Blanca Treviño, da mexicana Softtek: “Em relação à qualidade, somos tão competitivos quanto a Índia”
Fundada em 1982, a Softtek é a maior consultoria privada da América Latina em tecnologias da informação. A empresa conta com oito centros de desenvolvimento distribuídos pelo México (seu país de origem), Brasil, Espanha e China, de onde presta serviços ao mundo todo. A presidente e CEO da empresa, Blanca Treviño, considerada uma das empresárias mais influentes do México e da América Latina, conversou com o Knowledge@Wharton-Universia sobre sua visão a respeito do setor das novas tecnologias e sobre os desafios que aguardam o setor no futuro, como a preservação dos melhores funcionários e a importância da consultoria nearshore (em que os serviços são oferecidos a partir de países próximos) para a entrada em mercados mais maduros, como o americano e o europeu.
Universia-Knowledge@Wharton: Você poderia fazer um balanço do setor da tecnologia da informação (TI) no México?
Blanca Treviño: O segmento de serviços, que é o nosso segmento, vem crescendo no mercado interno a uma taxa superior a 16% ao ano, de acordo com dados da secretaria de Economia. De acordo com projeções da consultoria IDC, o setor continuará crescendo a um índice anual composto superior a 10% até 2012. Isto faz desse mercado um dos que crescem mais rapidamente, perdendo apenas para os mercados dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Portanto, o México também vem se tornando, cada vez mais, um provedor de serviços de TI para outros países, sobretudo para os EUA, Canadá e Espanha. Atualmente, o segmento de exportação de serviços gera cerca de US$ 1,7 bilhão ao ano.
Nesse contexto, o segmento cresce a um ritmo bastante saudável, sendo apoiado fortemente pelo setor de exportação. Tal como o processo de globalização em curso no mercado nacional, o segmento de exportação de serviços tem atraído empresas de maior porte e mais maduras para o território de provedores de serviços de TI. Isto permitirá que haja um processo de amadurecimento mais acelerado no tocante ao consumo de serviços gerados internamente. Atualmente, o mercado de terceirização no país privilegia sobretudo o staffing (apoio ao pessoal), mas já é possível notar que, aos poucos, amadurecerá até o ponto em que passará a consumir serviços de maior valor agregado.
Resta saber de que modo isso afetará o processo de desaceleração e talvez até a recessão da economia em nível global.
Universia-Knowledge@Wharton: Quais os desafios que o setor terá de enfrentar nos próximos anos?
B.T.: Sem dúvida alguma a crise financeira trará desafios importantes para o nosso setor e para outros também. Contudo, vemos a crise como oportunidade para que o país acelere o processo de adoção de modelos mais maduros de terceirização, os quais poderão servir de veículos de contenção de custos, de incremento da competitividade e de aceleradores do desenvolvimento de especialidades que fazem muita falta em nosso país. Do ponto de vista da exportação, é importante que, como país, encontremos um nicho e/ou modelo de valor diferenciado. Nesse sentido, a secretaria de Economia estimulou a adoção de modelos de qualidade bastante ousados e vanguardistas, como o modelo de PSP/TSP do Software Engineering Institute (instituto criado nos anos 80 com o objetivo de melhorar as práticas de engenharia de software), iniciativa encampada por várias empresas.
Há também desafios do ponto de vista legislativo que poderão desacelerar o processo de crescimento da indústria de serviços de TI. Há iniciativas de leis que, embora tenham um fundamento bastante legítimo e justificado por buscarem a proteção do trabalhador das indústrias de terceirização, podem acabar cerceando os incentivos do lado do comprador, uma vez que se pretende transferir a responsabilidade fiscal e legal aos compradores de obrigações que o provedor tem para com seus colaboradores. Como não há experiência nesse sentido, nem tampouco os controles necessários, tal situação pode impedir os interessados de contratarem serviços externos. Sabemos que o modelo de cadeia de valor, dotado de um forte componente de serviços de terceirização, é um elemento muito importante para o crescimento e o amadurecimento da TI.
UK@W.: As empresas de TI mexicanas enfrentam as mesmas dificuldades que as européias na hora de encontrar e conservar bons profissionais? Que países vizinhos são considerados boas fontes de profissionais nesse contexto?
B.T.: O desafio da preservação de bons profissionais é algo que acontece a qualquer empresa do ramo no mundo todo. Há vários fatores responsáveis por isso. Podemos citar, entre eles, a globalização dos serviços, o que faz com que as oportunidades de desenvolvimento ocorram em qualquer parte do mundo; ou então, a natureza criativa dos profissionais de TI. O segmento apresenta cada vez mais e melhores inovações em tecnologia e, por definição, os profissionais de TI querem sempre experimentar novas tecnologias ou uma nova aplicação das ferramentas que dominam. Nesse contexto, o desafio das empresas consiste em criar uma cultura corporativa exclusiva que atenda às inquietações criativas do indivíduo.
Cremos que o talento competitivo em nível global existe em qualquer país. Há lugares, é claro, que por suas características demográficas, geopolíticas e de iniciativa de formação, posicionaram-se melhor do que outros. Cremos que o México, Brasil e Argentina apresentam maior potencial na América Latina.
UK@W.: Quais seriam as vantagens e os inconvenientes de se abrir uma firma de TI no México?
B.T.: Com relação às vantagens, podemos citar a proximidade com os EUA, a afinidade cultural não só com a América do Norte, mas também com a América Latina e a Espanha. O México, como membro do Nafta (Tratado de Livre Comércio da América do Norte), oferece benefícios que poucos países podem oferecer no que diz respeito a regulamentações migratórias, à proteção à propriedade intelectual, além de um marco regulatório claro e sólido. Entre as vantagens, contamos com programas de cooperação patrocinados pelo governo federal e alguns governos estatais para atrair capitais de investimento e promover o desenvolvimento de capacidades.
