“Chrome”, o navegador do Google: novo lance para a estratégia de longo prazo da empresa?
Para o observador menos atento, o lançamento do navegador Chrome, do Google, na semana que passou, teria sido um ataque direto ao reinado do Explorer, da Microsoft. Contudo, para os professores da Wharton, David Hsu e Kevin Werbach, trata-se de uma estratégia de mais longo prazo da empresa. Eles dizem que o Google pretende com isso que seu navegador influencie o desenvolvimento de uma tecnologia de Internet que ajudará a aproximar o consumidor de seus vários aplicativos online, tornando o Google ainda mais atraente para os anunciantes.
Knowledge@Wharton: Kevin, você poderia falar um pouco sobre essa estratégia e também se a decisão do Google de lançar um novo navegador seria, de fato, uma jogada que não se esgota apenas no Chrome?
Werbach: Acho que para o Google, o mercado de navegadores por si só não é tão importante. A empresa está preocupada com o potencial de plataforma para aplicativos de Internet. Portanto, acho que o objetivo do Google com o lançamento do Chrome não é tanto o de tirar parte do mercado de navegadores da Microsoft, e sim forçar seus limites, de modo que ele se distancie do mercado de softwares para desktops, que é hoje seu ambiente natural. A intenção da empresa é trabalhar com um navegador que torne mais fácil para o usuário fazer o download de aplicativos do Google diretamente da Internet.
Knowledge@Wharton: E o Google tem realmente disponibilizado muitos desses aplicativos em concorrência direta com a Microsoft, como é o caso de programas semelhantes à suíte do Office.
Werbach: Correto. As atividades do Google estão associadas à Internet: o principal negócio da empresa, seu mecanismo de busca, depende da Web; os aplicativos que a empresa coloca à disposição do usuário, como o Gmail, além de vários outros, estão hospedados na Internet. A grande aposta do Google, que está na base de sua estratégia, remete à crença da empresa de que as atividades ligadas ao computador migrarão do desktop — por obra da Microsoft ou de outra empresa qualquer — para a “nuvem” de softwares do ciberespaço, cujos recursos estarão disponíveis em um centro de dados de dimensões proporcionais ao número de usuários.
Knowledge@Wharton: Você acha que muita gente vai optar pelo novo navegador pensando em tirar vantagem da nuvem de aplicativos disponíveis na Internet?
Werbach: Veremos. O Google lançou a versão beta, ou preliminar, do seu navegador. Ele tem aspectos interessantes, recursos discretos de boa qualidade, mas não deixa de ser um navegador. Os usuários, na minha opinião, vão testá-lo porque são curiosos, e se trata de um produto do Google, que parece interessante, mas ainda é cedo para dizer qual será a fatia de mercado que ele deverá conquistar. Insisto que a estratégia de longo prazo do Google não consiste em controlar o mercado de navegadores. Se, por exemplo, a empresa conseguir introduzir seu código de JavaScript — inserido no Chrome — na próxima versão do Firefox, distribuindo-o pelo navegador, creio que o Google se dará por feliz. Volto a insistir que o objetivo principal da empresa vai muito além da conquista de um contingente significativo de usuários para seu novo navegador.
Knowledge@Wharton: Muito bem. David, o que fará o Firefox agora? Começará a adaptar imediatamente parte do código do navegador do Google ou tentará algo diferente?
Hsu: Creio que o Firefox também está bem adiantado no tocante à utilização de plataformas de código aberto na construção do seu navegador. Acho que um dos motivos pelos quais o Google está se empenhando para que diversos recursos se integrem a seu navegador, embora mantenha boas relações com o Firefox, se deve ao fato de que, em última análise, a empresa quer manter o controle sobre a evolução dos seus componentes.
Por outro lado, paradoxalmente, o produto do Google será de código aberto. Portanto, acho que o Kevin foi muito feliz quando expôs a razão pela qual o Google decidiu lançar o Chrome. Trata-se de uma atitude um tanto enigmática, porque no caso específico do navegador, temos uma situação em que diversos componentes se acham padronizados: há protocolos padrões, endereços padronizados de Internet etc. Por conseguinte, os pontos de diferenciação em relação a outros navegadores serão limitados. Há coisas como velocidade de download, talvez criptografia, modo de privacidade e outros recursos, bem como a capacidade de integração do aplicativo.
