Alta costura em alta no Oriente Médio, apesar dos temores em relação à zona do euro e da inquietação nas nações árabes
Em junho, Dubai oferece duas coisas: um calor escorchante e um mês inteiro de descontos em várias lojas, inclusive as que vendem grifes de alta costura. O evento, conhecido como Festival de Compras de Dubai [Dubai Shopping Festival], atrai turistas todos os anos para esse xecado glamouroso. Este ano, porém, a máquina de relações públicas de Dubai começou a promover mais cedo os meses de festas nos shoppings, e para uma clientela muito específica: turistas prósperos da China e da Europa Oriental.
De acordo com a incorporadora Lang Lasalle, 214.000 turistas chineses visitaram Dubai em 2011, o que representa um aumento de 50% em relação ao ano anterior. Não bastasse isso, eles abriram a carteira: cerca de 25% dos bens de luxo vendidos no Shopping dos Emirados foram comprados por turistas chineses, conforme revelou Iyad Malas, CEO do grupo Majid Al Futtaim, no Herald Tribune.
Os visitantes que voltam à cidade encontram um volume ainda maior de ofertas. O Shopping dos Emirados [Mall of the Emirates], mais conhecido por sua pista de esqui interna, ampliou recentemente suas instalações para abrigar butiques das principais marcas da moda de alto luxo — Dior, Leboutain, Brioni, entre outras. A tempo para o festival de compras, o shopping inaugurou uma loja nova da Prada, a terceira maior do mundo.
Apesar dos temores em relação à zona do euro e da inquietação nas nações árabes, o Oriente Médio é um mercado pujante para o varejo de luxo, e Dubai é o polo de onde ele se irradia graças à presença de um mercado local de consumidores locais e expatriados ricos, além de grandes contingentes de turistas abonados sempre dispostos a gastar prodigamente. Dubai é a segunda cidade desse mercado, depois de Londres, e a mais atraente para o varejo internacional, de acordo com a consultoria imobiliária CBRE. Trata-se de uma metrópole com 25 shoppings, entre eles o maior do mundo em área total, sendo que o varejo responde por 30% do PIB local.
"O mercado de luxo vem crescendo a uma taxa de 10% a 12% no Oriente Médio nos últimos anos", informa Frank Pinto, porta-voz da Bain & Company. Muitos analistas preveem que o varejo de bens de luxo no Oriente Médio continuará firme no futuro próximo. Os especialistas desse mercado acreditam que essa taxa saudável de crescimento será mantida até, no mínimo, 2014 no Oriente Médio. A Verdict, empresa de pesquisas do varejo, vai além e prevê que o gasto com bens de luxo na região deverá duplicar em 2015.
Jonah Berger, professor de marketing da Wharton, não se espanta com os dados. "Seja qual for a situação da economia, a aquisição de produtos de luxo sempre foi uma forma de diferenciação para o consumidor", diz. "Para mostrar que é rico, que tem bom gosto e que está na moda. No Oriente Médio, é a forma que o consumidor encontrou para mostrar que é global e que está ligado à evolução da moda no mundo."
Que recessão?
Para os ricos do Oriente Médio, ir às compras constitui uma atividade social importante. Uma pesquisa recente do Chalhoub Group constatou que 70% dos entrevistados faziam compras com amigos e 40% deles com suas irmãs e mães. A pesquisa revelou que ostentar o logo certo e a grife da moda em sacolas ou roupas é extremamente importante. Por exemplo, 90% das pessoas entrevistadas em Riad, na Arábia Saudita, achavam que era importante ter um logo de prestígio estampado na roupa ou em acessórios.
A indústria do varejo de luxo espera ultrapassar os US$ 250 bilhões até o final do ano, conforme dados de um relatório da Bain & Company e do consórcio de varejo de luxo italiano Fondazione Altagamma. Cerca de 28% das vendas de varejistas da moda provêm de operações no exterior, um percentual que supera o de qualquer outro setor de produtos, informa o relatório de Perspectivas Econômicas Globais da Deloitte.
Nesse mesmo estudo, a Deloitte constatou que em nenhum outro lugar o crescimento de vendas no varejo se compara ao observado na região da África do norte pertencente ao Oriente Médio (MENA, na sigla em inglês), cujo crescimento foi de 13,2% no ano passado. Além disso, os 250 varejistas principais tiveram um percentual de vendas de 41,7% no MENA, o maior do mundo. Não é de surpreender, portanto, que as duas regiões econômicas emergentes também tenham gerado a taxa de crescimento anual composta mais elevada do que a de qualquer outra região do mundo no período de 2005 a 2010.
Esses números ratificam a conclusão da Luxury Movement, consultoria de gestão de butiques internacionais de Dubai: os "países mais ricos do mercado árabe não foram tão drasticamente afetados pela recente crise econômica como foram os países ocidentais". Outros grupos de varejo do Oriente Médio concordam. Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Riad, na Arábia Saudita e Doha, no Catar, são cidades do Golfo de enorme potencial, informa o Chalhoub Group, principal distribuidor e varejista do Oriente Médio. Além disso, apesar dos distúrbios recentes, o Egito e o Irã também são países com potencial no segmento de varejo devido à população jovem e ao seu rápido crescimento, informa a Luxury Movement.
