Jeremy Siegel: o Federal Reserve e os mercados globais
Mukul: Bem-vindo, professor Siegel.
Siegel: É um prazer estar aqui.
Mukul: Antes de tocar na questão das taxas de juros e seu impacto sobre os mercados, gostaria de saber sua opinião sobre o episódio envolvendo Bernanke e alguns jornalistas da CNBC de que fomos testemunhas há algumas semanas. Quando Alan Greenspan ocupava o cargo de presidente do Federal Reserve (Fed), ele tinha a reputação de ser muito reservado. Que lições Bernanke pode tirar com as declarações “fora do script” que fez diante dos jornalistas?
Siegel: Fiquei bastante decepcionado quando tomei conhecimento do assunto. Foi um erro de principiante. Ben é uma pessoa excelente para a presidência do Fed, mas não há dúvida de que cometeu um erro colossal. É interessante observar que durante os primeiros meses de seu mandato, Greenspan deu algumas declarações na televisão, se bem me lembro em resposta a um jornalista, e que foram captadas pelo mercado. Ele nunca mais voltou a dar entrevistas ao vivo na TV ou no rádio durante os 18 anos que se seguiram. Bernanke não deveria ter falado dos mercados e nem tampouco de economia com os meios de comunicação e nem com ninguém, a não ser de modo estritamente confidencial. Greenspan tornou-se especialista no assunto. Mesmo durante um jantar, podíamos fazer mil perguntas; ele era extremamente educado e sorria, mas nunca respondia nada. Bernanke terá de aprender. Imagino que já se tenha dado conta da situação, portanto não tornará a fazer a mesma coisa outra vez. O que quer dizer tudo isso? Basicamente, Ben quer que o Fed seja uma instituição aberta, mas nesse epísódio é provável que ele o tenha aberto demais. É preciso saber quando abri-lo e quando mantê-lo fechado! A verdade é que o Fed não sabe que decisões tomará em suas próximas duas reuniões. Contudo, sabe com quase toda a certeza que na próxima reunião de 10 de maio as taxas de juros chegarão a 5%. Ao se aproximar a data da próxima reunião, por volta de 28 ou 29 de junho, Bernanke avaliará os dados das próximas seis ou sete semanas para tomar uma decisão. Ele disse que o Fed não aumentaria mais as taxas. Creio que essa seria uma decisão correta, porém com algumas ressalvas. Os mercados de commodities continuam bastante agitados; o mercado imobiliário começa a entrar em recessão, mas o resto da economia está crescendo. Portanto, Bernanke terá de levar em conta esses elementos. Creio que são grandes as probabilidades de que as taxas fiquem em 5% em maio e que, em junho, pela primeira vez depois de dois anos, as taxas não subam mais.
Shell: Supondo-se que isso aconteça, qual deverá ser a resposta dos investidores?
Siegel: Avaliar se estão tendo lucro, já que é isso o que alimenta os mercados de valores. Por fim, observamos uma certa recuperação do gasto com capital, um fato que é positivo para a economia. O petróleo e as taxas de juros continuam a ser as duas grandes interrogações, porém, até o momento, as previsões para a economia são otimistas — e não só para a economia americana. Pela primeira vez nos últimos 20 anos, a economia mundial está crescendo. A economia européia está se recuperando, e a japonesa, finalmente, começa a sair da recessão. A economia dos EUA vai bem. E esses são os principais agentes do mundo desenvolvido. O mundo em desenvolvimento vem atravessando uma excelente fase há três ou quatro anos. Por fim, meu bom amigo Steve Roach, do Morgan Stanley, disse-me: Sabe de uma coisa? Acho que a situação hoje está bem melhor. Para dizer a verdade, nenhum dos desequilíbrios dos quais todos vinham falando nos últimos dois ou três anos se concretizaram. Para Roach, todos os motores da economia mundial estão trabalhando em conjunto. Isso contribuirá para manter estáveis os preços das ações. As taxas de juros dos títulos continuam crescendo em resposta à pujança de nossa economia.
Mukul: O sr. fez referência à crise do petróleo e às taxas de juros. Obviamente o petróleo constitui um problema grave. O preço atual dá sinais de que vai abaixar. Ele está hoje em 74 dólares o barril; há um clima de tensão em relação ao Irã e as Nações Unidas impuseram sanções. Em suma, são muitas as incertezas. Além disso, o mercado de bens primários encontra-se igualmente em um dilema devido à nacionalização das jazidas de gás natural da Bolívia. Quais seriam, em sua opinião, os pontos fracos e fortes da economia nos próximos meses?
