Esquerda populista na América Latina: ameaça ou oportunidade para os investidores?
Os bolivianos elegeram recentemente seu novo presidente, Evo Morales, ex-líder de esquerda dos cocaleiros do país. Sua campanha girou em torno de promessas como a nacionalização da produção de petróleo e gás, controle da especulação de terras e mais atenção para com setores da sociedade boliviana ignorados pelos governos anteriores, entre outras coisas. Partidos de esquerda ou populistas também estão no poder no Brasil, Argentina e Venezuela. No Equador, já deram mostras de sua força, assim como na Guatemala e no Peru. As próximas eleições mexicanas podem também alçar ao poder o esquerdista PRD.
Durante uma sessão de debates na recente Conferência Latino-Americana da Wharton, Witold Henisz, professor de Administração da Wharton, provocou quatro dos debatedores com a seguinte pergunta: o ressurgimento democrático da esquerda populista pode ser considerado um marco de consolidação da democracia ou seria apenas uma tendência potencialmente perigosa, capaz de remeter a novamente América Latina ao calvário das décadas perdidas? A esquerda populista seria uma ameaça ou uma oportunidade para os investidores internacionais?
A resposta dos participantes do painel “Processos estruturais e os políticos: fim das oscilações na América Latina?” foi unânime: oportunidade. O evento ocorreu durante o Fórum global de Negócios da Wharton, que dedicou à América Latina o tema “Explorando um potencial intacto”.
Caroline Atkinson, diretora interina do Fundo Monetário Internacional para o hemisfério ocidental e uma das participantes do painel, disse que “gostaria de acreditar em um final feliz — isto é, na consolidação da democracia”. O FMI não costuma fazer avaliações do cenário político, observou. “No Fundo, é prática nossa fingir que a política não existe. Agora, porém, estamos sendo forçados a reconhecer sua existência.”
Em linhas gerais, Atkinson acredita que, hoje, a América Latina está em situação melhor do que esteve nas décadas de 70 e 80, em que a inflação era implacável e a dívida, sufocante. Agora, muitos países desfrutam de estabilidade macroeconômica graças a uma política fiscal sadia e a uma economia real bem azeitada, com índices de endividamento sustentáveis e participações privadas robustas. Sem esse esteio, o tecido político e social da região já teria se esgarçado, disse Atkinson. Contudo, em um ambiente econômico tranqüilo, o consenso democrático pode deitar raízes.
Jesse Deutsch, vice-presidente de finanças da Kraft na América Latina, disse aos participantes do fórum que “no tocante à indústria privada, a Kraft está decidida a investir na América Latina. Vejo-a como um pêndulo que oscila para frente e para trás. No momento, o pêndulo se deslocou para a esquerda. Não há duas tendências iguais. Creio que isso deve ser entendido dentro de um espectro dotado de uma certa lógica. As pessoas são impacientes; elas querem mudanças, emprego, melhores condições para suas famílias e mais riqueza. Essa é a direção da tendência atual”.
Paulo Tenani, chefe de pesquisa da UBS Wealth Management do Brasil, também acredita em um quadro favorável. Ele citou a alta liquidez internacional e as baixas taxas de juros da América Latina como motivos pelos quais “será fácil manter estáveis as economias de esquerda; na verdade, elas ficarão mais ao centro. Com relação ao futuro, a menos que a liquidez internacional seque, há motivo para imaginar que a América Latina se desloque lentamente para a direita”.
Exemplo da confiança no futuro econômico da região, de acordo com Eduardo Wallentin, um dos gerentes do Departamento de América Latina e Caribe da International Finance Corporation (IFC), foi a concessão de um empréstimo bancado por um consórcio de bancos no Uruguai. Trata-se do maior consórcio multilateral já constituído no mundo em desenvolvimento para concessão de empréstimo e de financiamento de capital próprio para projetos do setor privado. Houve inclusive excesso de subscrição, disse Wallentin. “A participação foi de 150%.”