Creio que será preciso esperar para ver em que medida o produto representará um salto em relação a concorrentes como o Explorer, Firefox ou Safári, mas acho que será algo difícil de conseguir dado o grau de padronização dos componentes do produto. Como terá o código aberto, poderá haver alguma convergência em relação ao Firefox no que se refere aos diferentes recursos que veremos em ação. Acho que a boa notícia para o consumidor é que, com o Chrome entramos em uma nova corrida em busca de inovação impulsionada, obviamente, por mais geração de publicidade, pelo controle do mercado códigos etc. Acho que o consumidor se beneficiará da concorrência renovada nesse setor.
Knowledge@Wharton: Entendo. Quando você diz que a empresa lançou um produto de código aberto, parece-me que isso significa que seus componentes estão disponíveis para quem queira desenvolver um produto que rode nessa plataforma.
Hsu: Sim. Acho que isso tem a ver com a possível adoção do navegador. Trata-se de uma operação parecida com a da Adobe. A empresa oferece gratuitamente seu leitor de PDF — e com isso procura torná-lo extremamente popular —, ao mesmo tempo, porém, fixa um preço que lhe permite auferir receita com o programa gerador de texto. A analogia aqui está na geração de receita baseada na estratégia de publicidade, como faz o Google. O problema é que o Internet Explorer vem amarrado com os computadores equipados com o Windows, e é por isso que o programa é dono de 70% desse mercado, porque pouca gente está interessada em mudar de navegador, a menos que haja alguma proposição de valor que realmente valha a pena.
Creio que as pessoas que valorizam mais a velocidade, a criptografia e vários outros recursos operacionais usam o Firefox — ou quem sabe o Safári, Opera ou outro navegador qualquer. Acredito que seja algo semelhante aos investimentos feitos no nosso IRA (Internet Retirement Alliance) ou aos fundos de aposentadoria: basicamente não mexemos em nada disso; não pensamos em reavaliá-los, muito embora a teoria econômica nos advirta a fazê-lo com freqüência. O Explorer é um produto que o usuário tem facilmente à mão, portanto haverá uma disputa por visibilidade com o lançamento do Chrome. Contudo, no tocante à conquista desse mercado, não sei se seria esse o objetivo primordial do Google. Se for essa uma das metas da empresa a curto prazo, tenho dúvidas quanto à sua possibilidade de sucesso. É um lance arriscado demais para a conquista de um segmento que se pauta sobretudo pela inércia.
Knowledge@Wharton: Mas isso daria um controle maior ao Google sobre a configuração do mercado e sobre o tipo de tecnologia desse segmento, não é verdade?
Werbach: Sim, mas eu gostaria de retomar uma coisa que você mencionou em sua última pergunta e que tem a ver com o código aberto. David fez algumas observações muito interessantes sobre a natureza do mercado de navegadores, mas é importante entender o que o Google está fazendo no caso do Chrome, e o que a empresa pode fazer graças ao software aberto. O Google usou um componente conhecido como mecanismo de processamento WebKit, construído pela Apple para seu navegador Safári. É o código que permite, efetivamente, que o navegador exiba os conteúdos de uma página. O produto tem o código aberto.
Há um outro mecanismo de processamento de código aberto chamado Gecko utilizado pelo Firefox. O Google optou pelo produto da Apple. Portanto, não teve de criá-lo do zero. Preferiu adotar um dos melhores produtos disponíveis na praça, de código aberto, incorporando-o ao seu navegador. Em seguida, a empresa criou outros produtos, como o JavaScript, que faz funcionar os aplicativos de Internet, disponibilizando-o em código aberto. Portanto, se aparecer mais alguém pensando em criar um novo navegador, ou uma extensão para o Chrome, poderá se beneficiar das inovações criadas pelo Google.
Isto representa uma mudança e tanto na forma de funcionamento do software. Antes, se você quisesse criar um navegador, como fez a Netscape, e a Microsoft também, teria de começar do zero. Agora, basta recorrer ao banco de códigos existente. Trata-se de um desenvolvimento importante respaldado pela Microsoft e por várias outras empresas. Não creio, porém, que o tipo de inovação trazido pelo navegador do Google fosse possível se o código aberto não fosse algo tão poderoso.
Isto significa que o Google tem controle sobre o que está acontecendo, mas esse controle é limitado, porque a empresa decidiu criar propositalmente um navegador de código aberto. O Google não pode, portanto, exercer o mesmo controle sobre sua plataforma de navegação que exerce a Microsoft, por exemplo, sobre o Internet Explorer. Isso, porém, é intencional, uma vez que o mercado será maior caso a empresa consiga atrair outros desenvolvedores, que poderiam dar sua contribuição para o aperfeiçoamento da plataforma.
Knowledge@Wharton: Exatamente, e creio que o Google espera que a Microsoft adote algumas dessas tecnologias também.
