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Líderes da indústria debatem a realização de grandes investimentos em P&D no setor de fármacos

Analistas presentes no mês passado à Conferência sobre Negócios do setor de Saúde da Wharton (Wharton Health Care Business Conference) fizeram uma análise microscópica dos diferentes pontos encontrados no campo da pesquisa. Reunidos em dois painéis, líderes das áreas de biotecnologia, fármacos e investimentos discutiram a situação do segmento de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) nas grandes companhias farmacêuticas e o progresso das pesquisas com células-tronco. Temas distintos, porém relacionados, resultantes das diferentes sessões realizadas podem ser sintetizados na seguinte expressão: “Grandes investimentos em P&D no setor de fármacos (pouca esperança?) e volume de pesquisas realizadas com células-tronco (muito alarde?)”

 

No painel intitulado “Produtividade em P&D em marcha lenta: o que deve fazer a indústria farmacêutica para sanar esse problema?”, o moderador, Charley Beever, vice-presidente da Booz Allen Hamilton, afirmou que esse é o tipo de problema para o qual   “todos acreditam ter a solução. Contudo, se observarmos o que de fato acontece, dificilmente encontraremos alguém que tenha encontrado a fórmula mágica”. Beever deve estar com a razão: no encerramento do painel, havia diversas sugestões sobre a mesa, mas nenhuma receita infalível.

 

O primeiro a se manifestar foi J. Anthony Ware, vice-presidente do Lily Research Laboratories. Ware disse que faria “um diagnóstico de dois minutos do problema”. Em seguida, acrescentou brincando: “Diante de tão pouco tempo, sinto-me feliz pelo fato de que meu seguro contra negligência profissional ainda estar valendo”. Embora tenha ratificado o compromisso das grandes fabricantes de fármacos com a P&D, Ware apontou algumas razões para a diminuição do ritmo de entrada de novas drogas no mercado. Em primeiro lugar, a ênfase em “alvos novos” acarreta um modo de ação diferente do empregado em drogas já existentes, o que pode resultar em procedimentos mais morosos. (O rimonabant, por exemplo, nome genérico do Acomplia, remédio contra a obesidade da Sanofi-Aventis, foi concebido tendo em vista um alvo novo). Além disso, o desenvolvimento de novas drogas demanda um volume maior de despesas e de tempo, uma vez que os testes clínicos para comprovação da segurança e da eficácia dos medicamentos estão se tornando mais longos e mais detalhados. Como os riscos são mais altos, “tem-se um atrito não-técnico no segmento de produtos candidatos à droga, disse Ware, acrescentando que o ambiente regulatório também mudou.

 

Ele observou que o projeto genoma, de mapeamento do genoma humano, talvez tenha suscitado uma esperança muito grande de que logo haveria novos tratamentos. “Passamos a ver as coisas cor-de-rosa com muita rapidez.” Agora, o grande desafio consiste em “descobrir o que significam todas aqueles pedacinhos de DNA”.

 

Vlad Hogenhuis, chefe do grupo de marketing de novos produtos da Merck, também pensa como Ware, e acha que os “frutos ao alcance da mão” já foram colhidos. Prova disso são as classes de produtos como as estatinas redutoras de colesterol. “Nossas tecnologias não mudaram desde a década de 1990”, disse ele chamando a atenção para a estratégia básica de identificar uma enzima e bloqueá-la. “Estamos agora no limiar de novas tecnologias”, acrescentou, como é o caso do segmento em ascensão da farmacogenética, que poderá resultar em mais drogas personalizadas, em oposição à estratégia convencional de uma receita única para todos os casos. O uso cada vez mais freqüente de biomarcadores durante os testes e o desenvolvimento das drogas é mais uma “onda do futuro”, disse Hogenhuis, destacando que “a produção inicial [...] está chegando ao seu limite”. Ele previu ainda que os pacientes verão os resultados da P&D feita hoje só daqui a três anos.

 

Robert Bagdorf, diretor sênior de licenciamento e desenvolvimento da Pfizer, apresentou também um diagnóstico otimista da situação de P&D: “Não creio que seja tudo só negativismo como dizem por aí.” Ele admitiu que o fim da patente de algumas drogas tem desdobramentos significativos sobre empresas como a Pfizer, mas destacou que são inúmeros os sinais positivos se “olharmos para daqui a dez ou 12 anos [...] Nossas primeiras linhas de produção continuam repletas” de produtos promissores.