O mercado de jeans
Ricardo A. Weiss, um dos principais palestrantes da conferência, discutiu o futuro de um dos maiores conglomerados privados do Brasil, a Camargo Corrêa S.A., holding do Grupo Camargo Corrêa. De acordo com Weiss, diretor-gerente da empresa, a Camargo Corrêa está a meio caminho de um plano estratégico de dez anos que a colocará entre os cinco maiores grupos privados não-financeiros do país. O “Projeto 2012” tem como objetivo promover o crescimento sustentável de quatro a seis setores importantes da economia, além da expansão internacional da empresa. A diversificação, disse Weiss, auxilia na proteção contra as flutuações típicas das economias dos mercados emergentes, além de criar possibilidades para o crescimento da receita.
Ele reconhece que a estratégia de diversificação da empresa, de crescimento por meio de aquisições e da manutenção de várias linhas exclusivas de negócios contraria o pensamento dominante. “Hoje em dia, o ideal é que a empresa trabalhe com um foco específico, mas nós somos um conglomerado com foco específico”, disse Weiss. “É bom diversificar. Ganha-se dinheiro e vive-se mais.” Além disso, o plano estratégico da Camargo Corrêa independe do partido que esteja no poder. “Queremos independência da vontade dos políticos”, disse. A empresa “se expandirá e se diversificará sem que para isso tenha de abrir mão de sua independência” em relação aos políticos.
Entre as linhas estratégicas de negócios da Camargo Corrêa contabilizam-se atividades nas áreas de engenharia e construção, bens de consumo (calçados e têxteis), meio ambiente e produção de bens industriais semi-acabados (silício e cimento). A empresa é dona do controle acionário da Alpargatas, fabricante de roupas proprietária de marcas conhecidas mundialmente, como as sandálias Havaianas, e da Santista Têxtil, um dos maiores produtores mundiais de denim para jeans. Essas subsidiárias ajudaram a incrementar o total geral da receita gerado no exterior. As exportações passaram de 9%, em 2003, para 13%, em 2004. Esse percentual deverá crescer, uma vez que a Camargo Corrêa fechou novos contratos na Bolívia, Argentina, Colômbia, Venezuela, Peru e Suriname. “Fabricamos 30 tipos diferentes de sandálias’, disse Weiss, que distribuiu vários pares aos participantes.
A Santista é a empresa de maior visibilidade internacional da Camargo Corrêa, uma vez que 50% de suas receitas tem origem nas importações. “O mercado de jeans é muito competitivo”, disse Weiss. “As margens são muito pequenas para os produtores e fabricantes de denim. O dono da marca conquista o mercado.” Por esse motivo, a Santista tem planos de expansão na Europa. “Esse é um mercado de primeira”, acrescentou, comparando suas enormes possibilidades com o mercado americano, onde 70% do produto é vendido em lojas do Wal-Mart.
O interesse da empresa por serviços relacionados ao meio ambiente envolve, entre outras coisas, o trabalho conjunto com os setores público e privado no que diz respeito à gestão do lixo. A Camargo Corrêa é uma das empresas brasileiras privadas que mais investem na geração de energia. Cinqüenta por cento da energia hidrelétrica instalada no país teve a participação da Camargo Corrêa. Atualmente, a empresa produz 17% de suas necessidades próprias de energia e, por volta de 2010, planeja tornar-se auto-suficiente. Além disso, “quando a transmissão da energia hidrelétrica for privatizada, pretendemos tomar parte nesse processo”, disse Weiss.
