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Weemba: as redes sociais chegam ao setor financeiro através dos criadores do Patagón

Dois empresários argentinos deram uma utilidade extra às redes sociais com a criação do Weemba, um site que se propõe a ajudar as pessoas que não conseguem financiamento. Para isso, inverteram o funcionamento do sistema financeiro. Agora, com o Weemba, tanto as pessoas quanto as empresas podem apresentar e divulgar na Internet sua necessidade de financiamento, para que instituições públicas ou privadas lhes façam uma proposta de crédito de acordo com seu perfil.

A ideia foi de Constancio Larguía, CEO do Weemba, e Carlos Maslatón, diretor internacional da empresa, que há mais de 12 anos criaram um dos sites de maior repercussão no início da Internet: o Patagon, que nasceu como corretora online da Bolsa argentina e pouco depois, em 2000, foi comprado pelo Grupo Santander. A venda do Patagon foi uma das mais incríveis do mundo virtual: o Santander pagou US$ 700 milhões pela empresa pouco antes do estouro da bolha de tecnologia. Hoje, a marca Patagon não existe mais, tendo sido substituída pelo Openbank, o banco online do grupo.

O Weemba funciona desde agosto na Argentina e há um mês na Espanha com um ritmo acelerado de inscrições. Daqui a mais alguns meses, o site vai começar a operar nos EUA, onde espera obter os mesmos resultados.

Em entrevista concedida ao Universia Knowledge@Wharton, Larguía e Maslatón contam como surgiu a ideia de vincular clientes a instituições financeiras e o que esperam conseguir nos próximos cinco anos.

Universia Knowledge@Wharton: Como funciona o Weemba? Por que esse nome?

Constancio Larguía: Fazemos o contrário do que faz o sistema financeiro: em vez de divulgar páginas de Internet dos bancos oferecendo seus serviços, no Weemba, a pessoa interessada em um produto financeiro cria um perfil social, pode ser uma pequena ou média empresa ou mesmo pessoa física. Ali ela pode acrescentar o fluxo de caixa da empresa, um folheto com os produtos do negócio a que se dedica, sua declaração do imposto de renda, cartas de recomendação. Pode também fazer o upload de arquivos digitais de diferentes formatos para enriquecer o perfil, que pode ir sendo atualizado. A parte ativa de todo o processo desse modelo de negócio é a pessoa que deseja contratar o crédito. É ela que manifesta sua firme intenção de contratar um serviço financeiro e fica à espera de um contato.  

CarlosMaslatón: A configuração do projeto começou há um ano e meio e só agora em agosto começou a funcionar na Argentina. Faz um mês estreou na Espanha e esperamos ir ao ar nos EUA no final de março de 2011. Weemba foi um nome que nos ocorreu devido à facilidade de pronúncia na maior parte dos idiomas, tem um certo charme e, além disso, estava disponível.

UK@W.: Em que consiste seu modelo de negócio? Qual é seu mercado principal?

Maslatón: A pessoa que cria um perfil público não revela quem sua identidade. Ela se oculta atrás de um pseudônimo (nick). Somente com autorização é possível ter acesso aos seus dados reais. Participam do processo apenas as empresas financeiras regulamentadas pelo Banco Central da Argentina. O mesmo vale para a Espanha e os EUA.

Além disso, a pessoa interessada em conseguir crédito passa por um processo online de validação de identidade, o que se faz primeiramente através de e-mail. Assim que chegam os dados pessoais do interessado, consultamos o banco de dados do Veraz (sistema comercial e de crédito criado pela empresa Equifax que traz informações sobre os hábitos de pagamento de pessoas e empresas) para avaliar a situação econômica da pessoa, que será ou não aceita. Em seguida, pede-se ao interessado que preencha um questionário com seus dados pessoais e financeiros. Por fim, pedimos ao usuário que informe sua conta bancária para fazermos um depósito mínimo, que pode ser de 60 centavos, só para confirmar se a conta oferecida existe de fato. Desse modo, verificamos se a identidade e a conta estão corretas, e aprovamos o usuário.

Larguía: Com relação ao mercado, discutimos primeiramente se havia uma segmentação para o produto que oferecemos. Para mim, o mundo mudou para sempre. O conceito de segmentação, do tipo "tratar com alguém especial", está superado. Hoje, qualquer um pode recorrer a um serviço de que tenha necessidade, não importa a idade e em que parte do mundo esteja, seja por meio do computador ou de um cibercafé.