Werbach: Sim e não. Por um lado, não acredito realmente que o Chrome represente um ataque severo à Microsoft. Trata-se mais de um movimento defensivo, isto porque se a Microsoft procura tirar proveito do pacote a que David fez referência, conseguindo com isso atrair as pessoas para sua plataforma de busca, em detrimento da plataforma do Google, tal atitude deixa ao Firefox cerca de 20% do mercado, e ao Chrome uma fatia relativamente substancial dele, o que é bom para o Google como alternativa de mercado. Trata-se, porém, insisto, de um movimento defensivo.
Por outro lado, vejo isso como mais uma etapa dessa guerra de enormes proporções que é a transição do software para a Internet. Nesse sentido, a Microsoft não pode competir com o Google. Ela está atrasada, porque privilegia um modelo de negócio cujo eixo gira em torno da venda de licenças do Windows e do Office. A Microsoft está fazendo todo o possível para migrar para a Web — para o modelo de nuvem computacional do ciberespaço —, mas pesa sobre ela o modelo que construiu de uma forma que não ocorre com o Google. Portanto, o Google não se importará se a Microsoft decidir adotar a tecnologia do seu navegador, contanto que ela não amarre as pessoas aos outros softwares da sua suíte de programas através do seu navegador.
Knowledge@Wharton: Entendo. A estratégia do Google pode ser descrita como uma tentativa de estabelecer as posições do jogo, de modo que tenha o maior público possível e atraia a maior parte dos anunciantes?
Hsu: Creio que, em última análise, trata-se de facilitar esse grande modelo de publicidade. É interessante retomar novamente a seguinte questão: em face do relacionamento que o Google mantém com o Firefox, por que criar um novo navegador? Para mim, isso é o mesmo que cobrir o território por inteiro e fincar uma bandeira nele. Obviamente, essa é a primeira versão de um produto — e, portanto, não é definitiva. Mas é muito interessante, voltando ao tema do código aberto, em se tratando da capacidade de proteção dos componentes que integram o navegador.
Hoje de manhã fiz uma pesquisa no banco de dados de patentes para ver em que medida as empresas estão entrando com pedidos de patentes em diversas áreas. Pesquisei “Microsoft” e “navegador”: encontrei 3.000 patentes. É claro que não tive tempo de ler tudo. Em seguida, pesquisei “Mozilla” e “navegador”, e o resultado foi zero. Depois, fiz o mesmo com o Google: encontrei cerca de 100 patentes. Assim, creio que estamos sem dúvida alguma diante de estratégias diferentes aqui. Acho que há uma aposta na migração futura. A questão, portanto, é a seguinte: vamos fazer uma opção mais ao estilo da Microsoft — e nesse caso confiamos que a empresa tenha muitos desenvolvedores de talento, capazes de identificar diferentes tendências e recursos que nós, como consumidores, desejamos — ou vamos deixar o assunto nas mãos de lobistas ou de outros desenvolvedores dispostos a assumir projetos extras à noite, acrescentando a eles outros recursos e inserindo-os no domínio da inovação aberta?
Em termos de capacidade de proteção, trata-se de modelos muito diferentes. É interessante observar que o Google, apesar da relação que mantém com a Mozilla, não tem interesse em desenvolver um modelo próprio. A propósito, a empresa não pretende cortar relações com a Mozilla; pelo contrário, pretende conservá-las.
Knowledge@Wharton: Você mencionou a possibilidade de que os consumidores não tenham muito controle ou influência sobre o desenvolvimento desses produtos como teriam em outros casos. Seria interessante saber como o mecanismo de influência do consumidor funciona nesse mercado.
Hsu: As empresas recorrem a expedientes diferentes nesse sentido: blogs, sem dúvida, como no caso da Starbucks, que, na tentativa de revitalizar a marca, criou um site onde acolhe sugestões dos consumidores. O código aberto é um modelo diferente pelo seguinte: se notar que o produto não apresenta a funcionalidade desejada, e se eu sou programador, há meios preestabelecidos que permitem meu envolvimento em diferentes níveis de responsabilidade, de forma que possa de fato influir no produto.
Existe, é claro, um debate acadêmico intenso em torno das motivações de participação. Parece que essas pessoas têm interesse pessoal no funcionamento de certos recursos.
Knowledge@Wharton: Portanto, ainda é possível que técnicos independentes, lobistas ou até mesmo empreendedores sérios identifiquem as necessidades dos consumidores e procurem satisfazê-las recorrendo à codificação de código aberto disponível no navegador do Google?