Siegel: Sem dúvida alguma o mercado de commodities está em expansão em decorrência de vários fatores. Um deles é a força da economia mundial. Todos sabemos que a China e a Índia são os grandes consumidores de boa parte desses bens básicos; tornarei a falar desse assunto em breve. Há também muita especulação. Estão sendo criados muitos fundos de investimentos de hedge baseados em commodities, além de outros tipos de fundos. Essas commodities estão sendo adquiridas nos mercados abertos e, conforme sabemos, a oferta de bens primários é limitada em boa parte dos casos. Os investidores acreditam que esse é o jeito de enriquecer; em minha opinião, porém, isso não passa de uma bolha. Eles podem estar correndo um grande risco. É preciso ter em mente duas coisas muito importantes. A gasolina passou de 2,20 dólares há menos de um ano para o atual patamar de 3 dólares. O aumento foi de quase um dólar, mas que corresponde a uma elevação de apenas 33%. Foi por esse motivo, entre outros, que os consumidores puderam preservar seu poder de compra — apesar dos preços. O PIB do último trimestre cresceu somente 1,6%. Estou convencido de que isto se deveu à escalada do preço da gasolina e do petróleo em decorrência da passagem do furacão Katrina. Logo, no momento em que o preço do petróleo voltou ao normal, a economia se fortaleceu e cresceu 5% no primeiro trimestre. Na minha opinião, porém, a economia deverá crescer muito nos próximos dois trimestres. Creio que o gasto do consumidor cairá e que a economia se manterá firme graças ao aumento dos gastos de capital. Depois de três ou quatro anos em estado de hibernação, finalmente teremos uma elevação no gasto de capital. Depois do bug do milênio, em 2000, as empresas substituíram seus equipamentos, porém não nos sentimos obrigados a fazer gastos semelhantes porque a China e a Índia já vinham fazendo isso. Na minha opinião, teremos no meio do ano um aumento nesse tipo de gasto e uma diminuição no gasto do consumidor acompanhado de um aumento de 3% a 3,5% do PIB. Contudo, se é verdade que o preço do barril passou dos 30-40 dólares para 70-75 dólares, grande parte desse aumento foi absorvido pelo processo de produção chinês, cujos custos com mão-de-obra são de um dólar a hora. Embora o preço do petróleo esteja alto, seu processo de produção requer gastos mínimos com mão-de-obra, sendo em seguida exportado para os EUA. Esse é o principal motivo pelo qual os preços mantiveram-se estáveis. Em termos percentuais, o aumento não foi tão significativo. A elevação do preço do petróleo foi, em parte, contrabalançado pelos baixos custos de mão-de-obra dos bens produzidos na China ou na Índia, o que evitou que nossa economia acabasse em uma situação inflacionária descontrolada semelhante à dos anos 70.
Shell: Vamos mudar um pouco de assunto. No contexto desta nossa conversa, o que significam os baixos índices de popularidade de Bush e do Partido Republicano?
Siegel: Atualmente, acredita-se que a possibilidade de que os democratas cheguem à Casa Branca é de 50%. Contudo, o prognóstico em relação ao senado é que continue republicano, já que há muito mais democratas do que republicanos concorrendo à reeleição. Quais seriam as conseqüências disso? Que será muito mais difícil aprovar a legislação favorável aos mercados proposta por Bush. Por isso, é reconfortante saber que o senado chegou finalmente a um acordo que prolongará os cortes de impostos sobre capital e dividendos por mais dois anos, até 2010. Bush quer aprovar essa lei, e para isso terá de ceder à pressão dos democratas no que diz respeito ao imposto mínimo alternativo (ou AMT, conforme sua sigla em inglês), para que os republicanos, por sua vez, consigam as reduções sobre impostos e capital. Trata-se, basicamente, de concessões mútuas que deverão ser aprovadas. Já teriam sido aprovadas com toda certeza se os índices de Bush não tivessem caído drasticamente. Isto pode significar a divisão do Congresso. O americano médio, porém, não parece estar preocupado com isso. Ele aceita o fato. É uma questão de equilíbrio do sistema. O governo Clinton também passou por processo semelhante nos últimos 4 ou 6 anos, o que não prejudicou de modo algum a expansão econômica. Creio que os democratas chegarão à Casa Branca, haja vista o grau de frustração que se percebe no ar. Os índices do Congresso são inferiores ao da Casa Branca. As pessoas querem mudanças. Os democratas conquistarão a presidência e deixarão os republicanos chocados. Espero apenas que trabalhem juntos para que o país mude de rumo e surja uma luz no fim do túnel. São muitas as pessoas para quem o país está seguindo na direção errada.
Mukul: Pelo que entendo, o presidente Bush está perdendo popularidade e apoio, inclusive dentro do próprio Partido Republicano. O sr. considera esse dado importante?
Siegel: Sem dúvida. Há inclusive um grupo que não quer de forma alguma a participação de Bush na campanha eleitoral de novembro. Ele já não é mais considerado peça importante. Além disso, passa uma imagem presidencial muito frágil. É evidente que ele não soube lidar com a questão do Iraque. Não há a menor dúvida de que os republicanos estão se afastando pouco a pouco de Bush, mas não foram capazes ainda de formular sua própria agenda, o que os deixa bastante incomodados.
