Inovações em TI dominam os planos de negócios das "Oito Grandes" em 2012
Desde seu lançamento no auge da bolha pontocom, no início da década de 2000, a Competição de Plano de Negócios da Wharton [Wharton's Business Plan Competition] cresceu em diversidade graças à colaboração de estudantes que são também empreendedores. Este ano, um tema de destaque foram as soluções de TI para problemas empresariais, principalmente no segmento de saúde. Os planos dos finalistas mostraram softwares que permitem o contato do hospital com o paciente em áreas rurais, um programa que identifica pacientes com risco elevado de readmissão hospitalar, além de um site de rede social profissional para médicos. Com relação aos projetos não relacionados à saúde, os competidores apresentaram ideias relacionadas a áreas do marketing online e educação, entre outros.
O BPC [Competição de Plano de Negócios, na sigla em inglês] sempre teve uma repercussão muito grande entre os estudantes da Universidade da Pensilvânia desde que foi criado há 14 anos. Este ano, o número de participantes foi recorde, com mais de 150 ideias submetidas à fase de competição — um salto de 30% em relação a 2011. No decorrer do ano, as ideias foram sendo filtradas por um grupo de jurados até chegar às "oito grandes" que disputaram a final em 25 de abril.
Ao apresentar seus planos perante um auditório de capitalistas de risco, líderes de empresas, professores e estudantes, os oito finalistas responderam às perguntas de quatro jurados sobre vários aspectos dos seus planos como, por exemplo, questões relacionadas à propriedade intelectual e ao cenário competitivo. Havia entre os jurados representantes da Alara Capital, Karlin Asset Management, Compass Partners e Spark Capital.
A equipe cujo plano de negócios foi considerado o mais viável foi premiada com o primeiro lugar e recebeu o Grande Prêmio Michelson no valor de US$ 30.000. O segundo colocado recebeu US$ 15.000, e o terceiro, US$ 10.000. A plateia participou da decisão do vencedor do Prêmio Popular de US$ 3.000, e os alunos votaram (uma semana antes do evento) no vencedor do Prêmio Estudantil no valor de US$ 3.000.
Veja se você é capaz de apontar os principais vencedores com base nos resumos dos planos de negócios abaixo. Os resultados estão no final do artigo, mas não olhe.
Bounce Exchange: Se um site qualquer pudesse prever o momento exato em que um visitante pretende deixá-lo, poderia oferecer-lhe rapidamente um conteúdo mais interessante para que continuasse a interagir na página em que está. O site poderia, por exemplo, usar esse momento para estampar um anúncio bem grande antes que o visitante se vá. Cole Sharp, aluno do segundo ano do MBA da Wharton, explicou de que modo o projeto permitiria aos sites fazer essas coisas com tecnologia patenteada que combina receptores invisíveis em JavaScript, movimentação do mouse e aceleração.
De acordo com Sharp e Ryan Urban, membro da equipe, é um problema para os sites a presença de visitantes que simplesmente "olham pela porta durante 30 segundos e depois vão embora". Por causa disso, as unidades de anúncios digitais se desvalorizam, e a oferta de espaço para publicidade supera a demanda. Contudo, Sharp e Urban dizem que os anúncios de tamanho maior que aparecem na tela pouco antes da saída do visitante apresentam um índice de clique maior se comparados aos banners tradicionais. Com baixos custos operacionais, um produto plenamente desenvolvido e um programa de fácil instalação, a equipe estima um total de receitas de mais de US$ 750.000 até o final de 2012 graças ao modelo de compartilhamento de receitas.
Calcula: Apesar de 2.500 anos de avanços médicos, uma doença mencionada especificamente em versões antigas do Juramento de Hipócrates ainda atormenta a humanidade hoje em dia: pedras nos rins. Evan Werlin, líder de equipe e estudante de medicina da Universidade da Pensilvânia, disse que todo ano, nos EUA, há dois milhões de pacientes com pedras nos rins, o que resulta em 1.1 milhão de atendimentos nos pronto-socorros, cinco milhões de dias perdidos de trabalho e cerca de US$ 6 bilhões em custos para o sistema de saúde do país. Além disso, de acordo com as diretrizes atuais, a terapia só é recomendada para pedras maiores do que 10 mm, o que deixa sem tratamento 85% dos pacientes acometidos dessa enfermidade dolorosa. O projeto Calcula planeja lidar com o problema usando um novo cateter para a remoção, em 15 minutos, das pedras menores sem anestesia e no próprio consultório médico.
Werlin e sua equipe explicaram de que modo o aparelho, de US$ 275, poderia ser usado nesse "mercado enorme" de pacientes que hoje não têm como se tratar. Com três patentes provisórias registradas e código de reembolso para as seguradoras já ativo, o grupo estima que exista um mercado de US$ 400 milhões ao ano nos EUA. Se somarmos a esse mercado o mercado europeu, o tamanho total será de mais de US$ 1 bilhão ao ano.
