Fórum Internacional de Energia: a era dos hidrocarbonetos não chegará ao fim tão cedo
O consumidor americano talvez não tenha de pagar muito caro pela gasolina no verão. A desaceleração econômica, a persistência dos temores em relação à zona do euro e as reservas de petróleo bruto, cuja alta é a maior em 22 anos, contribuíram para uma tendência de baixa nos preços do petróleo bruto depois de atingirem o valor máximo de US$ 128 o barril em março. A Opep informa também que, embora o crescimento da demanda global tenha atingido a marca de 900.000 barris diários este ano, a oferta é mais do que suficiente para suprir a demanda.
Boa parte dos preços do petróleo registrados nos últimos meses decorre de fatores geopolíticos, observa Aldo Flores-Quiroga, recém-eleito secretário geral do Fórum Internacional de Energia de Riad (IEF, na sigla em inglês). O IEF é uma agremiação que reúne 89 países responsáveis pela produção de mais de 90% da oferta e da demanda de petróleo e gás do mundo. Fazem parte do fórum países produtores e consumidores, países por onde os produtos fazem escala e instituições como a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) e a Agência Internacional de Energia (IEA).
O fórum foi criado em 1991 para aprofundar as discussões sobre a segurança energética, tendo realizado em março, no Kuwait, sua primeira reunião ministerial da qual participaram delegações dos EUA, Irã e de outros países. Flores-Quiroga conversou com a edição em árabe da Knowledge@Wharton sobre o receio da subida dos preços e da oferta de petróleo em decorrência das sanções impostas ao Irã, bem como sobre o impacto das frequentes interrupções de fornecimento por parte dos produtores de energia.
Segue abaixo a transcrição da entrevista.
Knowledge@Wharton: Os preços do petróleo continuarão elevados em face das interrupções de fornecimento de países como o Iêmen e a Síria, além do receio de confrontação com o Irã?
Aldo Flores-Quiroga: Atualmente não há nenhuma expectativa de mudança em relação aos indicadores do mercado, assim como não há também expectativa alguma de alteração nos fatores geopolíticos. Nada deverá mudar no que diz respeito ao que pudemos observar há alguns meses. No tocante ao IEF, o debate continua aberto, e não há dúvida de que os fatores geopolíticos influenciam o rumo dos acontecimentos, bem como os indicadores econômicos. Também os mercados financeiros têm hoje uma participação mais ativa.
Para o IEF, e com base em informações fornecidas por consumidores e produtores, não cremos que o mercado de petróleo esteja sob pressão do ponto de vista físico. Há uma capacidade ociosa (de produção de petróleo) suficiente para cobrir quaisquer interrupções hoje observadas ou esperadas no mercado.
Knowledge@Wharton: Você disse que não há expectativa de interrupção de fornecimento e que a capacidade ociosa atual é confortável, porém os EUA, França e o Reino Unido discutem a possível liberação de reservas estratégicas de petróleo. Esse tipo de discussão entre os três países citados não seria uma indicação de que há um certo temor em relação à oferta e, possivelmente, em relação também à capacidade ociosa, uma vez que o único país com capacidade ociosa suficiente para cobrir as interrupções de fornecimento é a Arábia Saudita?
Flores-Quiroga: Não há novidade nesse tipo de discussão. Os países da IEA sempre discutiram qual seria a melhor forma de usar as reservas estratégicas de petróleo. A política adotada prevê que elas sejam utilizadas somente se houver interrupção no fornecimento. Nossa expectativa é de que a produção do Iraque, Líbia e Angola continue a suprir o mercado. Se acrescentarmos a isso a capacidade ociosa do Golfo, bem como a diminuição da demanda em vista da expectativa de crescimento da economia global, veremos que o mercado atualmente está, de modo geral, equilibrado.
Knowledge@Wharton: Diante da tensão política vigente entre os membros da IEF, como o Irã, os EUA e outros países, como você espera manter o diálogo à luz das sanções cada vez mais rigorosas e da deterioração das relações políticas?
