Hollywood e o poder do mito: Zuckerberg, Jobs e Hearst
Neste artigo opinativo, Kendall Whitehouse, diretor de novas mídias da Washington, analisa alguns filmes biográficos e apresenta seu ponto de vista sobre A rede social, o novo filme que conta a história do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg.
Quando lhe perguntaram sobre A rede social antes do lançamento do filme. Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, disse a Diane Sawyer, da rede ABC, que "as pessoas são lembradas pelo que construíram. Elas não se importam com o que dizem a seu respeito no cinema". Por mais que Zuckerberg queira acreditar nisso, a história das biografias contadas por Hollywood é sempre uma história diferente.
De maneira correta ou equivocada, Cidadão Kane, filme de Orson Welles de 1941, contribuiu de forma significativa para o conceito que temos de William Randolph Hearst. E Hearst, apesar da influência que tinha sobre os meios de comunicação de massa do seu tempo, não foi capaz de combater a interpretação que Welles fez de sua vida. Já quando Steve Jobs, CEO da Apple, foi caracterizado de maneira nada elogiosa em Piratas do Vale do Silício, filme feito para a TV, ele agiu rapidamente para atenuar os efeitos da caracterização. Com o lançamento em grande escala de A rede social no final da semana passada, Zuckerberg talvez devesse analisar de que forma outros grandes industriais lidaram com a forma como a mídia os caracterizou.
"Você não faz 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos", é o slogan do filme. De fato, no filme, escrito por Aaron Sorkin e dirigido por David Fincher, Zuckerberg aparece como um indivíduo obcecado, petulante, desleal e imaturo.
O filme retrata o período que vai do lançamento do Facebook, em 2004, quando Zuckerberg era estudante em Harvard, até quando o site atingiu um milhão de usuários pouco tempo depois. (É simplesmente impressionante imaginar que o Facebook, cujo número atual de usuários ativos gira em torno de 500 milhões, ainda não tenha completado sete anos). O filme alterna cenas em que mostra a ascensão meteórica do Facebook com o testemunho de casos impetrados na justiça civil contra Zuckerberg por vários de seus ex-amigos e colegas.
O filme é recheado daqueles diálogos ágeis que fizeram a fama de Sorkin e ganha um dinamismo a mais com a representação que Jesse Eisenberg faz dos maneirismos idiossincráticos e da maneira de articular as palavras do fundador e CEO do Facebook. A fotografia de Jeff Cronenweth, que havia trabalhado anteriormente com Fincher em Clube da luta, acrescenta um quê de noir ao filme. A trilha sonora de Trent Reznor (do Nine Inch Nails) e Atticus Ross contribui para o tom sombrio da produção.
Mídia antiga x mídia nova
Sorkin, autor do roteiro, diz que o filme simplesmente oferece diferentes visões de Zuckerberg, criando um retrato que transfere ao leitor a responsabilidade de determinar o que é realidade e o que não é. "O filme não toma partido e não diz quem está dizendo a verdade, ou quem está certo e quem está errado, quem é bom e quem é mau", disse Sorkin durante entrevista ao programa "CBS Early Morning".
Welles disse a mesma coisa em relação a Cidadão Kane. No ano em que o filme foi lançado, ele disse que Cidadão Kane apresentava "cinco histórias diferentes, todas elas tendenciosas, de modo que a verdade sobre Kane, assim como a verdade sobre qualquer homem, só pudesse ser inferida pela somatória de tudo o que havia sido dito a seu respeito [...] Cabe ao público julgar".
Contudo, a despeito do que disse Welles, é preciso analisar muito profundamente o filme para descobrir boas qualidades em Charles Foster Kane. É igualmente difícil sentir alguma simpatia pelo Zuckerberg de Sorkin e Fincher. Cidadão Kane e A rede social foram ambos estruturados nos moldes da tragédia clássica do homem que conquista o mundo, mas perde sua alma.
É claro que o Cidadão Kane de Welles não é, rigorosamente falando, a biografia de William Randolph Hearst. Além de Hearst, o filme recorre a detalhes da vida de outros poderosos da indústria como, por exemplo, Samuel Insull, magnata do segmento de empresas concessionárias de serviços públicos de Chicago. Antes do lançamento do filme, Welles escreveu um artigo intitulado "Cidadão Kane não tem nada a ver com o chefe da colunista de fofocas Louella Parsons", em que tentava convencer a crítica de que Cidadão Kane não era a biografia de Hearst.
Apesar disso, boa parte da imagem de Hearst junto ao público foi moldada pelo retrato ficcional de Welles. Ele e o roteirista Herman Mankiewicz fizeram com que Kane ecoasse — praticamente ao pé da letra — as palavras de Hearst a Frederic Remington, a quem Hearst enviou a Cuba para documentar a Guerra Civil Espanhola. Em resposta ao relato enviado por Remington pelo telégrafo, "Tudo está quieto. Não há nem um problema aqui. Não haverá guerra. Gostaria de voltar", Hearst respondeu: "Por favor, fique. você providencia as fotos; eu providencio a guerra." Será que isso aconteceu mesmo? Num texto escrito para Journalism and Mass Comunication Quarterly, W. Joseph Campbell coloca em dúvida a veracidade dessa história ao mencionar o desejo de James Creelman, única fonte da história, de caracterizar a arrogância do chefe no New York Journal.
