Argentina: Cristina Kirchner ainda não colocou todas as cartas na mesa
Cristina Fernández de Kirchner assumiu a presidência da Argentina em 10 de dezembro do ano passado com um visual muito chique: de vestido de renda impecável, um sorriso cauteloso e os cabelos soltos num penteado preparado com esmero, a ex-senadora recebeu o bastão presidencial das mãos do próprio marido, o agora ex-presidente Néstor Kirchner.
O bom desempenho da economia durante os últimos quatro anos e a expressiva adesão pública ao estilo de governo “K”, como ficou conhecido o estilo dos Kirchner, permitiram a essa mulher de 55 anos vencer as eleições com 45,2% dos votos. Em segundo lugar ficou Elisa Carrió, sua opositora e criadora da Coalizão Cívica, aliança que obteve 23% dos votos.
“A economia vem crescendo em torno de 9% anuais nos últimos anos, e é difícil mudar quando tudo vai mais ou menos bem. O desemprego é de 8%, e o consenso social, conforme ficou claro desde as últimas eleições, é alto”, observa Ernesto O’Connor, diretor do Programa de Análise da Conjuntura Econômica da UCA (Universidade Católica Argentina).
Portanto, a percepção generalizada é de que se trata de uma reeleição no âmbito do binômio Kirchner-Kirchner, uma transferência de poder tranqüila e sem muitos solavancos. Depois de pouco mais de 70 dias como primeira mulher eleita para o cargo máximo do país, Cristina Fernández Kirchner não introduziu mudanças significativas no estilo de governo que herdou, tampouco nos temas da agenda política e econômica. Alejandro Luis Corbacho, Ph.D., diretor do Departamento de Ciências Políticas da UCEMA (Universidade do CEMA – Centro de Estudos Macroeconômicos da Argentina), diz que a sensação que se tem em relação ao governo de Cristina Kirchner “é de continuação do governo anterior. Os rostos são quase todos os mesmos, o tom do discurso dos funcionários também e as políticas não sofreram mudanças”.
Com maior cautela, Eduardo Luis Fracchia, diretor da Área Acadêmica de Economia do IAE (Escola de Negócios da Universidade Austral), diz que “ainda é cedo para julgar a gestão oficial de oito semanas da presidente. É preciso dar um semestre ao governo para que se possam emitir juízos mais definitivos”.
Sem planos para a inflação
Contudo, no que se refere aos problemas que se arrastam desde a administração de Néstor Kirchner e os que ainda necessitam de solução a médio e longo prazos, Fracchia diz que “uma das falhas do atual governo consiste em não reconhecer os desacertos — para usar um eufemismo — da gestão das estatísticas de preços. Por outro lado, não parece correto que um funcionário como Guillermo Moreno (secretário do Comércio Exterior) continue a usufruir de um poder que é disputado pelo próprio ministro da Economia (Martín Lousteau). O governo não consegue pôr para funcionar um plano concreto contra a inflação que dê resultados, como o peruano, o chileno, e o brasileiro”.
Moreno foi o criador dos acordos de preços de alimentos e de serviços durante o governo de Néstor Kirchner. Além disso, interveio no Instituto Nacional de Estatísticas e de Censos (INDEC) para influir em indicadores sensíveis como o IPC (Índice de Preços ao Consumidor), variável fundamental para o cálculo da inflação. Até então, o INDEC gozava de grande prestígio regional. O próprio FMI criticou a situação do órgão há poucos dias ao enviar uma dura nota ao governo argentino em razão das mudanças introduzidas na elaboração do IPC.
Corbacho, da UCEMA, diz que “o problema é que os aumentos nos níveis de preços deveriam ser acompanhados de políticas adequadas que permitiriam os ajustes paulatinos dos preços relativos. Infelizmente, não é o que se verifica no momento, e a solução encontrada pelo governo parece ser a de esconder o tema debaixo do tapete e ‘matar o mensageiro’: o INDEC. Se, de fato, conforme diz o slogan do governo, o que se pretende é ‘construir um país sério’, a intervenção no INDEC para manipular as estatísticas vai em sentido contrário”.