 

Roland Gerritsen van der Hoop, vice-presidente sênior de P&D e de assuntos regulatórios da Endo Pharmaceuticals, fabricante de remédios especiais,   discordou do parecer dos participantes presentes ao painel em que se discutiu a situação das grandes empresas farmacêuticas. Ele disse que o retorno sobre o investimento resultante dos esforços de P&D das companhias fabricantes de remédios são “de péssima qualidade do ponto de vista de Wall Street. Esse modelo de negócio peca pela ineficácia desde o início. Temos um modelo agonizante esforçando-se para passar a mensagem de que em três ou quatro anos tudo será diferente”.

 

Beever, em defesa do ponto de vista contrário, concordou que é fácil para a indústria dizer “por favor, aguardem”. “Mas o que há de verdade nisso?”, indagou.  “O modelo está equivocado? Como deveriam agir, então, as grandes companhias farmacêuticas?”

 

Os debatedores disseram que haveria um esforço no sentido de desenvolver drogas novas, distintas daquelas replicadas por todos. Bagdorf, porém, ressaltou que “a droga campeã de vendas não desapareceu [...] Ela será diferente, só isso.” Ele disse que as drogas do futuro se orientarão pelas necessidades da sociedade, como no caso das drogas contra a obesidade, mal de Alzheimer e outras doenças relacionadas com o envelhecimento.

 

Com relação à estrutura do negócio, os debatedores disseram que as grandes companhias farmacêuticas passarão a depender mais de acordos de licenciamento e de alianças com empresas de biotecnologia. Nesse caso, o risco é saber a que altura dos avanços feitos devem-se fazer tais acordos. Segundo Bagdorf, cerca de 60% dos acordos são fechados na etapa pré-clínica. “Quanto mais cedo fechamos o negócio, menores os montantes de pagamentos diretos [...] O risco, porém, é sem dúvida maior.” No caso da Lilly, acrescentou Ware, das nove drogas lançadas desde 2000, seis foram desenvolvidas internamente e três, fora, embora uma das seis contasse com uma parceria externa.

 

Hogenhuis disse que as companhias farmacêuticas deveriam se questionar se   são compradoras ou fabricantes antes de decidir fazer alguma coisa internamente ou por meio de acordo com outra empresa. As empresas precisam levar em conta seu portfólio antes de planejar sua estratégia de P&D, acrescentou. “Uma aposta é simplesmente uma aposta. O que você tem hoje em sua linha de produção que não o decepcionará daqui a dois ou três anos? Esse é um dado mensurável.”

 

Paul Spreen, vice-presidente sênior da Quintiles Transnational, uma empresa do Research Triangle Park, da Carolina do Norte, provedora de diversos serviços para a indústria farmacêutica e de biotecnologia, discorreu sobre outra tendência: a terceirização do trabalho nas várias etapas de desenvolvimento de uma droga, quer se trate da gestão de dados, quer da execução de um teste clínico. “Percebemos que a terceirização gera valor”, disse Spreen, salientando que ela permite às empresas farmacêuticas realizar testes clínicos com maior abrangência geográfica e étnica, possibilitando também a obtenção de dados com maior segurança. Os estudos sobre remédios, que antes eram feitos sobretudo nos EUA, são feitos hoje em volume cada vez maior na China, Índia, África do Sul e no leste europeu — lugares que são mercados em potencial para a comercialização de drogas que devem estar à altura das exigências feitas.

 

Beever não permitiu que o painel passasse ao largo de uma questão delicada no que diz respeito à P&D: quando é que se deve “matar um projeto”, ou, em termos menos contundentes, quando é que se deve arquivar um projeto? “Será que a indústria está melhorando com essas interrupções precoces?”, indagou. “A ciência, por vezes, comporta-se como uma amante cruel”, acrescentou Ware. Em seguida, observou que algumas drogas anteriormente suspensas tornaram-se um grande sucesso. Os debatedores disseram que a realização de estudos sobre o grau de toxicidade e de segurança dos produtos nas etapas iniciais de desenvolvimento pode ajudar as empresas a tomar decisões mais acertadas sobre sua continuidade ou não. Gerritsen van der Hoop questionou o raciocínio da “eficácia modesta”, em que as empresas persistem em projetos que acabam resultando em produtos cujas vantagens são pouco mais que medianas. Para ele, os fabricantes que embarcam nesse tipo de estratégia acreditam que, no fim das contas, terão alguma vantagem significativa.