Hsu: Sim, sem dúvida, e não só no navegador do Google, pois código aberto serve para isso. Os desenvolvedores podem, se acharem necessário, incorporar outros recursos. Contudo, no fim das contas, acho que isso pouco tem a ver com a demanda do consumidor. Trata-se mais de direcionar o mercado para onde as empresas acham que o consumidor estará.
Creio que boa parte da ênfase na ameaça do Google à Microsoft está mal situada, pelo menos do que diz respeito à posição do Google sobre a questão. O Google é uma empresa movida à engenharia. Basta observarmos o que ela fez na área da pesquisa, solucionando um problema difícil de engenharia — ao permitir pesquisas em grande escala na Internet com base nas coisas confusas que as pessoas digitam — , e o fez com mais precisão do que qualquer outra empresa que a antecedeu.
O problema, entretanto, não está totalmente resolvido. A empresa está inovando, e muita gente está fazendo o mesmo. Contudo, a preocupação com a busca é torná-la mais precisa e capaz de atender à demanda crescente — se isso for feito, as pessoas virão em grandes contingentes.
O Google fez uma porção de coisas interessantes em relação à interface do usuário, muito despojada e econômica, e assim por diante. Em parte, porque a empresa não dá muita importância a parafernálias — isto é, coisas que considera secundárias. O resultado foi que o produto conquistou numerosos usuários. Foi então que a empresa desenvolveu um modelo extraordinário e lucrativo de negócios em torno dessa interface.
Veja agora o que ela está fazendo: apostou novamente em aplicativos que rodam na Internet. Produtos como o Gmail — o cliente de e-mail da empresa, seus aplicativos Google — são apenas o ponto de partida da seguinte idéia: tudo o que se faz agora no software que roda no desktop, e muito mais, acabará migrando para a Internet. A base técnica para a eficácia dessa mudança depende da existência de uma boa tecnologia local, isto é, de uma tecnologia instalada na máquina do usuário, para que rode o programa — isto é, a parte que deve ser rodada no local, e depressa — aliada simultaneamente a uma tecnologia com um grau fantástico de escalabilidade na ponta do Centro de Dados, que permitirá que ele seja executado pela Internet.
O Google é ótimo na parte mais crítica do Centro de Dados, mas continua investir e a trabalhar nesse segmento, assim como a Microsoft, o Yahoo e várias outras companhias. Creio que essas empresas viram que havia uma brecha no segmento de navegadores e, apesar da existência do Firefox, que oferece uma certa liberdade de escolha ao consumidor, a comunidade dedicada ao desenvolvimento do Firefox não se preocupou excessivamente com a criação de um mecanismo de tempo de execução realmente veloz, de fácil evolução e eficaz para o navegador, isto porque o Firefox não está comprometido com o modelo de “nuvem” de Internet, como está o Google.
Francamente, creio que o Google entendeu isso como algo que tinha de estar no mercado, e que beneficiaria a empresa de maneira estratégica a longo prazo. Foi então que decidiu: “Vamos em frente.” As vantagens no que diz respeito à concorrência com a Microsoft vêm na esteira desse processo.
Knowledge@Wharton: Faz alguns anos, falou-se sobre a possibilidade de o navegador se tornar, na prática, o sistema operacional de muitos PCs. Esse seria um passo nessa direção?
Hsu: Creio que sim. A estratégia de lançamento do Chrome nos remete a uma pergunta: em que medida ele representa um avanço nesse sentido? Talvez eu possa economizar alguns segundos. É claro que posso rodar qualquer programa nos navegadores mencionados por Kevin. Acho que, começando do zero — ou quase —o Google desenvolverá sua visão de como será a computação no futuro.
Em última análise, se houver um mercado que seja significativo e móvel — dotado, por exemplo, de um potencial incrível de integração com o Android, produto do Google para celulares — acho que ele será fantástico. É claro que, comparando com o iPhone e com o Safári — a integração funciona bem, mas, a curto prazo, não vejo necessariamente aí um fator correspondente de proposição convincente de valor do Google para o mercado de desktop ou para o mercado de telefonia celular que seja realmente dez vezes melhor do que temos hoje.
Talvez minha bola de cristal não tenha me deixado ver o tanto que eu gostaria em relação à evolução desse tipo de mercado. Contudo, ao brincar com o Chrome hoje de manhã, percebi que houve, de fato, melhoras na velocidade, há atalhos que me permitirão ganhar alguns segundos em comparação com outros navegadores. Contudo, na minha opinião, o produto sinaliza uma aposta substancial no segmento de navegadores que pode ser traduzida da seguinte forma: “Não queremos arriscar a introdução de controle algum, mesmo num tipo de parceria muito próxima com o Firefox, e uma vez que temos muito dinheiro no banco, temos de proteger nosso verdadeiro filão: o modelo de publicidade.”