Enquanto para o INDEC a inflação ao final do ano era de 8,5%, os analistas de órgãos particulares calculavam que o número real teria superado, no mínimo, os 22%. O certo é que em conseqüência do aumento dos preços, os sindicatos exigem, todo ano, ajustes de salários, que em 2008 estariam entre 25% e 30%. Corbacho diz que o governo terá de enfrentar as reivindicações dos sindicatos e os conflitos sociais, exatamente porque há trabalho e atividade econômica. Portanto, diz ele, “o governo terá de encontrar uma forma de satisfazer e, na medida do possível, atenuar as demandas dos sindicalistas para evitar a mesma experiência por que passou o governo de Isabel Perón: o círculo vicioso da inflação e dos salários”.
Nesse sentido, Frachhia acredita que falta “incluir na agenda econômica a redução da inflação a um dígito, já que esse é o principal problema da macroeconomia. O setor trabalhista continuará bastante turbulento devido à alta da inflação e ao maior poder dos sindicatos, que pressionam por aumento de salários, já que o índice de desemprego é baixo entre os profissionais qualificados”.
A economia como solução para a crise de energia
Outro problema que há tempos se arrasta e pode complicar o crescimento da economia é a crise energética. Uma das primeiras decisões tomadas por Cristina Kirchner, em dezembro, foi lançar um plano de economia para os lares e instalações do Estado. O relógio foi adiantado em uma hora, foram distribuídas 100.000 lâmpadas de baixo consumo, o governo pediu à população que não abusasse do ar condicionado e aos municípios que apagassem as luzes durante a noite.
“O plano de economia de energia não é a solução”, diz O’Connor. “A solução para os problemas de oferta com preços em desequilíbrio consiste na paulatina normalização do sistema de preços (a gasolina, por exemplo, é 50% mais barata do que no Mercosur). Além disso, o marco regulatório não incentiva o investimento privado tanto quanto deveria.” Depois de quase dois meses desde o lançamento do plano, observa Fracchia, do IAE, “a informação que se tem é de que a economia teria sido de 600MW. No tocante à mudança do horário, a medida foi adequada, mas pouco eficaz para as necessidades concretas de energia. Contudo, a negociação com a Bolívia será crucial para o abastecimento de gás no inverno”.
Quando chegar o frio, o setor industrial sofrerá cortes ou multas pelo uso excessivo de energia, o que não permitirá resolver o problema de fundo, explicam os especialistas. E isso principalmente se a demanda continuar subindo, já que de acordo com as últimas informações, em janeiro houve um crescimento de 4,9%. Além disso, a Bolívia não dá garantias de que poderá fornecer à Argentina o gás necessário se houver aumento de demanda em julho e agosto, que são os meses mais frios.
Seja como for, para Ernesto O’Connor, não se pode deixar de atentar para a “necessidade de reduzir subsídios (como os do transporte público), já que são exagerados; além das distorções existentes na economia”, como é o caso dos impostos que incidem sobre a exportação da produção agropecuária, uma das principais receitas do Estado.
Esfera internacional
Durante sua campanha para presidente, Cristina mostrou um estilo diferente do de seu marido ao viajar mais ao exterior e se reunir com figuras de peso como Bill Clinton, nos EUA, e José Luis Rodríguez Zapatero, na Espanha. Essa atitude foi bem recebida pelos analistas como um sinal de descolamento da candidata de sua região em busca de investimentos e da retomada das negociações com o Clube de Paris, a quem a Argentina deve 5,8 bilhões de dólares desde 2001, ano do calote argentino.
Contudo, “as relações exteriores do país sob o mandato de Cristina Kirchner não mudaram como se acreditava que fossem mudar na época da campanha. O país continua muito apegado à Venezuela, Bolívia e Chile. Às vezes, o governo exagera em sua atuação. A relação com os EUA continua como antes, com “muito barulho e pouca ação”. Se o Brasil persistir em sua marcha implacável rumo ao G-8, que será do Mercosul? (O Brasil é um dos países líderes desse bloco comercial) Não poderemos esperar muito dele”, diz Alejandre Corbacho.
