Qual o impacto dos netbooks? Depende de quem os utiliza e para quê
As fabricantes de computadores pessoais Hewlett-Packard, Dell, Lenovo, Acer e Asus têm planos cada vez mais ambiciosos para os pequenos netbooks — aparelhos de computação portáteis cujos preços variam de US$ 200 a US$ 500 e que dependem da Internet para várias de suas tarefas.
Esses pequenos aparelhos representam o lado positivo de um ano que os analistas acreditam que deva ser de pouca demanda por computadores. Em 20 de novembro, a empresa de pesquisas iSuppli previu que os pedidos de PCs cresceriam 4,3% em 2009, o que representa uma queda em relação aos 11,9% da previsão anterior. A iSuppli informou também que os pedidos de notebooks ainda vão crescer 15% em 2009 em grande parte por causa do crescimento do segmento de netbooks. A empresa de pesquisas IDC estima que 10,8 milhões de netbooks serão comercializados em 2008, pouco mais de um ano depois que a Asus lançou o que é considerado o primeiro aparelho da categoria, o Europa PC. A Asus detém 46% da fatia de mercado de netbooks, de acordo com a IDC.
A Intel sempre apostou no netbook. A empresa criou uma linha de microprocessadores, a Atom, para controlá-los. Contudo, o termo “netbook” é freqüentemente utilizado em relação a uma ampla gama de aparelhos. Os netbooks são computadores móveis com telas de 5 a 10 polegadas. Concebidos originalmente sobretudo para o mercado educacional, trabalham normalmente com sistema operacional Linux ou Windows XP e precisam estar conectados à Internet para a execução de tarefas mais pesadas. Os termos “netbook” e “mini-notebook” são quase sempre utilizados indistintamente. Os preços, de modo geral, ficam abaixo de US$ 500 e, em alguns casos, o consumidor pode adquiri-los em lojas de brinquedos. O PC Eee, da Asus, é vendido na Toys “R” Us.
Analistas e especialistas da Wharton dizem que os netbooks provocarão uma revolução na indústria do PC, mas não se sabe ainda de que forma. Será que os netbooks vão interferir nas vendas de laptops? O netbook substituirá o smartphone? Em que medida o recuo da economia afetará as vendas? O netbook aumentará a popularidade da computação em nuvem, em que o usuário armazena arquivos na Internet e os gerencia por meio de aplicativos que rodam na Web? De que maneira o netbook afetará o modelo de negócios de empresas de peso como a Microsoft, Intel e outras líderes? É verdade, porém, que a idéia de um computador que dependa da Internet para executar suas tarefas não é novidade. Os clientes “mínimos” (thin) — terminais que dependem de redes para ter acesso aos aplicativos — existem já há alguns anos e contam com o apoio de empresas como a Wyse Technologies.
É muito cedo ainda para saber qual o nicho dos netbooks e qual será sua receptividade entre os consumidores, que segundo estimativas deverão comprar 70% desses aparelhos, conforme estudo da empresa de pesquisas Gartner. Empresas de tecnologia como a Intel e a Dell acreditam que os netbooks devam ocupar um nicho entre os smartphones e os laptops. Para elas, o netbook será o computador mais utilizado nos mercados emergentes e funcionará como complemento aos PCs tradicionais nos mercados desenvolvidos.
Eric Clemons, professor de gestão de operações e de informações da Wharton, diz que “muitos de nós lidamos agora com um continuum de dispositivos dos quais temos necessidade”. Clemons utiliza seu iPhone para “mensagens, entretenimento e para fugir do tédio quando voa ou participa de reuniões inúteis”. Já o laptop é utilizado para preparação de documentos ou para trabalho sério. “Acho que o netbook entraria aí em algum momento, entre uma coisa e outra”, diz Clemons. Ele reconhece, porém, que ninguém sabe ao certo que desdobramentos os netbooks terão. “Se estiver atrelado demais à Internet, não será ameaça para o laptop. Se forem incômodos demais, não ameaçarão também o smartphone. Por outro lado, o netbook tem condições de competir com ambos.”
Gartner ressalta que um relatório recente de pesquisa mostrou que o netbook pode também passar uma imagem de aparelho pouco prático para o consumidor, que espera dele todos os recursos próprios de um PC.