 

Diversas tendências em P&D indicam que será mais difícil distinguir as empresas grandes e tradicionais das pequenas emergentes, observaram os participantes do painel. Conforme disse Ware: “Vai ser difícil dizer quem é da área de biotecnologia e quem é fabricante de remédios.”

 

Terapia com células-tronco: potencial à espera de concretização?

Na abertura do painel “Células-tronco e medicina regenerativa: oportunidades de negócios e mudanças”, o moderador Robert J. Easton provocou os debatedores com perguntas do tipo: “Qual o verdadeiro potencial desse negócio?”; “Haveria mais calor do que luz nessa discussão atualmente?”; o campo de estudo das células-tronco e da medicina regenerativa se resumiria simplesmente a “uma coleção de tecnologias e nada mais?”, ou, “será possível ganhar dinheiro” com isso?

 

Easton, presidente e co-fundador da Easton Associates, consultoria na área de saúde de Nova York, deixou transparecer inicialmente um certo ceticismo em sua exposição, já que a terapia por meio de células-tronco está longe de ser comprovada. Existe também uma confusão significativa na mente do público sobre o tipo de benefício que a tecnologia poderá oferecer no futuro. A crença de que a terapia com células-tronco inaugurará uma nova etapa de maravilhas na medicina tem sido alimentada pelo pensamento de que os paralíticos tornarão a andar, e as pessoas de mente debilitada passarão a raciocinar com clareza. As células-tronco foram promovidas à posição de possível cura para uma longa lista de males, como o mal de Parkinson, de Alzheimer, diabetes e lesões na medula espinal. Ao mesmo tempo, os cientistas cultivariam tecidos e órgãos em laboratório para substituir as partes defeituosas ou desgastadas do corpo humano.

 

Por enquanto, porém, o potencial da terapia com célula-tronco foi demonstrado principalmente em laboratório e animais, não em pessoas. Além disso, a controvérsia em torno do uso de células-tronco de embriões cria um ambiente de pesquisa e de financiamento que dificilmente consideraríamos ideal.

 

Não obstante, os debatedores ofereceram alguns vislumbres do futuro, ressaltando que as terapias com células-tronco podem ser particularmente úteis no caso de doenças provocados pelo envelhecimento e condições raras, para as quais não há tratamentos à altura. Esse otimismo fica, porém, obscurecido por uma dúvida: será que os investidores apostariam em uma ciência incerta? E mais: o sistema de saúde teria condições de absorver as novas tecnologias?

 

Robert F. Willenbucher, chefe da recém-criada unidade interna de negócio da Johnson & Johnson dedicada à pesquisa com células-tronco, fez inicialmente uma   palestra em que chamava a atenção para os diferentes significados de “célula-tronco”. Muito se fala de células-tronco embrionárias — células primitivas retiradas de embriões e que podem se converter em diversas células especializadas. Em 2001, Bush proibiu o financiamento federal de quase toda a pesquisa com células- tronco embrionárias, com exceção dos trabalhos com células já em andamento.

 

Contudo, há também células-tronco de origem não-embriônica, isto é, células adultas, que, via de regra, dão origem a células do tecido onde são encontradas. As células-tronco de origem não-embriônica são oriundas do próprio paciente ou de um doador, disse Willenbucher, acrescentando que o negócio da medicina regenerativa compreende várias facetas, desde o cultivo das células, passando pelo desenvolvimento de boas culturas de laboratório e de diferentes “patamares” de cultivo de células e de tecidos até a elaboração de técnicas de “entrega” do produto ao paciente. “Depois que você escolhe seu produto, surgem implicações importantes para o negócio”, disse.

 

Steven Nichtberger, presidente e CEO da Tengion, companhia de medicina regenerativa de King of Prussia, na Pensilvânia, discorreu sobre as pesquisas de sua empresa em torno do cultivo de bexigas substitutivas utilizando células do próprio paciente. A tecnologia, que poderia substituir a cirurgia plástica feita atualmente, seria empregada primeiramente em crianças portadoras de espinha bífida ou pessoas com lesões na medula espinal que tenham perdido as funções da bexiga. A técnica consiste em fazer uma biópsia na bexiga do paciente para a coleta de “células progenitoras”, capazes de se regenerar. As células são colocadas em um patamar biodegradável com forma de bexiga e ali passam algum tempo para que cresçam e amadureçam. A nova bexiga é então implantada no paciente e começa a funcionar.

