A crise afeta mais a mulher no ambiente de trabalho? Como liderar a mudança de mercado
A precária situação econômica da Espanha fez com que as taxas de desemprego disparassem chegando a índices históricos com mais de quatro milhões de espanhóis sem emprego, de acordo com os últimos dados oficiais. Desse total, praticamente metade é constituído por mulheres que, pelo fato de ter contratos de trabalho mais instáveis, têm mais dificuldade de se manter no emprego. Em 2009, cerca de 415.000 mulheres passaram a engrossar a lista de desempregados que, no final do ano, chegou a um total de 1.934.000. Com isso, a taxa de desemprego feminino na Espanha chegou a 19,07%, quatro pontos acima da taxa registrada em 2008.
Mireia de las Heras, professora de administração de pessoal na empresa do IEESE, Universidade de Navarra, e Célia de Anca, professora de diversidade global da Escola de Negócios Instituto de Empresa (IE) são colaboradoras habituais de relatórios sobre o papel da mulher no mundo executivo. Ambas comentaram com o Universia Knowledge@Wharton suas impressões sobre o papel que desempenha e deve desempenhar a mulher na conjuntura espanhola atual.
Universia Knowledge@Wharton : De que maneira a crise teria influído no progresso da mulher na empresa?
Maria de Las Heras: A crise, de modo geral, teve um efeito menor sobre os setores que, tradicionalmente, tem mais presença de mulheres (restaurantes e prestação de serviços, pessoal não qualificado, setores de administração pública e educação). Contudo, a crise fez com que as empresas reforçassem seu padrão de atuação e, em vez de buscar saídas mais flexíveis, criativas e autônomas de trabalho, elas se preocuparam em criar jornadas de trabalho mais longas, mais controladas, e com menos espaço para a criatividade e a contribuição individual. É claro que isso, em muitos casos, não teve o efeito desejado na redução dos custos e no aumento da produtividade. O que se viu foi o oposto disso.
Célia de Anca: De modo geral, os estudos mostram que a mulher é a mais prejudicada, porque seu contrato de trabalho é mais precário, já que tem direito a períodos mais prolongados de ausência — para, por exemplo, cuidar dos filhos ou de familiares enfermos ou dependentes. Todavia, nesta crise em particular, e na Espanha especificamente, não parece que foi essa a situação da mulher, já que a crise afetou a todos indistintamente, levando a demissões em massa nas empresas.
UK@W: A crise afeta de maneira diferente a mulher e o homem no que diz respeito ao trabalho?
De Las Heras: Sim, já que muitas empresas, em vez de mandar embora as pessoas menos produtivas ou comprometidas com o produto e a missão da empresa, mandam embora as pessoas em função do expediente cumprido. Cometem com isso o terrível erro de prescindir de gente que poderia trabalhar em tempo parcial ou em condições mais flexíveis.
Por outro lado, quem poderia se aproveitar da flexibilidade teme o risco que tais medidas possam acarretar, dado a ameaça do desemprego. Além disso, as pessoas têm receio de recorrer à flexibilidade porque, se ficam desempregadas posteriormente, o salário recebido nos últimos meses afeta o montante do salário-desemprego.
UK@W: De acordo com um relatório de 2008 dos sindicatos de Comissões Trabalhistas e da UGT, as mulheres espanholas ganham 27,7% a menos do que os homens. Já um relatório elaborado pela Adecco, empresa de mão-de-obra temporária, e o IESE, que analisa a evolução do salário médio na União Europeia (UE) entre 2003 e 2008, fixa a brecha salarial em 3,6 pontos percentuais, passando de 38% para 34,4% nos últimos anos. Como se explica a diferença salarial entre homens e mulheres que exercem as mesmas funções?
De Las Heras: A diferença salarial pode ser explicada com base em razões diversas, como se segue:
a) As mulheres tendem a negociar a flexibilidade e o desenvolvimento, e não salário. Por isso, como é bem sabido, quando se estabelece uma prioridade (flexibilidade, por exemplo), as demais variáveis com base nas quais o salário é negociado ficam em um nível inferior.
b) As mulheres tendem a ter maior número de posições administrativas, ligadas aos sistemas, pesquisa e desenvolvimento. Embora estejam no mesmo nível executivo dos homens que ocupam posições de chefia direta, as posições administrativas tendem a ter menores salários, não importa quem seja seus ocupantes.
c) Os homens, de modo geral, têm mais facilidade para “vender” seus sucessos. As mulheres tendem a repartir a atribuição do sucesso entre os componentes do grupo. Por isso, os homens se destacam na hora de fazer valer sua contribuição.
De Anca: As mulheres costumam requerer com maior frequência jornadas de tempo parcial, o que as leva a ter (no total) menos tempo de casa, um fator que influi no salário recebido. Além disso, seu tempo de permanência na empresa é menor devido às ausências por motivo de maternidade ou de afastamento sem recebimento de salário.
A desigualdade no trabalho ocorre porque a conciliação entre vida pessoal a vida profissional costuma ser algo que preocupa mais a mulher. No momento em que ambas as partes se igualarem, os patamares serão os mesmos.