ChondroPro BioSciences: A osteoartrite é uma doença que afeta um em cada dois americanos em algum momento do vida, e está se tornando mais comum à medida que a população envelhece, conforme explica Jamil Beg, líder da equipe e estudante do segundo ano do MBA da Wharton. Isso representa um custo adicional imenso para o sistema de saúde americano — cerca de US$ 850 bilhões ao ano em custos diretos e indiretos. As opções atuais de tratamento para a osteoartrite do joelho não trata da causa da doença. Em vez disso, trata os sintomas com analgésicos e injeção de cortisona. Em casos graves, os médicos recorrem à cirurgia de substituição do joelho.
O ChondroPro Biosciences é um projeto cuja tecnologia terapêutica modifica a doença ao tratar dela. Injeta-se uma droga diretamente no joelho para prolongar o tempo que precede a substituição da junta, ou para evitar totalmente o procedimento. Como o tratamento de cada joelho custa US$ 1.200, aliada à estrutura de reembolso vigente, a equipe prevê um volume de vendas da ordem de US$ 2,5 bilhões em 2025.
Grand Round Table: Embora tenha havido avanços médicos fantásticos em anos recentes como, por exemplo, o prolongamento espetacular da vida de pacientes portadores do vírus HIV, ainda leva muito tempo para que as descobertas médicas cheguem aos consultórios, conforme explicou Eric King, membro da equipe. Para acelerar o processo de compartilhamento do conhecimento entre os médicos, King e a líder da equipe, Kristy Leong, aluna do primeiro ano do MBA da Wharton, explicaram de que maneira a Grand Round Table [Grande Mesa Redonda] proporcionará uma plataforma de rede social profissional para médicos.
O objetivo é compartilhar conhecimentos médicos em discussões em torno de uma mesa redonda organizada por tópicos, além de agregar e organizar as informações. Através da cobrança de tarifas de filiação para o acesso premium, além de oferecer oportunidades de publicidade no site, a equipe calcula que o volume de receitas poderia chegar a US$ 550 milhões. O grupo tem uma patente em processo e planeja lançar o produto no outono americano.
Graphene Frontiers: O grafeno é mais duro do que o diamante e tem maior condutibilidade do que o cobre. Além disso, pode-se enxergar através dele. A substância, feita de grafite processada quimicamente (e que dá origem à "grafite" usada nos lápis) foi descrita como o "material miraculoso do século 21", de acordo com Mike Patterson, líder da equipe e aluno do segundo ano do MBA executivo da Wharton. Contudo, é muito difícil produzi-lo atualmente. O Graphene Frontiers planeja usar um processo especial de depósito de vapor químico sob pressão atmosférica para possibilitar a produção em escala industrial a um custo baixo, mas de qualidade elevada.
Patterson disse que a fabricação do grafeno representa um mercado multibilionário, porque poderia ser usado em diversos produtos como circuitos flexíveis, células solares para telhados e telas sensíveis ao toque. Várias empresas estão testando os materiais produzidos pela start-up, e sua tecnologia está disponível para licenciamento. O projeto da Graphene Frontiers recebeu da Fundação Nacional de Ciências o prêmio de inovação NSF Innovation Corps Awards.
1DocWay: Ir ao médico toma muito tempo. Além de marcar a consulta e ir até o consultório, é preciso preencher alguns formulários e esperar muito para ser atendido. Trata-se de um processo ainda mais complicado para 50 milhões de americanos que moram a mais de 90 km de um especialista, sem falar nos idosos e nas pessoas com deficiência física. A 1DocWay procura melhorar esse processo viabilizando o que chama de "consultório médico online", um sistema que conecta os hospitais com o contingente da população que não tem atendimento médico satisfatório. Através de uma plataforma segura de bate-papo, a empresa ajuda os hospitais a expandir seus serviços e a ampliar os encaminhamentos ao mesmo tempo que aumenta o acesso aos especialistas.
A empresa se dedica atualmente aos serviços de psiquiatria em áreas rurais e estima que mais de 85% dessas visitas a pacientes externos poderiam ser feitas online e reembolsadas no caso da maior parte dos segurados, conforme explica Samir Malik, líder da equipe e aluno do primeiro ano do MBA da Wharton. Ele acrescentou que o mercado de telemedicina deverá totalizar US$ 27 bilhões em 2016.
Malik passou o último verão desenvolvendo o sistema na Dreamit Ventures de Nova York. Por enquanto, ele firmou parcerias com clínicas e facilitou 330 consultas que resultaram em quatro encaminhamentos de internação. A empresa também é membro do Programa de Iniciação ao Empreendimento da Wharton [Venture Initiation Program].
QMagico: No Brasil, a maior parte dos 40 milhões de crianças do jardim de infância e do ensino fundamental não tem acesso à educação de que necessitam, disse Claudia Massei, aluna do segundo ano do MBA da Wharton. Ao mesmo tempo, um número cada vez maior de jovens agora tem acesso à Internet, principalmente depois que o governo investiu em computadores dentro das escolas. O projeto OMagico procura usar o acesso que as crianças têm à Internet proporcionando a elas conteúdo escolar de alta qualidade que serve de complementação ao aprendizado realizado em sala de aula. Além de vídeos, o site do OMagico tem exercícios interativos, relatórios de desempenho individualizados e uma plataforma de crowd-sourcing que permite aos alunos que moram em regiões diferentes se conectarem uns com os outros.