 

“A produção desse tipo de bexiga requer técnicas especializadas”, disse Nichtberger em relação ao processo. A Tengion está construindo uma central de produção na Pensilvânia para a fabricação dessas novas bexigas, e espera começar os testes clínicos no segundo semestre deste ano.

 

Martin McGlynn, presidente, CEO e diretor da StemCells, empresa de biotecnologia de Palo Alto, na Califórnia, disse que sua empresa prioriza a pesquisa com células-tronco neurais oriundas do tecido do cérebro humano. A StemCells tem a aprovação do FDA (órgão que regula o setor de remédios e alimentos nos EUA) para fazer o transplante de células em crianças portadoras da doença de Batten, um transtorno neurodegenerativo fatal herdado. “Essa será a prioridade máxima da empresa em 2006”, disse McGlynn.

 

A StemCells não faz pesquisas com células-tronco extraídas de embriões humanos. Em vez disso, procura se concentrar na descoberta  de novos tipos de células-tronco de adultos, tendo encontrado candidatos interessantes no fígado e no pâncreas. “Vasculhamos os sistemas orgânicos humanos [...] à procura de populações de células extremamente raras; em seguida, analisamos suas propriedades no laboratório”, disse McGlynn.

 

Stephen W. Webster, presidente, CEO e diretor da Neuronix, uma companhia biofarmacêutica de Malvern, na Pensilvânia, disse que seus pesquisadores estão trabalhando com células-tronco da medula óssea de seres humanos adultos em busca de tratamentos para doenças do coração e outros transtornos. Uma pequena amostra de células de um doador pode ser convertida em um lote grande de células que podem, por sua vez, ser congeladas e depois descongeladas para utilização conforme necessário. Ele comparou a terapia a “pequenas fábricas que segregam um coquetel de enorme potencial” de células regenerativas. Nos modelos animais, as células possibilitam o reparo do tecido cardíaco lesado. A Neuronyx entrou com pedido no FDA para autorização do início dos testes terápicos em pacientes que tenham sofrido ataques cardíacos.

 

Webster ressaltou que embora a técnica seja das mais avançadas, a relação custo/benefício é positiva. Uma amostra de células de um único doador pode se converter em seis bilhões de doses terápicas, disse, acrescentando que tal processo “manterá em patamar razoável as terapias regenerativas a longo prazo”.

 

William M. Caldwell IV, CEO da Advanced Cell Technology, apresentou uma perspectiva diferente da dos demais debatedores: sua empresa de biotecnologia não evitará o campo minado da política. “Nossa empresa está inteiramente comprometida com o desenvolvimento de células-tronco embrionárias [...] e com possíveis curas”, disse. Quando Bush praticamente vetou a utilização de fundos federais para a pesquisa feita com células-tronco de embriões humanos, observou, “a maior parte das companhias que trabalha com esse tipo de célula teve de recorrer à outra fonte para obter financiamento, ou então fechar as portas.”

 

A empresa instalou sua nova sede e seu centro de pesquisas em Alameda, Califórnia, um estado cujos eleitores aprovaram, em 2004, um projeto que fornecerá 3 bilhões de dólares em fundos estaduais para a pesquisa com embriões humanos ao longo de dez anos. “Somos um dos beneficiários desse projeto”, disse Caldwell. Em sua pauta de pesquisas constam: o desenvolvimento de terapias para a degeneração macular, problemas cardíacos e da pele, como queimaduras.

 

Reni J. Benjamin, analista sênior de biotecnologia da Rodman e Renshaw, acompanhou as atualizações científicas do ponto de vista dos investidores. Embora a medicina regenerativa possa mudar o curso dos tratamentos de saúde, as companhias de capital de risco se mostram cautelosas, observou. “Já há muito tempo ouvimos falar do potencial das células-tronco. Contudo, os investidores querem uma indicação mais clara de quanto “tempo será necessário para que essas terapias cheguem ao mercado”.

 

Cabe às empresas explicar melhor em que pé se encontra a pesquisa, acrescentou Willenbucher. “É importante não apenas falar das promessas”, mas também “das realidades de curto prazo e do que deverá ocorrer paulatinamente”.


Publicado em: 03/05/2006


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