Esqueça o endosso: astros do esporte e do entretenimento hoje querem tratamento em igualdade de condições
Na geração passada, o único objetivo financeiro de um superastro afro-americano do esporte no auge da carreira — além de um contrato generoso — consistia em conseguir um contrato lucrativo de endosso com um grande fabricante de tênis, como a Nike, ou de uma marca de abrangência nacional, como a do McDonald’s. A idéia era ganhar muitos milhões de dólares a mais antes que suas habilidades começassem a definhar.
Esses ganhos de curto prazo persistem ainda hoje, mas agora muitos dos que jogam na Associação Nacional de Basquete (NBA) ou na Liga Nacional de Futebol (NFL) querem algo mais substancial — isto é, uma atuação mais longa do que a que proporcionam no show que dão.
“No mercado em que atuo, todo o mundo quer aparecer na televisão, todos querem endossar algum produto. Para mim, isso não basta porque é temporário”, disse Bill Duffy, presidente da BDA Sports Management, empresa que representa astros da NBA como o chinês Yao Ming, pivô do Houston Rockets, e Carmelo Anthony, do Denver Nuggets. Duffy citou os casos de dois jogadores profissionais de futebol, o atacante Ricky Woods e William Perry, apelidado de “Geladeira” por causa do seu porte físico. Ambos recebiam salários excelentes na década de 1980, mas depois sumiram de cena.
“Eu batalho pela igualdade e pela oportunidade de negócios, porque o tempo que temos é limitado”, disse Duffy em um seminário sobre administração esportiva e de entretenimento durante a 34a. Conferência Anual em Memória a Whitney M. Young Jr., patrocinada pela Associação Afro-Americana MBA. “Meu objetivo é promover os relacionamentos que tenho elevando-os para um patamar mais significativo do que o simples endosso.”
Duffy, cuja respeitada empresa de gestão esportiva está situada no Vale do Silício, passa quase tanto tempo estabelecendo contatos entre seu plantel de superastros e bilionários do segmento de alta tecnologia quanto negociando seus contratos. Ele descreveu sua recente odisséia à China com Yao e outros oito clientes, entre eles Steve Nash, duas vezes laureado com o título de Melhor Jogador da NBA, para um jogo cuja renda seria doada a instituições de caridade. O evento ganhou destaque e não somente contribuiu com 3 milhões de dólares para diversos orfanatos, como também resultou em um relacionamento com a Fundação Bill e Melinda Gates.
Durante todo o seminário — intitulado “Esporte e entretenimento: brilhando além dos holofotes” — prevaleceu a idéia de que o atleta e o entertainer bem-sucedidos do século 21 serão aqueles que ao olharem para si mesmos não se verão apenas como grande atletas, mas também como marcas globais, envolvidos tanto em negócios empresariais quanto em atividades humanitárias, que deverão se estender bem além dos estádios e das quadras. A discussão travada no painel chamou a atenção para o papel de uma nova cepa de empreendedores negros — como Duffy — que trabalham com esses atletas para que essa nova visão se concretize.
Agregando valor à mesa
Outro desses empreendedores é Charles Harris, conhecido como “Tanque” — ex-jogador do Temple, de habilidades raras, e que se parece demais com o apelido que lhe deram. Depois de uma breve carreira como corretor no sul de New Jersey, onde teve vários clientes do mundo esportivo, Harris chegou à conclusão de que havia um nicho para uma empresa como a sua, a Sports & Entertainment Financial Group. Empresas desse tipo poderiam oferecer aos milionários do esporte um espectro muito mais amplo de consultoria financeira imparcial, ajudando-os a tirar vantagem de oportunidades como as oferecidas pelas incorporadoras imobiliárias, franquias ou parcerias mais abrangentes para a nova riqueza adquirida. Ele disse que seus clientes do futebol e do basquete profissionais estão se dando conta de que possuem um mérito e uma importância que vão além dos campos e das quadras.
“Os atletas com quem lido no mundo dos esportes e do entretenimento sabem do valor que agregam à mesa”, disse Harris. “Somos gerentes de negócios. Propomos aos nossos clientes a seguinte questão: ‘O que você vai fazer quando sua carreira começar a decair e você se tornar outra pessoa?’”
O painel — moderado por Darryl Carver, que presta consultoria a vários atletas profissionais para a Merrill Lynch — foi o ponto alto da conferência anual em memória a Whitney Young, falecido ativista afro-americano, e cujo objetivo é promover o crescimento dos negócios afro-americanos. O tema da conferência este ano foi “Fazendo contato e desenvolvendo uma liderança dinâmica”.
Cada um dos três participantes conseguiu se estabelecer em um nicho específico como empreendedor negro, inclusive a representante da indústria do entretenimento no painel, Shonette Harrison. Harrison é vice-presidente da Casino Marketing, Harrah’s Chester Casino & Racetrack, e trabalha com clientes que apostam alto nos salões com máquinas abertos recentemente em um bairro residencial da Filadélfia.
Harrison disse que prosperou com a Harrah’s — a maior companhia de jogos do mundo — ao decidir conscientemente ficar longe das carreiras tradicionais reservadas aos executivos afro-americanos, inclusive os trabalhos “analíticos” — eles são os primeiros a serem demitidos, disse ela — bem como de atividades próprias do departamento de recursos humanos. “Sem ofensa a quem está no setor, mas eu não queria ser a encarregada do RH da minha divisão. Sou ótima nisso, mas não é o que eu queria. As oportunidades que me foram dadas só aconteceram porque estou à frente de um negócio extremamente bem-sucedido...”