Flores-Quiroga: A boa notícia é que esses países e os demais continuam a dialogar no âmbito do IEF. Eles estiveram presentes na reunião ministerial do Kuwait em março e continuam envolvidos nas deliberações do órgão subordinados a direção executiva do IEF. Observei um comportamento muito responsável de ambos os lados no tocante à continuação da troca de opiniões. O IEF conseguiu reunir com sucesso inúmeras delegações e houve diálogo no plenário, mas também foram muitos os diálogos em nível bilateral e regional em torno de um amplo espectro de assuntos.
Knowledge@Wharton: O verão está chegando [ao hemisfério norte], e o consumo de energia na região do Golfo aumentará. Ao mesmo tempo, os americanos estão saindo de férias e os preços da gasolina já subiram no país. Na Europa, será proibida a venda produtos do Irã. Diversos fatores afetarão o consumo. O mundo está preparado para uma demanda dessa natureza?
Flores-Quiroga: Essa demanda foi incluída há bastante tempo nos planos de produção e de expectativas. Não é o primeiro ano que ocorrem aumentos sazonais na demanda. Esses aumentos continuam a sofrer o impacto da atividade econômica de modo geral, e não apenas nos EUA, mas no planeta todo. Tudo indica que este será um ano de menos dinamismo econômico do que os anteriores, tanto que serão refreadas quaisquer elevações na demanda, o que deverá reduzir também a pressão sobre a capacidade existente. Haverá capacidade suficiente se juntarmos o crescimento moderado da demanda e o aumento da produção.
Knowledge@Wharton: Com relação à capacidade ociosa, o único país que deverá cobrir as interrupções é a Arábia Saudita, que já vem trabalhando próximo da capacidade total em resposta à demanda do mercado e às interrupções contínuas em alguns países. Se o estreito de Ormuz — por onde passa boa parte do petróleo — for fechado, isso criará um gargalo, sendo que o país com maior capacidade ociosa está localizado próximo desse canal importante. Isso não comprometeria a confiabilidade da capacidade ociosa existente no momento?
Flores-Quiroga: O que vejo, mais uma vez, é um diálogo sempre retomado toda vez que surgem complicações geopolíticas em qualquer parte do mundo que possam afetar o transporte do petróleo ou de qualquer outra commodity. Neste momento, estamos assistindo à evolução de um processo diplomático e não há razão para suspeitar de que tal processo não seja, de algum modo, útil ou bem-sucedido.
Knowledge@Wharton: Deveria haver rotas alternativas para o transporte de todo esse petróleo, em vez de dependermos exclusivamente do estreito de Ormuz? Você acha que deveria haver planos contingenciais no caso de que algo aconteça, de modo que o petróleo possa chegar ao mercado?
Flores-Quiroga: Precisamos de um sistema robusto de energia para todo o planeta, de tal modo que as rotas percorridas por qualquer commodity sejam diversificadas resultando num setor de energia muito mais possante. Todos os anos, em todas as regiões do mundo, põem-se em prática planos de contingenciamento porque há diversos fatores que afetam negativamente a produção de petróleo. Não há nada de especificamente novo nos planos de contingenciamento. Em casos de desastre naturais, eles são postos em prática para compensar o impacto sobre as ofertas de petróleo. Temos gargalos em diferentes regiões do planeta, mas há também diversas rotas para que o petróleo chegue onde há demanda.
Knowledge@Wharton: Os países estão investindo em energia renovável, em xisto petrolífero e produção de gás.Vários dos países produtores estão pagando a conta da capacidade futura. Como poderão pagar essa conta no momento em que os consumidores passarem a procurar por recursos alternativos que diminuam a demanda de produção de petróleo oriundo de fontes convencionais?
Flores-Quiroga: Temos um mercado global além de reservas de gás e petróleo leve na América do Norte. Isso significa que haverá mais petróleo disponível para outras regiões do mundo. Se o petróleo norte-americano for consumido na América do Norte, isso será bom para a estabilidade do petróleo e dos mercados de gás. Com relação à energia renovável, ela não substituirá o petróleo e o gás. Entraremos, por enquanto, na era dos hidrocarbonetos. Será preciso que haja grandes avanços tecnológicos acompanhados de uma revolução econômica de peso na tecnologia existente para que essa tecnologia possa ser comercializada e isso, é claro, é difícil de predizer.