Sobre a democracia
No decorrer das discussões travadas pelo painel, os participantes relataram sua experiência com negócios na América Latina. Deutsch, da Kraft, disse que nas economias dos mercados emergentes, às vezes é mais prudente para a empresa abrir mão do que parece ser uma oportunidade de crescimento para o negócio, haja vista a concessão de taxas especiais ou à pouca regulamentação existente nesses mercados. A Kraft, por exemplo, estava interessada inicialmente na aquisição da Garoto, a maior fabricante de chocolates do Brasil. De acordo com Deutsch, a empresa “sentiu que não deveria” ter participação majoritária na fabricação de chocolates no Brasil. A Nestlé acabou comprando a Garoto por 230 milhões de dólares, segundo se soube, em 2002. Depois de protestos das unidades brasileiras da Cadbury Schweppes e da Kraft, a aquisição foi reavaliada e vetada pelos órgãos reguladores de antitruste do Brasil. A Nestlé “perdeu pelos méritos próprios do caso”, disse Deutsch. “Acho que foi bom para o Brasil.”
Companhias multinacionais são sempre requisitadas para a prestação de serviços sociais quando o governo se acha impossibilitado de fazê-lo. Henisz indagou aos participantes do painel como conciliar esse tipo de atividade com a maximização da geração de valor para o acionista. A pergunta suscitou diferentes opiniões. “Uma de nossas estratégias consiste em agir com responsabilidade dentro das comunidades onde atuamos”, disse Deutsch. “Às vezes, investimos sem interesses financeiros. A Kraft é uma empresa de alimentos. Nossa missão consiste em fazer com que as pessoas comam e vivam melhor. Mandamos suprimentos alimentícios para Cancun e para Nova Orleans depois que os furacões assolaram essas regiões. Será que fazemos isso para que o nome da empresa aparecesse no jornal? Não, estamos realmente tentando ajudar as pessoas. Sem dúvida há coisas cujo retorno não pode ser quantificado, e que são boas para a empresa e também, penso eu, para o investidor.”
Tenani, da UBS, vê a questão de outra maneira. “Do ponto de vista do investidor, se os investimentos feitos em uma comunidade e o incremento do capital humano aumentam a produtividade, somos a favor. Contudo, se o investimento social não contribui para a elevação dos lucros, recomendo aos investidores que procurem uma alternativa. Temos de pensar por eles.”
“O segredo”, disse Atkinson, do FMI, “consiste em saber como casar o interesse do investidor com o interesse do país. Se o Estado não é eficiente, talvez faça sentido para os investidores investir em serviços. Comprar geradores e equipar escolas, por exemplo, não com o objetivo de ser simpático, e sim pensando na infra-estrutura que o governo não é capaz de proporcionar”.
A Camargo Corrêa tem um histórico social relevante no que diz respeito a programas da área social com foco em atividades educacionais, de saúde e cultura para crianças e adolescentes de famílias de baixa renda, disse Weiss. “A responsabilidade social corre nas veias da empresa. Entendemos que o governo não tem condições de fazer sua parte. Fazemos por ele. É uma forma de compartilhar com o país parte do nosso sucesso.”
Henisz fez menção de uma tendência preocupante detectada pela Latinobarómetro em outubro de 2005. A pesquisa anual de atitudes políticas e econômicas em 18 países é feita por uma organização sem fins lucrativos de Santiago, no Chile, e publicada com exclusividade pela Economist. Os resultados indicam que o apoio às soluções democráticas para os diversos problemas é morna: apenas 50% dos latino-americanos são democratas convictos — isto é, reagem positivamente à afirmação de que “a democracia é preferível a qualquer outro tipo de governo” — e só um em três dos entrevistados se disse satisfeito com a forma como a democracia funciona na prática, informou a Economist em outubro. O apoio à democracia é menor em muitos países hoje do que em 1996. Só no Uruguai e na Venezuela a maior parte dos entrevistados mostrou-se satisfeita com o funcionamento da democracia.
Embora os participantes do painel reconheçam a existência de desafios no caso de alguns países, todos eles defenderam uma visão positiva da situação. “Seu otimismo reflete-se com muita clareza nos mercados”, disse Henisz. “As taxas de juros não devem subir. Apesar dos resultados da pesquisa da Latinobarómetro, o fato é que as pessoas continuam a votar em quem procura manter os mercados financeiros felizes.”
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