Pouco antes de assumir a presidência, Cristina teve de desmentir que os 800.000 dólares que entraram no país de forma ilegal com o venezuelano Antonini Wilson em um avião alugado pelo Estado argentino, tinha como objetivo o financiamento de sua campanha presidencial.
Fracchia observa que “o impulso dado ao Banco do Sul (instituição criada pela Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia, Paraguai, Equador e Uruguai) é questionável e, de modo geral, o apoio ao eixo político do qual Chávez é um dos principais incentivadores é de conveniência duvidosa para a orientação política externa do governo. Por outro lado, as relações internacionais substantivas chamam a atenção exatamente por não existirem, já que não receberam até o momento o impulso que se esperava que fossem receber. Estamos esperando as viagens que Cristina fará em março para que se defina melhor a agenda externa”.
Com relação ao Clube de Paris, O’Connor crê firmemente que haja a intenção de se fechar um acordo. “Creio que há vontade e interesses convergentes. Logo, deveria haver uma maior internacionalização da economia com maior número de relações comerciais com a Europa e os EUA.”
É claro que como a Argentina está longe fisicamente dos EUA, precisa estar ao menos atenta à atual crise econômica por que passam os americanos, e que leva de roldão outros mercados, como o europeu. “Não creio que a crise afete a economia argentina — acrescenta O’Connor. Não se deve subestimar o papel da China, de certa forma independente da crise americana. Os preços das commodities não param de subir e já se acham em nível de correlação com a taxa de juros dos EUA, o que é um feito histórico.”
Fracchia concorda: “Temos pouco comércio com os EUA, por isso não devemos ser afetados comercialmente. Sem dúvida estaríamos mais expostos pelo viés financeiro, se houver uma queda muito acentuada das ações e títulos. O efeito depende da duração da recessão — curta ou longa. Esse é um ponto fundamental, já que toda a região vem crescendo de vento em popa. Por enquanto, em nosso país, continuamos ‘blindados pela soja’, conforme se diz.” A Argentina amplia a cada ano os hectares de sua lavoura de soja, uma vez que os preços internacionais são cada vez mais tentadores para os produtores. Em 26 de janeiro deste ano, o valor da tonelada superou a cifra recorde de 315 dólares.
Cristina Kirchner tem a seu favor, segundo Fracchia, do IAE, “a importância que atribui ao superávit fiscal em relação à gestão anterior. Fica a dúvida se não seria melhor fazê-lo com redução do gasto público e menos impostos sobre exportação, mas o compromisso foi estabelecido e o superávit poderá chegar a 3,5% do PIB, um dado importantíssimo para a macroeconomia”.
A boa imagem da presidente
Apesar das disputas salariais, da inflação crescente, da crise energética ou da falta de um plano claro de governo, a presidente mantém sua boa imagem. Um estudo feito pelo consultor Ricardo Rouvier informa que a imagem de Cristina subiu seis pontos no primeiro mês de governo. A Escola de Governo da Universidade Torcuato Di Tella informou que o Índice de Confiança no governo cresceu 16% entre o primeiro e o segundo mês de gestão.
“O importante para o governo é manter a população contente”, observa Alejandro Corbacho, da UCEMA. “Se houver dinheiro no bolso, não há do que reclamar. Assim, não importam os problemas de caráter institucional, falta de independência dos poderes do Estado, entre outros temas. Se persistirem os problemas no abastecimento de energia, a inflação subirá e não será possível achar respostas para o problema da insegurança. A longo prazo, isso afetaria a popularidade do governo.”
Quem mantém igualmente em alta sua popularidade é Néstor Kirchner, que nos últimos meses não se afastou da política, tendo aberto um escritório no bairro de Puerto Madero, a poucos quarteirões da Casa Rosada, onde planeja liderar o partido justicialista, cujas raízes são as mesmas do partido da presidente: a Frente para a Vitória.
Para Fracchia, a personalidade de Cristina Kirchner é muito forte, portanto ela deverá lutar por suas idéias, o que não significa que futuramente possa vir a ter divergências com o marido. “A tarefa de reorganizar o justicialismo exigirá muito capital político, que será revertido a seu favor e a seu critério”, conclui.
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