Knowledge@Wharton: Com relação ao IEF, que tipo de ferramentas e de mecanismos ele precisa levar até os países consumidores e produtores?
Flores-Quiroga: A missão por excelência do IEF consiste em produzir informação oportuna e confiável sobre o equilíbrio entre oferta e procura. Em parceria com outras organizações participantes do JODI (Projeto de dados de organizações associadas, na sigla em inglês), temos trabalhado nos mercados de petróleo e pretendemos ampliar nosso campo de ação também para os mercados de gás. Trata-se de um projeto importante, porque resulta do diálogo entre produtor e consumidor. Estamos fazendo progressos atualmente em algumas áreas relacionadas ao JODI.
Em primeiro lugar, temos um questionário mais completo sobre os países que fornecem dados estatísticos de energia sobre produção e demanda de petróleo. Planejamos também ampliar essas informações para o segmento de gás. Outro componente muito importante em que começamos a trabalhar recentemente diz respeito às estatísticas sobre os programas de investimentos e à capacidade atual de produção, consumo e distribuição de petróleo e gás. Trata-se de uma contribuição muito importante para a discussão. Se tornarmos o mercado de petróleo mais transparente através do JODI, estamos convencidos de que daremos uma contribuição mais significativa a todas as organizações que participam do JODI, de modo que possam esclarecer as incertezas e dúvidas que afetam constantemente os mercados de petróleo.
Knowledge@Wharton: Com relação às estatísticas e aos números produzidos pelo JODI, qual o grau de interesse dos países e das empresas por eles e de que modo estão ajudando as empresas e países no tocante às suas políticas de oferta e procura de petróleo?
Flores-Quiroga: Notamos que há um interesse cada vez maior pelo JODI. A organização ainda está se estruturando, portanto temos de desenvolver capacidades em muitos países para que nosso banco de dados seja mais completo. Ele ajuda a aproximar produtores e consumidores, de modo que possam, pelo menos, expor seus pontos de vista, até mesmo sua intenção no que diz respeito a planos de investimentos e coisas semelhantes. Nossa expectativa é de que, até meados do ano, tenhamos estatísticas sobre o segmento de gás. As demais estatísticas ainda estão em fase de desenvolvimento.
O problema é que embora haja um número grande demais de países participando, eles trabalham com metodologias diferentes, capacidades institucionais e capital humano distintos que são então aplicados ao desenvolvimento de estatísticas e de estruturas jurídicas diferentes. Portanto, se levarmos em conta todas essas coisas, a importância do JODI aumenta, porque estamos tentando desenvolver juntamente com as organizações parceiras um mesmo padrão para nossos relatórios de informações sobre petróleo, gás e investimentos. Isso leva algum tempo, mas estamos fazendo progressos.
Knowledge@Wharton: Quais são os outros projetos do IEF, ou que planos você gostaria de pôr em prática que contribuíssem para melhorar as discussões sobre o mercado de petróleo e a transparência entre produtores e consumidores?
Flores-Quiroga: O IEF e o International Gas Union estão organizando um encontro ministerial sobre gás. Planejamos nos reunir em novembro com o objetivo de compreender o que se passa no mercado de gás e quais os desafios que aguardam consumidores e produtores. Estamos promovendo também uma maior cooperação e entendimento entre as companhias de petróleo nacionais (NOCs) e internacionais (IOCs). Haverá um fórum no início do ano que vem sobre a cooperação entre NOC e IOC. No mês que vem, em Doha, teremos um workshop sobre transparência no segmento de dados de gás. Continuaremos também a realizar fóruns sobre economia energética e a fazer parcerias com países e empresas para levar adiante nossos planos. É com satisfação que vemos o IEF crescer em número de membros. Há um interesse cada vez maior pelo diálogo que ele proporciona. No início das atividades do IEF, o número de membros era menos da metade do atual.
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