Revolucionário ou complementar?
Karl Ulrich, professor de gestão de operações e de informações da Wharton, diz que é muito cedo ainda para se saber qual será a acolhida do netbook, mas acredita que ele terá um papel revolucionário em campos diversos. “Existe atualmente um segmento de mercado que valoriza a ultraportabilidade. Esse segmento se contenta hoje com uma combinação de laptop e de smartphone. “Produtos novos são sempre imprevisíveis. Não deverá ser diferente no caso do netbook.”
As empresas de tecnologia também não sabem muito bem como avaliar o impacto do netbook. Em outubro, durante uma conference call, o diretor financeiro da Microsoft, Chris Liddell, disse que o netbook era uma incógnita para as receitas da gigante de software, uma vez que muitos dos pequenos aparelhos utilizam uma versão mais barata do Windows XP, que gera menos receita de licenciamento por unidade em comparação com os laptops tradicionais ou PCs de mesa. “Nessa altura, é cedo demais para determinar em que medida o netbook vai avançar sobre as vendas do PC ou simplesmente capturar uma nova oportunidade de mercado, portanto cremos que há aspectos prováveis de ambos.” Ele acrescentou que o netbook tem “preços de venda menores, em média, do que nossa média histórica de preços”.
Adam Holt, analista da Morgan Stanley, sabe dos riscos e dos possíveis retornos positivos para a Microsoft. “Embora o netbook deva acelerar o crescimento das vendas de PCs a médio prazo, na medida em que o consumidor o adote como PC secundário ou terciário, ele vai avançar, em algum grau, sobre as vendas do PC. O número de Windows instalados nos netbooks já é quase igual aos instalados em PCs, porém a Microsoft ganha menos pontos de preço com os netbooks”, observou Holt em uma nota de pesquisa. Especialistas da Wharton dizem que os netbooks poderiam dar força às receitas de empresas de tecnologia proporcionando uma espécie de “colchão” à demanda em queda por PCs em geral. Contudo, se o consumidor encarar o netbook como substituto de modelos mais caros, as margens de lucros poderão cair. Gartner salientou que o netbook poderia ser vantajoso para um software de código aberto como o Linux. Já há alguns notebooks da Dell equipados de fábrica com o Ubuntu, um sistema operacional da Linux.
No caso das operadoras do segmento sem fio, os aparelhos podem ser mais um pretexto para a venda de serviço adicionais. A Vodafone, por exemplo, subsidia na Europa o Mini 9, netbook da Dell, contanto que o cliente faça uma assinatura do seu serviço sem fio.
Ao mesmo tempo, esses pequenos aparelhos estão se espalhando por toda parte. A Qualcomm, empresa do segmento sem fio de semicondutores, divulgou em novembro seu plano de lançar uma “alternativa ao PC” de design próprio que faria concorrência ao netbook. O Kayak, da Qualcomm, será testado no Sudeste Asiático em princípios de 2009.
Kendall Whitehouse, diretor sênior de tecnologia da informação da Wharton, diz que o netbook poderá convergir para os mercados do smartphone e do laptop. “Existe um mercado entre o smartphone e o laptop, ou será que o netbook será absorvido numa ou outra ponta?”, indaga. “Os smartphones mais sofisticados estão cada vez melhores e cada vez mais dotados de recursos e melhor desempenho. Os laptops estão se tornando menores e mais leves. O netbook poderá acabar espremido entre os dois.”
Semeando a nuvem
Para Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos da Wharton, o sucesso do netbook talvez dependa, em última análise, de conexões ininterruptas à Internet. Como esses pequenos aparelhos não dispõem de capacidade significativa de armazenagem, dependem em grande parte da Internet para acessar conteúdos e documentos. “No momento em que a conexão à Internet se tornar disponível por toda a parte, o netbook se tornará um produto mais viável”, diz Matwyshyn.” Pontos negros e zonas mortas da cobertura sem fio são um obstáculo ao mercado de netbook. Os celulares também enfrentam problemas semelhantes.” O netbook, porém, que depende da Internet para sua utilização, perde atrativo se não estiver conectado a Web, acrescenta Matwyshyn.