O site disponibiliza alguns conteúdos gratuitamente, mas o conteúdo premium requer que se faça uma assinatura com valor mensal baixo. Uma versão beta será lançada em breve com mais de 1.000 usuários. Com o objetivo de alcançar 50.000 usuários até o final do ano, o empreendimento prevê que terá 900.000 usuários até o final de 2015. Massei disse que o mercado de aprendizagem eletrônica no Brasil está crescendo a uma taxa de 15% ao ano e, em breve, chegará a US$ 15 bilhões.
RightCare Solutions: Quando dois pacientes dão entrada em um hospital hoje, não há como saber qual deles apresenta maiores chances de ser readmitido depois de 30 dias de alta. Uma vez que os hospitais não são reembolsados pela readmissão de pacientes nesse período — e podem até ser penalizados financeiramente por isso — a situação representa um desafio para eles. Na verdade, trata-se de um problema cujo custo é estimado em US$ 30 bilhões nos EUA, conforme explica Eric Heil, aluno do segundo ano do MBA executivo da Wharton.
Com base na pesquisa feita por Kathy Bowles, da Escola de Enfermagem da Universidade da Pensilvânia, especialista no setor de planejamento de alta e atendimento transicional, a RightCare Solutions oferece um software que pode ajudar a identificar quais pacientes têm chance de readmissão. A ferramenta de decisão baseada em evidências é usada por enfermeiros no momento da admissão do paciente para identificação dos que têm chance de readmissão, o que permitirá aos cuidadores se concentrar em suas necessidades médicas e coordenar o tratamento subsequente para reduzir as chances de que a readmissão aconteça. A empresa completou seu primeiro estudo de caso num grande hospital onde houve uma redução significativa de readmissões no prazo de 30 dias a partir do momento em que a ferramenta passou a ser utilizada.
O projeto ficou recentemente entre os três finalistas do Janssen Connected Care Challenge e foi uma das 30 principais start-ups universitárias dos EUA escolhidas para se apresentar no Simpósio de Pesquisa e Empreendedorismo Universitário de Boston, em Massachusetts.
E o vencedor é...
RightCare Solutions foi a empresa vencedora do Michelson Grand Prize. Em segundo lugar ficou 1DocWay e o terceiro foi para a Calcula. O Prêmio Popular foi para ChondroPro BioSciences, e o Prêmio Estudantil para OMagico.
A RightCare Solutions tem uma equipe formada por três alunos do segundo ano do MBA para executivos da Wharton. Depois que Heil, capitalista de risco sócio da Domain Associates, vendeu a ideia em um curso de empreendedorismo de risco da Wharton, seus colegas de classe Matt Tanzer, diretor associado da Shire Pharmaceuticals, e Mrinal Bhasker, vice-presidente de tecnologia e diretor da Audacious Inquiry, juntaram-se a ele.
Heil disse que os próximos passos da equipe consistem na obtenção do financiamento final necessário, na contratação de funcionários de tempo integral e na instalação do seu produto em três ou quatro instituições de grande porte. A empresa está sediada num bairro da Filadélfia.
Malik disse que a 1DocWay tem receita mensal de US$ 6.000 atualmente e todos os seus fundadores trabalham em tempo integral na empresa. Seus objetivos imediatos consistem em adicionar novos hospitais à sua lista de clientes, formar um quadro de conselheiros altamente qualificados que difunda a tecnologia de saúde e as start-ups e, possivelmente, transferir a empresa para Nova York devido ao "contexto mais sedimentado e de maior respaldo aos empreendedores iniciantes".
Com relação a Calcula, Werlin diz que sua equipe já foi procurada por muita gente interessada em um possível investimento na empresa. Além de buscar financiamento, a equipe quer ganhar experiência no estudo em animais antes de ganhar experiência e práticas seguras em seres humanos. Alguns membros da equipe planejam se dedicar à empresa em tempo integral na região da baía de São Francisco. Contudo, Werlin é um aluno brilhante do quarto ano de medicina e pretende continuar o curso até se formar.
Se olharmos para o passado, veremos que os vencedores do BPC têm tudo para se dar bem. A competição ajudou a lançar inúmeras empresas de sucesso. Entre os exemplos recentes estão a Stylitics, que ganhou o grande prêmio no ano passado e foi nomeada a "Próxima Grande Empresa de Tecnologia" no Fashion 2.0 Awards; a Baby.com.br, vencedora do terceiro lugar no ano passado e escolhida como uma das dez principais start-ups do Brasil pela Business Insider e o maior varejista eletrônico no setor de produtos para bebês do Brasil; por fim, a Warby Parker, semifinalista da competição em 2009 e que continua a revolucionar a indústria de óculos oferecendo óculos online a preços reduzidos.
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