UK@W: A dificuldade de conciliar vida profissional e pessoal revela o fracasso de nossa sociedade nesse aspecto?
De Las Heras: Sim claro. Estamos produzindo, na Espanha, uma pobreza social em oposição ao capital social (o trabalho, meio de melhorar nossa posição econômica, nos obriga a deixar de lado os fatores sociais). O capital social consiste em relações de amizade, filiação e compromisso entre pessoas de uma sociedade que fazem com que contribuam para um projeto comum. Isto está desaparecendo do nosso meio por culpa do nosso fracasso em áreas como a flexibilidade de espaço, de horário, de ausência decorrente da licença-maternidade e paternidade, de diferentes maneiras de trabalhar e de contribuir. Enquanto não resolvermos essas coisas, a Espanha continuará em último lugar em produtividade e em primeiro lugar no número de horas de trabalho semanais, nos postos mais baixos no ranking da natalidade e do rendimento escolar das crianças, com resultados alarmantes de fracasso escolar e de patologias infantis como a obesidade, estresse infantil etc.. Tudo isso poderia ser evitado com uma dedicação maior e melhor dos pais a seus filhos.
UK@W: Que qualidades ou valores agregados uma executiva pode oferecer na gestão da conjuntura atual?
De Anca: Não se deve falar de qualidades próprias das mulheres. Não se pode generalizar, já que haverá executivas ou políticas que desempenham bem seu papel e outras que o desempenham mal. Embora haja qualidades intrínsecas às mulheres, como a intuição, a verdade é que os homens podem também ser intuitivos e sensíveis.
É bem verdade, porém, que não poucas mulheres enfrentam mudanças com frequência. É o caso, por exemplo, da maternidade. Por outro lado, a mobilidade continua a ser um atributo masculino, e a mulher o segue. Ela já tem mais experiência na hora de assimilar mudanças em sua trajetória. Agora, na crise, conta com mais recursos, porque está acostumada a se reinventar. Em tais circunstâncias, os programas de gestão são muito úteis, porque ajudam o indivíduo a se reciclar.
De modo geral, a mulher é muito boa em assuntos como empreendedorismo, criando e desenvolvendo, sobretudo, pequenas empresas. Já é uma tradição: em épocas de crise, as mulheres abrem novos negócios.
Portanto, atualmente, há uma demanda muito grande de mulheres solicitando microcrédito através de associações como a Omega (Organização de Mulheres Empresárias e de Gerência Ativa), ou a Aseme (Associação Espanhola de Mulheres Empresárias de Madri) com o intuito de criar novos negócios e de fazer com que a sociedade não fique engessada.
De Las Heras: Em linhas gerais, podemos afirmar que, na conjuntura econômica atual, a contribuição da mulher é mais necessária do que nunca, uma vez que ela tem uma visão global das coisas que lhe permite estar atenta ao desconhecido e livre de preconceitos racionais que a limitem. Além disso, tem uma capacidade de inovação extremamente necessária para a agregação de valor em momentos difíceis como os de hoje. A mulher está mais disposta a escutar e a perguntar. Ela valoriza a criatividade e a opinião contrária. Diz abertamente, e sem receio, quando não sabe alguma coisa. Não tem medo de errar e, por isso, é audaz e flexível. A mulher se destaca por sua habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo e atingir seus objetivos, tão necessários em momentos complexos como os de hoje, para os quais não há receitas predefinidas.
Em momentos conjunturalmente difíceis como os atuais, as soluções não virá de grandes heróis, mas quase sempre do trabalho em equipe. A mulher gosta de estimular o trabalho em equipe entre seus companheiros de trabalho. A experiência mostra que, com frequência, as equipes de trabalho a cargo de mulheres costumam funcionar mais harmonicamente, porque elas são naturalmente criadoras de consenso. Elas tendem a distribuir a informação entre seus colegas e se mostram mais conciliadoras na hora de tomar decisões e fixar prioridades. Diferentemente de muitos homens, as mulheres não encaram a participação e a delegação de tarefas como uma ameaça à sua autoridade, e sim como parte integral de sua responsabilidade de executiva.
UK@W: Os órgãos públicos demonstram empenho suficiente no sentido de tornar iguais homens e mulheres nos postos de direção?
De Las Heras: Creio que sim, muito mais do que há uma década. Contudo, não é suficiente. Assim como há incentivos para empresas que pautam suas atividades por normas de qualidade socioambientais, deveria haver incentivos para a flexibilidade. Isso permitiria às empresas oferecer atividades à distância (teletrabalho), ou expediente de tempo parcial com descontos fiscais. Outro tema crucial é a necessidade de padrões de qualidade a preços razoáveis, bem como incentivos para que as empresas possam proporcionar esses serviços.
Seja como for, trata-se de uma mudança de mentalidade em nossa sociedade, em que o homem e a mulher são corresponsáveis pela formação e pela educação dos seus filhos. Essa mudança de mentalidade e de hábitos vem ocorrendo lentamente. Ainda falta muito, mas já podemos nos dar por felizes pelo trajeto já percorrido até aqui.
De Anca: As leis promulgadas nos últimos anos ajudaram muito no sentido de ampliar a paridade entre homens e mulheres, sobretudo nos países nórdicos.
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