Não vejo como poderia haver algum valor imprescindível para o consumidor, porque há a questão da capacidade de proteção. O Google optou pelo modelo de código aberto, ao que a Microsoft observa: “Ah, sim, a navegação por abas é fantástica.” Pode ser o caso também de alguma outra inovação introduzida pelo Firefox ou pelo Google. Como proteger isso? A Microsoft já lançou oito versões do seu navegador até agora, enquanto o Google está na primeira. O que os impedirá de se apropriarem de todas essas inovações na próxima versão do seu navegador, mesmo que seja para o mercado móvel?
Knowledge@Wharton: Mas se a Microsoft fizer isso, será bom para o Google de algum modo, porque a empresa dá suporte, de um modo mais evidente, aos aplicativos de Internet que a Microsoft vem tentando colocar no mercado, certo?
Werbach: Sim, volto a insistir que o Chrome é uma tática de curto e de longo prazo para o Google. O curto prazo refere-se ao que já foi descrito anteriormente. O mecanismo de JavaScript — algo que parece muito técnico e especializado — é importante porque se trata de uma componente que o mercado, por si mesmo, mesmo recorrendo ao código aberto, talvez não tivesse sido capaz de produzir de uma forma que o Google aprovasse.
A verdadeira jogada, porém, consiste em incitar a todos a caminharem na direção de um cenário em que os sistemas operacionais deixem de ter importância. Sergey Brin, um dos fundadores do Google, disse coisa parecida em entrevista coletiva concedida ontem. Ele disse que os sistemas operacionais são um conceito ultrapassado. Acho que faz sentido, se analisarmos a questão de uma perspectiva de longo prazo. David está com toda a razão no que se refere ao segmento móvel.
Há 3,5 bilhões de celulares em uso no mundo, menos de um bilhão de PCs e cerca de um bilhão de televisores — portanto é no segmento de telefonia celular que há crescimento, sobretudo no terceiro mundo. Esse tipo de plataforma não requer um sistema operacional tradicional, e sim um tipo de software que forneça o elo entre aplicativos e conteúdo, conectando em seguida o aparelho com a Internet. O PC também vai seguir nessa direção por algum tempo. O Google não tem necessidade de disputar receitas com a Microsoft atualmente. A empresa está brigando por uma fatia mais substancial de um bolo muito maior daqui a 10, 15 ou 20 anos.
Acho que o Chrome é um dos vários lances que o Google está dando nessa direção e, quer a Microsoft decida ou não combater o Chrome e defender seu navegador, não creio que isso mude essa dinâmica fundamental.
Hsu: São essas as políticas de segurança que estão sendo adotadas. Embora a Microsoft seja dona de 70% do mercado de navegadores, as pessoas continuam a procurar o Google e seus aliados quando têm de fazer alguma pesquisa. Na minha opinião, tomando por base a estratégia geral do Google, vejo que a empresa está investindo em vários softwares diferentes, e o Chrome me parece uma iniciativa importante do ponto de vista da estratégia, de modo que o Google não fique à mercê da relação com um terceiro que não possa controlar totalmente.
Caso o mundo mude no tocante a outras inovações graças à interferência de alguma outra empresa, ou de alguma companhia que venha a revolucionar seu modelo de negócios, o Google quer estar em condições de entrar em ação rapidamente. Observo vários projetos da empresa, que permitem a adoção de estratégias tanto defensivas quanto ofensivas, e que realmente protegem o Google no momento em que se torna claro que sua força está, de fato, no mercado de publicidade online.
Werbach: Estamos sempre falando da Microsoft. Não falamos de outras empresas. A Apple está transformando o iTunes numa espécie de navegador que privilegia o entretenimento. A intenção da empresa é dominar o mercado tanto quanto o Google e a Microsoft. Se observarmos onde tem crescido seu valor de mercado, veremos que os investidores parecem acreditar que a empresa também está disposta a se expandir. As companhias de cabo e telefone, como a Comcast, Verizon e AT&T, querem dominar igualmente esse mercado em convergência.
Há um jogo importante em disputa aqui, e o Google está tomando várias medidas para tentar estruturar o mercado de forma que seja favorável àquilo que ela tem de mais forte: sua presença no modelo computacional de nuvem da Internet.
Knowledge@Wharton: Será interessante acompanhar a evolução dos acontecimentos. Kevin e David, obrigado pela entrevista.
Hsu: Obrigado.
Werbach: De nada.
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