Hearst, é claro, sabia muito bem criar mitos a partir de um fio delicado de meias verdades. Foi o New York Journal, de Hearst, juntamente com o New York World, de Joseph Pulitzer, que deu início ao "jornalismo amarelo", que valorizava o sensacionalismo em detrimento do fato, a circulação mais do que a verdade. Trata-se de uma virada da qual a mídia jamais se recobrou. Começou ali uma linha reta que, partindo do New York Journal, de Hearst, foi dar no New York Post, Fox News e TMZ.
A história do cidadão Kane, em certo sentido, é a história da luta entre dois gigantes da mitologização, um deles representante da velha mídia, o jornalismo impresso, e o outro da nova mídia: Hollywood.
Atualmente, é claro, Hollywood é a mídia antiga. A Internet e os sites de mídia social, como o Facebook, representam a nova geração da comunicação de massa. Contudo, a habilidade de Hollywood de forjar uma narrativa duradoura continua em grande parte incontestável mesmo diante desses novos agentes. Assim como Cidadão Kane definiu Hearst, o retrato dramatizado de Zuckerberg poderá vir a definir a imagem que o público terá do jovem empreendedor.
"Recuperar a magia perdida"
Assim, haveria algo que Zuckerberg possa fazer para compensar a forma como é retratado no filme? Mesmo antes do lançamento, já havia jornalistas dando conselhos a Zuckerberg. Kara Swisher, do site All Things Digital esboçou diversas maneiras pelas quais Zuckerberg poderia silenciar o impacto do filme e "recuperar a magia perdida". Uma das recomendações consiste em apresentar indícios factuais que contrariem o que diz o filme. Diz ela: "Mostre todos os documentos originais — todos mesmo — relativos aos anos em questão, colocando-os no Facebook para que todos possam vê-los. O caso Winklevoss e outros já estão resolvidos, portanto parece haver pouca necessidade de ocultar o que foi, claramente, um começo difícil. Se Zuckerberg e o Facebook acreditam, de fato, em transparência, devem usar o filme para colocar tudo em pratos limpos e pôr um ponto final nessa história."
Isso, é claro, partindo-se pressuposto de que os fatos estejam do lado do Facebook. As poucas declarações feitas pelos representantes da empresa sobre o assunto deixam transparecer que boa parte da história do filme é ficção e que a vida real de Zuckerberg é muito mais tediosa do que a versão transposta para a tela. Sorkin, autor do roteiro, contesta dizendo que "o filme não é ficção. Ele foi baseado em fatos reais".
No fim das contas, porém, talvez não importa saber quais são os fatos reais.
No final da grande saga de John Ford sobre o oeste, O homem que matou o facínora, um editor de jornal descobre que a verdade por trás da história da morte do personagem que aparece no título do filme [em inglês, The Man Who Shot Liberty Valance] é diferente da lenda que cresceu em torno dela. Quando lhe perguntaram se pretendia publicar um relato preciso do que havia acontecido, a resposta do editor, hoje célebre, foi a seguinte: "Não, senhor. Estamos no oeste. Se a lenda se torna fato, imprima-se a lenda."
Em vez de fazer apologia do mau jornalismo, a mensagem do filme gira em torno do poder da história de modelar nossa visão do mundo. Os fatos são importantes, mas a menos que estejam organizados em uma narrativa coerente, raramente repercutem o bastante para se tornarem permanentes. Falta a eles o que os autores Chip e Dan Heath chamam de "grude" em seu livro Feitas para grudar: por que algumas ideias sobrevivem e outras morrem [Made To Stick: Why Some Ideas Survive and Others Die]. Embora uma lenda não se torne fato no sentido literal da palavra, sem a lenda os fatos têm pouco impacto. Mesmo que os fatos amparem a declaração do Facebook de que o filme é mais ficção do que realidade, isso pouco fará para diminuir a capacidade do filme de modelar a narrativa da vida de Zuckerberg.
Na conclusão do filme, o Zuckerberg de Eisenberg se dá conta de que, na prática, percepção é, de fato, realidade. A advogada Marylin Delpy, interpretada por Rashida Jones, faz com que Zuckerberg entenda que mesmo estando ele com a razão no que diz respeito às ações referentes à propriedade intelectual, num tribunal o que importa é aquilo em que crê o júri. A personagem de Jones convence Zuckerberg de que qualquer bom advogado poderia facilmente retratá-lo como um indivíduo pérfido (conforme faz o filme). Além disso, ressalta Delpy, os US$ 65 milhões estipulados pelo acordo em um dos casos têm tanto peso para Zuckerberg quanto o "custo de uma multa por excesso de velocidade".