Mukul: Voltando á questão da economia mundial, se o sr, fosse fazer algum prognóstico sobre a situação econômica do mundo nos próximos seis meses, qual seria o cenário mais otimista? E o mais pessimista? O que o sr. recomendaria aos investidores em cada um desses cenários?
Siegel: Faz um ano publiquei um livro, e como você sabe, sou um grande defensor da diversificação em nível internacional. Cerca de 50% do capital social está fora dos EUA. No livro, chego inclusive a recomendar que todo investidor americano aplique 40% do seu capital fora dos EUA. É uma recomendação sem precedentes. Há quem recomende um volume de aplicação de 20%, mas a maior parte das pessoas tem apenas 10% ou menos para aplicar. A diversificação internacional é muito importante. Sou otimista e creio que teremos um enorme crescimento em várias partes do planeta, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Isto faz com que as taxas de juros subam no mundo todo, não só nos EUA. Os investidores percebem que o crescimento está de volta, o que aumenta a demanda por empréstimos por parte do consumidor, elevando as taxas de juros. É um mecanismo natural dos mercados. É um modo de dizer que a economia está se recuperando, mas que só se aplica quando nos referimos aos mercados mundiais não-emergentes, já que os mercados emergentes, a exemplo das ações de pequeno valor, são muito voláteis. As pessoas me perguntam sobre as ações de pequeno valor e sobre os mercados emergentes, contudo são temas que não me preocupam. São interessantes, mas não tanto quanto as grandes ações americanas, européias e japonesas. Creio que se trata de mercados promissores para os que investem em ações. Contudo, não se devem cometer excessos nos mercados emergentes, uma vez que são estimulados pelos mercados de commodities, e também por enormes investimentos de capital. Seja como for, as ações são muito atraentes.
Com relação ao pior cenário, as possibilidades são variadas. Há sempre algo com o que se preocupar. Será que o barril de petróleo chegará a cem dólares? Será que passará disso? Creio que a bolha irá estourar antes e o mercado de commodities regredirá. No momento em que os preços estiverem estabilizados e as pessoas perceberem que o preço da moradia está sob controle, assim como o preço das commodities etc., o ambiente se tornará favorável então à capitalização de valores internacionais.
Shell: Conforme sabemos, Evo Morales, presidente da Bolívia, nacionalizou as jazidas de gás e tudo indica que fará o mesmo com outros recursos naturais do país. Será que Morales conseguirá de fato o que pretende ou tudo isso provocará simplesmente uma tremenda agitação na América Latina?
Siegel: Observa-se uma tendência populista bem definida por parte das esquerdas latino-americanas, primeiramente com Chávez, na Venezuela, e agora na Bolívia. Os árabes nacionalizaram as companhias petrolíferas nos anos 60. Disseram que os recursos eram seus e se apropriaram deles. Não se pode dar as boas-vindas aos investimentos diretos estrangeiros e depois expropriá-los com as conseqüentes perdas de capitais, já que o prejuízo a longo prazo para o país será enorme. O capital é o motor do crescimento. Veja o caso da China, por exemplo, e o volume de investimentos diretos externos que o país está recebendo — bem como de poupanças e de investimentos próprios. Se o seu país não for simpático aos investimentos externos, o prejuízo será grande a longo prazo. Contudo, as nacionalizações não me surpreendem. A Rússia nacionalizou a indústria privada de petróleo e gás. Temos de nos acostumar com a idéia de que os governos podem nacionalizar determinados setores. Todavia, se o investimento direto for acompanhado de uma aura de temor, que é obviamente o que está acontecendo na Bolívia, o país sofrerá as conseqüências a longo prazo. Todos os países precisam de um mercado mundial de capitais para que possam se desenvolver. A Bolívia não é suficientemente rica para financiar seu crescimento com fundos próprios.
Mukul: Por último, há alguma pergunta que o sr. gostaria que eu ou Robbie lhe tivéssemos feito?
Siegel: Creio que tratamos da maior parte dos temas. Bernanke não voltará a cometer o mesmo erro. Ele aprende rápido. A reunião do Federal Reserve se estenderá por alguns dias. No segundo dia, emite-se um comunicado oficial, e às duas e quinze da tarde todos nós observaremos o mercado e avaliaremos a possibilidade de lhe dar uma trégua no que diz respeito à escalada dos juros. Contudo, um alívio não significa necessariamente um compromisso, e o Fed não se compromete a manter as taxas em 5%. Ele aguardará. Se a redução dos preços da moradia não tiver impacto significativo sobre a economia, e se ela começar a retomar o fôlego, é mais provável que o Fed volte a elevar as taxas. No entanto, creio que sua intenção é congelar as taxas de juros depois da próxima reunião.
Mukul: Grato por responder a nossas perguntas.
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