UK@W.: Como tem sido até o momento a evolução do serviço na Argentina e na Espanha? Qual a expectativa em relação aos EUA?

Maslatón: Na Argentina, já temos 1.100 usuários cadastrados, 205 dos quais são empresas. Até o momento, calculamos que haja uma demanda de cerca de 45 milhões de pesos (pouco mais de US$ 6 milhões) entre os usuários registrados. Das 46 instituições registradas no Banco Central, 10 já fizeram seu registro conosco, tanto empresa públicas quanto privadas.

Pouco mais de um mês antes de estrear na Espanha, os registros diários na Argentina mais do que dobraram. As pessoas se sentem extremamente frustradas ali por não conseguir financiamento, e nossa intenção é que nosso mecanismo seja um facilitador e canalizador dos interesses de ambas as partes. Na Espanha, há 320 instituições financeiras registradas na autoridade bancária.

Uma vantagem da Espanha é que o país avançou muito na utilização da assinatura digital, tanto para indivíduos quanto para empresas. Em outras palavras, em 45 segundos é possível comprovar a identidade de um usuário.

Larguía: Cremos que a tarefa será mais fácil nos EUA, porque se trata de um mercado onde a permeabilidade da Internet é absoluta, e a cultura de consumo de produtos financeiros é mais complexa e sofisticada do que na Argentina. Nos EUA, um fazendeiro do estado de Dakota do Norte trabalha com um trator arrendado (mediante uma operação de leasing), tem seis cartões de crédito e conhece perfeitamente todas as ferramentas financeiras disponíveis. Não temos tanta sofisticação por aqui.

Apesar disso, cremos que o Weemba vai dar certo e se tornará uma opção a mais dentro do sistema financeiro argentino. É uma forma de dar mais opções ao consumidor que, através do Weemba, terá mais possibilidades de conseguir o que deseja. Por outro lado, as instituições financeiras argentinas dispõem com isso de uma ferramenta fabulosa de targeting, que lhes permitirá direcionar as ofertas feitas na rede social.

UK@W.: Quais são as maiores dificuldades para a expansão internacional do seu negócio? Digo isto porque apesar de a Internet não ter fronteiras, as legislações dos países são diferentes...

Larguia: Correto.Apesar de não sermos uma instituição financeira, uma vez que não nos dedicamos à captação da poupança pública, não influímos no agente multiplicador da base monetária e não fazemos transações de valores negociáveis de nenhum tipo, mesmo assim temos perfeita consciência de que prestamos um serviço às instituições financeiras que, como tais, atuam no âmbito de um ou mais marcos regulatórios. Por isso, nossa plataforma foi projetada levando-se em conta esses marcos, de modo que nossos serviços tenham um impacto positivo sobre a indústria financeira. As regras desses marcos são rígidas, e variam conforme o país, porém estamos muito satisfeitos por termos criado uma plataforma que atende às exigências regulatórias da Argentina, Espanha e EUA ao mesmo tempo. Isto é muito importante, considerando-se que o direito americano se baseia na Common Law, diferentemente da Argentina e da Espanha que seguem o direito continental. Também há diferenças de grau de regulação em áreas como defesa do consumidor, proteção dos dados pessoais e qualificação dos profissionais que farão o empréstimo.

UK@W.: Vocês acham que um site como o Weemba pode ajudar a resolver boa parte do problemas de financiamento das empresas no mundo todo?

Larguía: Trata-se de um conceito novo que, por enquanto, não tem concorrentes no mundo. Transportar o mundo real das agências bancárias, e os clientes, para uma rede social online é, de fato, uma novidade. Em vez de bater à porta das instituições de crédito, o interessado, por meio do computador, decide quem pode "visitar" seu perfil e lhe fazer propostas.

Além disso, as instituições financeiras poderão interagir com todas as pessoas que participam da rede social e que estão interessadas em contratar um serviço financeiro. O Google, que é o mecanismo por excelência de targeting comercial, exibe para cada busca anúncios com alguma afinidade com a pesquisa feita. Nem sempre, porém, eles coincidem com o interesse do usuário, já que há uma margem de erro. No Weemba, os participantes têm apenas uma intenção: contratar um serviço financeiro.

Maslatón: É importante explicar que não cobramos nada do usuário que se registra; recebemos das instituições financeiras nos pagam $ 150 (cerca de 27 euros) pelo acesso a cada perfil completo dos usuários que lhes interessam, isto é, possíveis clientes. Além disso, não vendemos bancos de dados, mas permitirmos que se visitem os perfis, contanto que o usuário tenha aceito a solicitação da instituição financeira interessada.