Enquanto o setor de varejo de bens de luxo floresce no Oriente Médio, o resto do mundo, com exceção da China e de outros países asiáticos, tem uma taxa de crescimento menor. O lar tradicional da alta costura, a Europa, enfrenta um número cada vez maior de dificuldades monetárias. Em 2012, o mercado europeu de marcas de luxo cresceu entre 2% e 4% com um volume maior de incertezas no tocante ao consumo local, uma vez que a crise da zona do euro ainda apresenta desdobramentos, explica a Bain & Company.
A China lidera, sem dúvida alguma, o crescimento do setor de bens de luxo com índices entre 18% e 22%, mas o país já emite sinais de alerta. Mesmo com a economia chinesa em fase de desaceleração, seu crescimento ainda é de quatro a cinco vezes mais rápido do que o dos EUA e da Europa Ocidental. Obviamente o varejista do setor de bens sofisticados quer que sua empresa cresça, de preferência, nos mercados emergentes, e não nos mercados maduros da Europa, EUA e Japão. (O consumidor americano no Oriente Médio geralmente hesita em comprar, já que os preços locais do varejo são, via de regra, mais altos do que em seu país de origem, principalmente em outlets).
"Os produtos de luxo continuam a vender bem no mundo todo, mas creio que o Oriente Médio se destaca", disse ao Arabian Business David Macadam, diretor regional e chefe de varejo da Jones Lang LaSalle. "Aqui, as vendas só se fortalecem. Na última recessão, o desafio para alguns varejistas de bens de luxo não era tanto a pouca quantidade de gente fazendo compras, e sim a falta do produto nas lojas para as pessoas comprarem depois que os varejistas decidiram desacelerar a produção de alguns itens. A lição que aprenderam foi que, durante as recessões, a velocidade de desaceleração não é tão acentuada assim."
Área fundamental de crescimento
Até mesmo em uma economia em baixa o varejo de luxo pode se sair bem se focalizar suas energias nos mercados emergentes, disse em um press release Ira Kalish, diretor de mercado de consumo da Deloitte Research. "A economia global está desacelerando, portanto o crescimento em 2012 deverá ser mais lento do que em 2011. A grande esperança é o longo prazo. Mesmo que o ambiente econômico seja difícil em 2012, a perspectiva de longo prazo para a economia mundial continua boa. Apesar de ventos contrários na área estrutural e no segmento de consumo, o Oriente Médio oferece a possibilidade de crescimento mais pronunciado, além de novas oportunidades para os principais varejistas do mundo."
O varejo internacional tem recorrido a estratégias diferenciadas no lucrativo mercado do Oriente Médio em busca de parcerias estratégicas e de locais de tráfego intenso.
A Burberry, marca de luxo britânica, criou recentemente uma joint venture no Oriente Médio. Além disso, as lojas da marca na Arábia Saudita agora estão sob seu controle direto. De acordo com o Arabian Business, o Oriente Médio é um de seus mercados mais fortes, o que contribuiu para o crescimento das vendas globais em 30% no ano passado. Em 2011, a Burberry abriu cinco lojas na região para fazer frente à queda das vendas nos mercados maduros.
A Tiffany & Company, comércio de joias dos EUA, selou recentemente uma joint venture com a Damas Associates, antiga administradora das butiques da grife nos Emirados Árabes Unidos que comprava no atacado da Tiffany.
A francesa Estee Lauder, do setor de cosméticos, informou também um aumento no volume de vendas de mais de 30%. "Apesar do tumulto predominante na região este ano, nossas vendas aumentaram porque produzimos produtos e serviços mais relevantes na região", disse um porta-voz da Estee Lauder ao Arabian Business.
No início do ano, a kate spade new york abriu sua primeira loja regional no 360 Mall do Kuwait, e depois mais outra no Dubai Mall em parceria com o Jashanmal Group. Craig Levitt, CEO da kate spade new york declarou em um press release: "Estamos certos de que o mercado do Oriente Médio será uma área fundamental de crescimento para nós, já que pretendemos ter uma presença significativa na região."
A grife britânica L. K. Bennet abriu sua primeira loja no Oriente Médio no Mirdif City Centre, de Dubai, com seu franqueado, o Jashanmal Group, no final de 2011. "Em parceria com o Jashanmal, pretendemos abrir mais duas ou três lojas em Dubai. Temos planos para Abu Dhabi e também estamos sondando o Kuwait", disse Robert Bensoussan, presidente executivo da L. K. Bennett, em uma reportagem de jornal. "Estamos pensando em uma outra parceria no Catar, talvez no Egito, e já estamos conversando com vários parceiros em potencial na Arábia Saudita e no Líbano", acrescentou. Nos próximos três ou cinco anos, o varejista planeja abrir um total de até 15 lojas em todo o Oriente Médio, conforme informações do Arabian Business.
Ao explicar por que a L. K. Bennett está se expandindo no exterior, Bensoussan disse: "Temos três grupos de clientes estrangeiros em Londres, e que são muito importantes: um deles é constituído de clientes europeus; outro, é um grupo bem grande de clientes americanos e, por fim, há uma clientela enorme de consumidores do Oriente Médio em nossas lojas que compra, principalmente, sapatos e bolsas. Portanto, nos pareceu natural que nosso próximo passo fosse a expansão no Oriente Médio."
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