De igual modo, muitos especularam que a doação de US$ 100 milhões de Zuckerberg para o sistema de escola pública de Newark, em New Jersey, anunciado no momento em que o filme estava prestes a ser lançado em Nova York, foi uma tentativa importante de desviar a atenção do filme e controlar a caracterização de Zuckerberg na mídia. Não se sabe qual será, no futuro, o efeito dessa doação. O ciclo de notícias tende a andar depressa, ao passo que os filmes duram o suficiente para criar uma lenda que passa a ser percebida como fato. Com exceção desse grande gesto filantrópico, Zuckerberg e sua empresa têm se mantido relativamente calados acerca do filme. Em entrevista concedida ao ABC Nightly News, Zuckerberg disse que não pretende vê-lo.
Talvez essa seja uma tática um tanto precipitada. Depois que Hearst se deu conta de que não poderia impedir o lançamento de Cidadão Kane, ele também tentou ignorá-lo. David Nasaw em The Chief: The Life of William Randolph Hearst, cita um artigo da Variety da época que afirma: "Os jornais de Hearst acreditam que possam prejudicar Welles e o filme por meio de uma campanha de silêncio." Os jornais do império de mídia de Hearst se recusaram a imprimir e até mesmo a mencionar as resenhas sobre o filme. Todo o mundo sabe no que deu.
Aceite os ingressos
Algumas das outras sugestões de Swisher para Zuckerberg talvez sejam mais importantes, uma vez que lidam com a questão do controle da narrativa em vez da disputa de fatos ou do simples silêncio. Entre suas sugestões, ela aconselha Zuckerberg a ir à estreia do filme em Nova York e exibi-lo nos escritórios do Facebook diante de todos os funcionários. Zuckerberg faria bem se ouvisse esse conselho.
Quando, em 1999, o filme Piratas do Vale do Silício retratou Steve Jobs — interpretado por um jovem Noah Wyle — de um modo pouco elogioso, Jobs agiu rapidamente, e com muita habilidade, para atenuar o prejuízo. O filme mostra Jobs como um déspota monomaníaco que abandona os amigos, terroriza os funcionários e ridiculariza os candidatos a um emprego perguntando-lhes se são virgens.
No dia seguinte à estreia do filme, Jobs chamou Wyle e pediu a ele que aparecesse — personificando Jobs — no discurso de abertura do congresso MacWorld em Nova York. No evento, depois da introdução feita pelo "iCEO" da Apple, Steve Jobs, Wyle — trajando o vestuário célebre de Jobs: camiseta preta de colarinho alto e jeans — subiu ao palco e começou a apresentação imitando Jobs, elogiando os "produtos realmente fantásticos, espetaculares e maravilhosos da Apple". Jobs interrompeu a falsa apresentação dizendo: "Esse não sou eu. Você estragou tudo." A seguir, ele apresentou Wyle e disse que ele fora convidado "para que visse como eu ajo de fato, e também porque o Jobs dele é melhor do que eu sou".
Jobs transformou a representação de tragédia em comédia e, com isso, assumiu o controle da situação privando a representação feita no filme de boa parte do seu poder mítico.
Orson Welles, tudo indica, teria se encontrado com o verdadeiro Hearst uma vez no Fairmont Hotel antes do lançamento do filme em São Francisco, ocasião em que Hearst talvez tenha tido uma oportunidade semelhante de reinventar a narrativa que Welles havia criado. Contudo, o magnata da imprensa deixou a oportunidade passar. O relato do encontro é do próprio Welles — alguém que certamente compreendeu o poder do mito para a construção da história de sua carreira. Todavia, conforme assinala John Evangelist Walsh em seu livro Walking shadows: Orson Welles, William Randolph Hearst, and Citizen Kane, há indícios atualmente que confirmam, de fato, a presença de Welles e Hearst no Fairmont Hotel na mesma época.
No relato de Welles, ao entrar no elevador do hotel, viu que só havia uma pessoa lá dentro: ninguém mais do que Hearst. Welles se apresentou e, de forma dissimulada e contida, disse: "Meu filme, Cidadão Kane, estreia hoje à noite na cidade." Hearst, que havia se empenhado ao máximo para evitar o lançamento do filme, certamente sabia onde ocorreria a estreia. Welles prosseguiu: "Se você quiser ir, posso pedir que entreguem alguns ingressos no seu quarto." De acordo com Welles, Hearst ignorou friamente a proposta e saiu do elevador sem dizer uma palavra sequer.
Ao recontar essa história posteriormente, Welles disse que Hearst teria aceito as entradas.
Talvez Zuckerberg devesse fazer o mesmo: aceitar as entradas. Ver o filme. Promover um dia na empresa em que os funcionários se vestiriam da mesma forma que seu personagem favorito e usar o poder da narrativa para reformular a história assumindo o controle dela.
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