UK@W.: Como vocês veem o setor bancário na América Latina atualmente? Está mais difícil conseguir financiamento? Há diferenças expressivas de bancarização entre os países? Como isso afeta a expansão do seu negócio na região?

Maslatón: Creio que em sintonia com o que se passa na economia latino-americana, o setor bancário está em forte e franca expansão. Tendo em vista sua situação atual, e comparando-a com 10 ou 15 anos atrás, ele tem tudo para crescer. Para que isso aconteça, certamente é preciso que coincidam não só as tendências naturais e positivas da economia, como também, em parte, que elas sejam acompanhadas de políticas econômicas favoráveis. Nesse sentido, são promissores os sinais que emanam do Brasil, México, Colômbia, Peru e Chile. Outros países, como a Venezuela, Equador e Bolívia (países de governos populistas) não são exemplos a seguir. A Argentina está no meio termo. Sem dúvida o país tem tudo para crescer, mas para isso é preciso que haja um certo compromisso do setor público para que haja uma expansão real necessária depois da catastrófica recessão deflacionária (em que houve corrida aos bancos) nos anos de 1998-2002.

UK@W.: Vocês foram os criadores de outro site no setor financeiro, o Patagon. O que aprenderam com essa experiência?

Larguía: A indústria na qual trabalhamos não tem mais de 12 anos. Nascemos com ela. Por isso, cremos ter a experiência dos primeiros grupos que se lançaram na Internet. Acompanhamos as mudanças culturais desses anos e vimos como o consumidor foi se adaptando a certos tipos de produtos e serviços. Tecnicamente falando, era possível criar um perfil social em 1999, mas talvez ele não tivesse o sucesso que teve em 2005. Portanto, ter passado por toda a história da Internet nos dá uma perspectiva daquilo que o consumidor deseja.

Maslatón: Dissemos que a proposta do nosso negócio não havia surgido antes porque, embora fosse possível tecnologicamente executá-la no ano 2000, ainda não se tinha avaliado, na época, a importância do perfil social da Web. Faltava uma assimilação cultural por parte dos usuários em geral a respeito de certas dinâmicas de inter-relação e consumo.

UK@W.: Existe algum paralelismo entre o auge das pontocom há 12 anos e o boom atual das redes sociais?

Larguía: Os excessos observados no auge das pontocom nos legou lições extremamente importantes para a vida toda. Não temos hoje a sensação de excessos nas operações da Bolsa que havia antes de março de 2000.

Maslatón: Não há dúvida de que 1999 é diferente de 2011. A tendência de alta de 12 anos atrás foi também um fato natural de mercado que sempre ocorreu ao longo da história financeira de indústrias novas, cujo impacto psicológico já começava a se fazer sentir sobre o grande público. Greenspan a apelidou de "exuberância irracional". Esses processos de alta, em que os investidores atribuem um valor de mercado às ações das empresas, são corrigidos por um crash. Depois dele, porém, sobrevivem na superfície da tragédia numerosas inovações revolucionárias. Na onda de alta seguinte, a expansão se repete, mais com uma solidez muito maior e real. Na onda atual, não houve, felizmente, nenhuma euforia como a de 1999 que precedeu o crash

UK@W.: Com base em sua experiência de empresários do setor de tecnologia, que receitas ou recomendações vocês teriam para outros empresários da área tecnológica na América Latina? O que vocês recomendariam a alguém que tenha uma ideia e queira pôr para funcionar um projeto?

Larguía: Eu recomendaria que essa pessoa se concentrasse no projeto de um modelo de negócio que tenha uma estratégia clara de rendimento. A promessa da venda de publicidade a partir do momento que o site alcança uma certa massa crítica pode não ser fácil, ou pode demorar muito a acontecer. Somos favoráveis aos projetos que se concentrem na busca de um faturamento real e concreto com base nas transações feitas.

UK@W.: Como vocês se veem daqui a cinco anos? O que esperam do Weemba?

Maslatón y Larguía.: Cremos que daqui a cinco anos a empresa será uma plataforma de prestação de serviços que canalizará um percentual significativo de negociação de serviços financeiros nos países em que estivermos presentes. Se pensarmos em 1%, já estamos pensando num número importante de instituições financeiras.

Esta plataforma de agora poderá se multiplicar no futuro em outros serviços, como seguros, leasing, turismo etc. É uma lista interminável.


Publicado em: 15/12/2010


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