Entre os inconvenientes está a escala que isso pode exigir. Se o objetivo é a formação de milhares de equipes de profissionais a curto prazo, o México poderá deparar com dificuldades se comparado com a Índia ou a China. Contudo, em nossa experiência, uma vez que se compreendam os benefícios que o México tem a oferecer no tocante à possibilidade de interação com os EUA e Espanha, uma vez também que o país se considera participante de um modelo global apoiado por participantes de outros países, concluímos que a oferta mexicana é muito atraente.
Talvez o inconveniente maior seja a disponibilidade de profissionais com domínio do idioma inglês. Cremos que esse é um aspecto que o governo e o segmento educacional devem enfatizar de maneira especial. Temos um programa bastante avançado de desenvolvimento do idioma inglês para nossos profissionais.
UK@W.: O que representa o conceito de nearshore e que papel podem desempenhar os países latino-americanos? O termo se opõe ao posicionamento de certas regiões emergentes da América do Sul como destinos offshore?
B.T.: O conceito não é contrário ao de offshore. Trata-se de modelos que se complementam. No nosso caso, observamos que nossas capacidades na Espanha, China ou Brasil se complementam ao introduzirem soluções de alcance global. Na Espanha, atendemos a necessidades nearshore de clientes da Europa, porém, ao mesmo tempo, recorremos ao México para proporcionar serviços que não requerem um alto nível de interatividade no mercado europeu. O México, por sua vez, é o destino nearshore para os EUA que, por sua vez, pode ser complementado com serviços para o Brasil ou a China.
Por definição, o conceito de nearshore se refere a serviços proporcionados por um país próximo ou vizinho. A existência de uma cadeia global de centros nearshore ao redor do mundo faz com que o conceito tome outra dimensão. Passamos a chamá-lo então de global nearshore.
UK@W.: A América do Norte e a América Latina estão preparadas para competir no desenvolvimento de softwares com regiões mais adiantadas como a Índia?
B.T.: Sim, sem dúvida. A Softtek, assim como algumas outras empresas, competem de igual para igual com as empresas indianas. Em relação à qualidade, somos igualmente competitivos. O desafio é de escala, por isso precisamos evoluir no tocante à especialização. Cremos que há três fatores que determinam a capacidade de desenvolvimento em nosso segmento. O primeiro deles diz respeito ao pessoal e, conforme já dissemos, temos profissionais disponíveis na região. O segundo componente refere-se ao modelo de qualidade da empresa e à capacidade de reproduzi-lo e de implementá-lo em grande escala. O terceiro componente é a cultura da empresa, que determina a capacidade de preservar o profissional e introduzir novos produtos e serviços no mercado.
UK@W.: Quais seriam os pilares do plano estratégico da Softtek a médio e longo prazos? Que objetivos de aquisição e de expansão internacional preocupam a empresa? No momento em que vocês pensam em abrir o capital, não há o receio de uma possível oferta de aquisição de algum concorrente?
B.T.: Não tememos uma possível oferta. Se houver alguma, isso é sinal de que estamos fazendo bem nosso trabalho, portanto nós a avaliaremos de maneira objetiva. Contudo, nossa estratégia de abertura de capital não está na aquisição. Temos planos grandes e ambiciosos de crescimento, e cremos dispor da capacidade para realizá-los. A possibilidade de uma capitalização através da listagem em bolsa é uma alternativa que permitirá a aquisição de recursos financeiros para tornar realidade esses planos. Contudo, em vista da situação atual dos mercados, não cremos que isso deva ocorrer a curto prazo, portanto vamos esperar que a situação melhore. Enquanto isso, aproveitaremos as oportunidades que temos pela frente optando por alguns dos veículos de capitalização que temos estudado. Cremos que as maiores oportunidades virão de nossas operações no México, Brasil e China, tanto no que diz respeito aos mercados locais quanto às capacidades desses destinos de servirem aos mercados dos EUA e da Europa.
UK@W.: Quais os serviços tecnológicos mais solicitados pelas empresas mexicanas? E pelas companhias latino-americanas e dos EUA? Há diferenças marcantes nos projetos feitos para a Europa e para a América?
B.T.: Com base em nossa carteira de serviços, observamos que os serviços mais demandados em todos os mercados são os que se referem a aplicações. De modo especial, hoje em dia tem grande importância tudo o que tem a ver com economia de custos. A manutenção e o suporte da carteira de aplicações responde por 70% do orçamento das empresas de TI. Nosso modelo tem como objetivo a redução desse custo, e é aí que se observa uma grande demanda e um bom potencial. Nesse sentido, fica claro que as necessidades são similares em todos os mercados. Acreditamos que a maior diferença refere-se ao modelo de aquisição de serviços. Em particular, os mercados da América Latina e da Europa estão muito acostumados a comprar serviços baseados em custos unitários por hora de trabalho, ao passo que os EUA são mais maduros e aceitam melhor a proposta de valor de serviços administrados baseados em acordos de nível de serviço.
UK@W.: Por que vocês decidiram abrir um centro na Espanha? Quais são seus planos de expansão na Europa?
B.T.: A Espanha apresenta condições muito favoráveis para o atendimento ao mercado europeu. A afinidade cultural, a qualidade dos profissionais e o apoio do governo, assim como a infra-estrutura do ensino fazem da Europa um lugar atraente para nossa plataforma de nearshore na Europa. Nosso centro na Galícia poderá nos ajudar a penetrar mais e melhor no mercado do Reino Unido, possibilitando-nos também prestar serviços ao mercado espanhol a partir de um centro on-shore (dentro do país).
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