Kartik Hosanagar, professor de gestão de operações e de informações da Wharton, diz que a importância do netbook ultrapassa a mera conectividade. Se ele se tornar popular, poderá fazer com que a computação em nuvem ganhe ampla aceitação. A Microsoft, Google, Amazon e empresas novas como a Zoho já oferecem — ou planejam oferecer — serviços de computação em nuvem. “Se você pensar nas coisas que as pessoas fazem com seu computador, verá que elas a) armazenam dados e b) instalam aplicativos e os utilizam. A computação em nuvem chegará às massas em ambas essas dimensões, e o netbook acompanhará de perto essa tendência. Um número maior de dados do consumidor migrará para o mundo virtual, ou para a nuvem. O usuário já se sente mais seguro com seus dados armazenados na nuvem. Com os dados online, ele pode compartilhá-los com os amigos ou acessá-los de onde quiser.” À medida que o consumidor for se acostumando à computação em nuvem, não sentirá mais a necessidade de comprar equipamentos com grande capacidade de armazenagem; outras características também se tornarão dispensáveis, diz Hosanagar.
As empresas de tecnologia já anunciam serviços de armazenamento online acoplados a pacotes para netbooks. A Dell, por exemplo, combina o armazenamento online da Box.net a seus aparelhos de computação em miniatura. Segundo Hosanagar, o netbook e a computação em nuvem poderiam alimentar um ao outro e estimular a demanda. “O mercado de netbook continuará a crescer graças aos avanços da computação em nuvem”, prevê. Outros especialistas da Wharton, porém, não têm essa mesma certeza. “Não creio que a computação em nuvem esteja necessariamente associada ao fenômeno do netbook”, diz Ulrich. “O netbook, na verdade, é um computador bem pequeno e leve. Em geral, pode ser configurado com um grande volume de armazenamento em massa, além de rodar o Windows. Também não precisa da nuvem para funcionar plenamente. Por outro lado, a nuvem pode ser vantajosa também para o PC de mesa e para o laptop. Não creio que o netbook e a nuvem sejam tendências necessariamente atreladas uma à outra.”
O próximo grande lance? Não é para já
Embora o netbook tenha caído precocemente no gosto do público, especialistas da Wharton preferem não encará-lo como sucesso obrigatório, e justificam sua posição com base em várias incertezas.
A primeira preocupação é com a economia. Sem dúvida, o netbook é barato, mas constitui também uma aquisição em grande parte opcional num momento em que a economia global atravessa uma grande crise. Nos mercados desenvolvidos, como o dos EUA e do Japão, pode-se adiar a compra do netbook.
Outra dúvida em relação ao netbook: ele seria adequado aos mercados emergentes, conforme afirmam seus primeiros defensores? Nos EUA, o netbook se liga à Internet através de muitos meios, mas o mesmo não ocorre nos mercados emergentes. O acesso generalizado à Internet talvez seja mais preocupante do que a disponibilidade de softwares na nuvem. “A conectividade varia de um local para o outro”, diz Whitehouse. “É preciso saber se haverá conectividade, e não necessariamente se há aplicativos na nuvem.”
Clemons acrescenta que o apelo dos netbooks pode não se conformar às exigências das empresas de tecnologia. “Talvez quem use de fato o netbook sejam adolescentes entediados que querem se divertir e que precisam da conectividade, já que sua necessidade de entretenimento e de distração não pode ser satisfeita com o iPhone, que não é exatamente um mercado que deva emergir no mundo em desenvolvimento.”
Matwyshyn tem preocupações mais práticas. O netbook é pequeno em comparação com o laptop tradicional — às vezes, pequeno demais para as tarefas do dia-a-dia. “Se o netbook entrar nos mercados emergentes com um teclado pequeno demais e difícil de usar, não fará sucesso mesmo que seja barato”, diz.
Uma coisa é certa: vale a pena acompanhar o segmento de netbooks, já que está crescendo e se desenvolvendo rapidamente. O que hoje é considerado netbook poderá se tornar algo completamente diferente em alguns anos, observam especialistas da Wharton. Clemons indaga: “O netbook é um computador reduzido ao mínimo ou um smartphone que tomou esteróides?”
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