Contudo, os dois empreendedores da área esportiva presentes — Harris e Duffy — salientaram que ser bem-sucedido nesse mundo tão específico é diferente de se sair bem em uma empresa composta predominantemente por brancos, como a Harrah’s. Para Duffy, jogador excepcional de basquete nos tempos de faculdade e contratado posteriormente pelo Denver Nuggets, mas que nunca jogou na NBA, e para Harris, ex-jogador de futebol universitário, a capacidade de se relacionar com os outros jogadores é essencial.
“Acho que sou bilíngüe, embora não fale nenhuma língua estrangeira”, disse Harris referindo-se à sua habilidade de se relacionar bem com os jovens atletas, mas também de negociar acordos complicados. “Eu poderia fazer parte do Richard Allen Projects” — disse ele referindo-se a um projeto imobiliário cheio de problemas na Filadélfia — “poderia ir agora mesmo para lá e ficar por ali a noite toda [...] Ou então poderia trocar idéias com um MBA da Wharton”. O público riu muito da sabedoria anticonvencional de Harris quando ele, por exemplo, brincou com o modelo de terno que usava: “Toda vez que visito um cliente com uma roupa parecida com essa eles acham que fui ali para auditá-los.”
CDs e linhas de vestuário
De acordo com Duffy, foram artistas do hip-hop como Jay-Z e Sean Combs, hoje em dia conhecido como P. Diddy, que abriram caminho para os jovens atletas e entertainers negros atuais, e o fizeram com um zelo empreendedor tal que vai bem além da mera gravação de CDs — tornaram-se donos de estúdios de gravação e desenvolveram outros artistas, sem falar do imenso sucesso da grife de Sean John, criada por Combs, além de seus dois restaurantes e uma produtora de cinema. Hoje, estima-se que a marca Combs valha mais de 350 milhões de dólares, enquanto a de Jay-Z, um dos proprietários do time de basquete de New Jersey, valeria cerca de 550 milhões de dólares.
“Você assistiu àquele filme [Ray] em que Ray Charles [interpretado por Jamie Foxx] reivindicava o direito sobre a fita mestra com as gravações que fizera? Isso foi há muitos anos, e foi o que lhe garantiu a independência financeira”, disse Duffy. “Os atletas têm direito a um tratamento justo.” Combs disse posteriormente que os atletas deveriam se preocupar em amealhar uma fortuna maior e mais duradoura: “Os proprietários desses clubes de basquete valem bilhões de dólares, mas não pensam nisso. Eles se contentam com duas casas, dez carros, ou outra coisa qualquer. Estamos tentando romper esse padrão, queremos fazer parceria com o dono, mostrar a ele que sua contribuição vai muito além de possuir um time.”
No caso de Duffy e seu plantel de clientes all-star, muitos vêem na filantropia, em especial, uma forma não só de contribuir com os vizinhos, ou com outros países, mas também de construir sua marca pessoal e de fazer contato com alguns milionários e bilionários de fora do mundo dos esportes igualmente envolvidos em campanhas de caridade semelhantes.
O astro do basquete, Anthony, de apenas 23 anos, destinou parte dos milhões ganhos em jogos profissionais de basquete no Denver para a criação do Centro de Desenvolvimento da Juventude Carmelo Anthony no bairro pobre onde nasceu, em Baltimore, e consta que teria doado 1,5 milhão de dólares para a Living Classrooms Foundation, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação, treinamento profissional e outros programas sociais no mesmo bairro. Nash, de origem canadense, é bastante conhecido por seus esforços humanitários, em boa parte concentrados na Steve Nash Foundation, criada por ele em 2001.
Harris disse que sua filosofia de construção e desenvolvimento do perfil dos atletas negros foi muito bem exposta no livro $40 million slaves [Escravos de 40 milhões de dólares], de William C. Rhoden, jornalista esportivo do New York Times. Segundo o autor, os superatletas afro-americanos não souberam tirar vantagem das oportunidades que tiveram de se tornar empreendedores de sucesso por seu próprio esforço, e que a integração, na verdade, arruinou — pelo menos a curto prazo — a possibilidade de se tornarem técnicos, treinadores e até mesmo agentes.
Os participantes do painel da Wharton discutiram também o papel desempenhado pelo principal atleta negro da década de 1990 — Michael Jordan, ídolo do basquete — que ganhou muito dinheiro com um número recorde de endossos à moda antiga. Duffy disse que Jordan, multimilionário, poderia ter construído uma marca de 5 bilhões de dólares se tivesse começado a se preocupar com isso já na época de sua lendária carreira de astro da NBA. “Falar é fácil, fazer já é mais difícil quando não se tem dinheiro e poder”, observou Harris no tocante ao caminho trilhado por Jordan. “Ter tudo isso e dizer então: ‘Bem, agora estou tranqüilo, portanto daqui para frente vou deixar de lado os que me ajudaram a chegar onde estou’, não é nada fácil.”
Hoje, porém, Duffy se admira do sucesso de um ex-atleta que conseguiu algo que seria inimaginável há uma geração: Ronnie Lott, ex-jogador profissional do 49ers de São Francisco — que juntamente com antigos colegas igualmente famosos, entre eles Joe Montana, criou um fundo de hedge com um volume de ativos respeitável, o HRJ Capital.
Para Duffy, uma das coisas mais emocionantes que lhe aconteceram, e a seus clientes, recentemente, não teve com palco a arena esportiva — pelo contrário. Foi quando teve a oportunidade de apresentar os astros da NBA Yao, Bonzi Wells, do Houston Rockets, e Baron Davis, do Golden State Warriors, a um alto executivo da Oracle. Disse Duffy: “Hoje ele me ligou e me deixou muito animado. Procurei meus colegas e lhes disse: ‘Esse sujeito vale 6 bilhões de dólares e quer se relacionar com vocês.’”
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