "com base na escala que temos, é evidente que teremos de jogar com inteligência".
Daniel Chang, analista da Macquarie, disse em uma nota de pesquisa que a HTC está encurralada entre a Apple e a Samsung. Ele acrescentou que a Apple deverá lançar o novo iPhone no outono americano. "O lançamento não só irá tirar participação de mercado de todas as empresas que usam o Android, inclusive da HTC, como irá também pressionar a Samsung para que adote uma estratégia de preços mais aguerrida para o Galaxy S3 se quiser proteger sua fatia de mercado", disse. "A HTC poderá ser diretamente afetada, uma vez que sua clientela também é cliente da concorrência."
Hsu concorda. "O Android hoje está bem consolidado, portanto a questão é de preço mesmo", diz.
A situação não é muito melhor para a Nokia. No dia 19 de julho, a empresa informou que teve um segundo trimestre de prejuízos líquidos de US$ 404,9 milhões sobre receitas de US$ 9,67 bilhões conforme a taxa de câmbio do euro/dólar. Stephen Elop, CEO da Nokia, disse que as vendas dos aparelhos da empresa equipados com o Lumia Windows Phone não foram rápidas o bastante para compensar a queda nas vendas na China e em outras regiões. Elop disse também que a Nokia vendeu quatro milhões de aparelhos com o Lumia no segundo trimestre. "Nossa principal estratégia para os smartphones é a adoção do Windows Phone", disse Elop em uma conference call de 19 de julho. "Aprendemos que é preciso trabalhar muito para chegar à condição de terceiro ecossistema do mercado." Ele acredita que a aposta no Windows Phone ganhará tração no momento em que a Microsoft lançar o sistema operacional Windows 8, que tem uma interface do usuário parecida.
Contudo, a agência de classificação de crédito Moody's rebaixou a nota da Nokia devido a temores de que a empresa queime rapidamente seu saldo líquido de 4,2 bilhões de euros. A Nokia informou que ficou "desapontada com a decisão", mas que está posicionando a empresa para o crescimento futuro.
A Research in Motion também está atravessandotempos difíceis. Em 28 de junho, a RIM anunciou prejuízos no primeiro trimestre fiscal de US$ 518 milhões sobre receitas de US$ 2,81 bilhões, e adiou a estreia do seu sistema operacional BlackBerry 10. Analistas de Wall Street esperam agora que a RIM tenha prejuízos até fevereiro. Thorsten Heins, CEO da empresa, disse em uma conference call que não estava satisfeito com os resultados da RIM. "Os resultados do primeiro trimestre refletem a mudança de produto e de plataforma por que estamos passando, dificuldades persistentes de mercado e a dinâmica competitiva que observamos em muitos de nossos mercados', disse. "Não estamos parados. Estamos convencidos de que a integração do hardware, software e serviços contribuirá para a geração de valor."
A RIM e a Nokia talvez disponham de algumas poucas chances apenas para a criação de um pacote sólido de software/hardware capaz de competir com a Samsung e a Apple, observa Chaudhuri. "Em algum momento, a Nokia e a RIM terão de abandonar seus sistemas operacionais e migrar para alguma coisa que se tornará padrão."
Por que a Nokia e a RIM se aferram à ideia de que podem competir nos segmentos de software e hardware? Tanto Elop quanto Heins disseram que é possível gerar valor e preservar as margens de lucro de suas respectivas empresas com um sistema próprio. Elop disse que trocar o sistema da empresa pelo Android mergulharia a Nokia numa competição feroz de preços com a HTC, Samsung e vários concorrentes chineses, além de tornar ainda mais espinhosa a tarefa de gerar valor.
"O duopólio não interessa a ninguém", disse Chaudhuri. "Não é tarde demais para uma terceira plataforma, mas está se tornando cada vez mais difícil." Contudo, tanto a Nokia quanto a RIM têm um desafio e tanto pela frente. "As barreiras que impedem a entrada de um novo sistema operacional no mercado são extremamente rígidas", disse Whitehouse. "Além disso, o iOS e o Android não param de inovar."
A demanda por smartphones diminuiu?
O sufoco dos fabricantes de smartphones poderá piorar ainda mais caso as vendas dos aparelhos comecem a cair. De acordo com o IDC, as vendas de smartphones no mercado mundial totalizaram US$ 153,9 milhões no segundo trimestre, o que representa uma elevação de 42,1% em relação ao ano anterior. Contudo, essa taxa de crescimento foi a mais lenta desde o quarto trimestre de 2009. Ramon Llamas, analista do IDC, disse que as dificuldades econômicas da Europa e os mercados emergentes mais rigorosos estão prejudicando as vendas de smartphones.
Ao mesmo tempo, a Texas Instrument e a Qualcomm, fabricantes de componentes para smartphones, rebaixaram suas perspectivas para os próximos trimestres, numa indicação de que a demanda está mais fraca do que o esperado. O IDC informou que a Samsung foi a principal fabricante de smartphones no mundo todo, com 32,6% de participação de mercado. A Apple veio em segundo lugar com 16,9% de market share no segundo trimestre. A Nokia teve participação de 6,6%, ante 38,9% no ano passado. A participação da HTC foi de 5,7%, ante 2,1% no ano anterior. Enquanto isso, a novata chinesa ZTE teve uma participação de mercado no segundo trimestre de 5,2%, ante 300% há um ano.
Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, prevê que as taxas de crescimento dos smartphones continuarão a diminuir à medida que o índice de aperfeiçoamentos decai. "Os recursos dos smartphones estão relativamente consolidados", diz Matwyshyn. "Eles já não são mais uma grande novidade e não provocam tanta admiração assim. Há um certo cansaço da parte do consumidor."
Parte desse cansaço talvez seja um simples desdobramento do uso do produto, mas outros aspectos talvez sejam culturais, acrescenta Matwyshyn. "Os smartphones são uma forma de prender as pessoas ao trabalho", diz ela. Por causa disso, os smartphones talvez não já exerçam o mesmo fascínio que antes exerciam sobre quem ainda não tinha um aparelho desses.
Isso, porém, não significa necessariamente que as taxas de crescimento cairão drasticamente — ainda há diversos mercados emergentes que os fabricantes de smartphones poderão explorar. Além disso, sempre é possível que algum novo aplicativo, sistema operacional ou design de hardware conquiste o consumidor da forma como fizeram o iPhone e o Android. "Ninguém sabe por quanto tempo os atuais líderes de mercado reinarão antes que apareçam novos desafiantes", diz Hsu.
|