Skype, a sensação do momento: qual o futuro dessa tecnologia?
Embora o Skype, tecnologia que permite a transmissão de voz via protocolo de Internet (VoIP, na sigla em inglês), bem como a conexão entre PCs, tenha completado dois anos em 29 de agosto, não se sabe ao certo ainda que tipo de negócio essa relativa novidade viabilizará. De acordo com especialistas da Wharton, pode ser que o Skype não passe de mero modismo de gente fascinada por tecnologia; quem sabe se converta na plataforma de comunicação por excelência da próxima geração, ou então evolua pela mesma trajetória do eBay ou do Google.
O que se sabe, porém, é que o Skype, com escritórios na Estônia, Londres, São Francisco, Coréia e Japão, merece ser acompanhado de perto. A empresa trabalha com uma tecnologia com ramificações em várias tendências importantes — tecnologia de ponto-a-ponto (P2P), na qual não há um servidor pré-definido, comoditização dos serviços de telefonia e poder de marketing da Internet.
O Skype é um aplicativo que permite ao usuário conversar e enviar mensagens instantâneas gratuitamente por meio de conexões entre PCs. Os usuários — que se identificam por meio de nomes em vez de números — conversam através de fone de ouvido e microfone conectados a seus computadores (para isso, é preciso que a pessoa com quem se fala também tenha o aplicativo). Contudo, diferentemente de grande parte dos serviços de VoIP, o Skype utiliza tecnologia de P2P para conexão dos PCs dos usuários — não é de espantar, portanto, que Niklas Zennström, CEO da Skype, seja também o criador do software do Kazaa, que permite às pessoas trocarem arquivos de música de maneira descomplicada. Segundo Zennström, o Skype é mais do que um jeito barato de conversar. Ele ressalta que, no futuro, a empresa oferecerá serviços de vídeo e inúmeros outros serviços de comunicação ainda não inventados.
Os números do Skype não deixam dúvida quanto ao seu sucesso. O aplicativo já foi baixado cerca de 145 milhões de vezes desde 4 de agosto. A empresa diz contar com 47 milhões de usuários. Mais de 1,8 milhão de pessoas utilizam o SkypeOut, um serviço pago que permite aos usuários conectarem-se com telefones convencionais utilizando o PC a um custo por minuto bastante baixo. O Skype também cobra pelo serviço de voice mail. “É curioso como as coisas evoluem”, diz Barbara Kahn,, professora de Marketing da Wharton e usuária do aplicativo. “O Skype surgiu em cena discretamente e agora temos essa verdadeira explosão.”
O efeito de rede
De acordo com Kahn, o Skype passou de 100.000 para 47 milhões de usuários em menos de dois anos, em grande parte por causa do marketing viral (em que um usuário “contamina” o outro, levando-o a experimentar o produto em questão). Desde que começou a usar o Skype há algumas semanas, Kahn incentivou seis amigos a baixarem o software. Xavier Dreze, professor de Marketing da Wharton, usa o Skype para fazer ligações do seu PC sempre que viaja para o exterior. Ele já fez ligações de Cingapura, por exemplo. Por enquanto, Dreze não sabe ao certo se o Skype seria um fenômeno passageiro ou o prenúncio do maior serviço de comunicação do mundo, mas acredita que ele continuará crescendo enquanto os usuários continuarem a encorajar os amigos a utilizá-lo. “Hoje, o Skype tem um público seleto; o desafio, porém, será torná-lo um meio de comunicação convencional”, diz Dreze. Gerald Faulhaber, professor de Políticas Públicas e Negócios da Wharton, concorda com Dreze, e acrescenta que embora o Skype tenha recebido bastante cobertura da imprensa, o aplicativo ainda é “um deleite técnico que faz ligações entre PCs. Para que se torne um meio de apelo popular, será preciso pôr fim à imagem de coisa de nerds que ele tem”, observa Faulhaber.
Kevin Werbach, professor de Estudos Jurídicos e de Ética dos Negócios da Wharton, reconhece os desafios, mas acha que o Skype continua a ser um “fenômeno de telecomunicação subestimado. O fato de que o número de usuários do aplicativo tenha crescido tanto em tão pouco tempo sem nenhum marketing é algo extraordinário”, diz Werbach.
O potencial do Skype já desperta o interesse de alguns investidores importantes. Ao discursar na Cúpula de Inovação AlwaysOn, na Universidade de Stanford, em 20 de julho, Tim Draper, fundador e diretor-gerente da empresa de capital de risco Draper Fisher Jurvetson, disse que havia investido 10 milhões de dólares no Skype depois de um encontro com Zennström. Draper também investiu no Hotmail, um serviço de e-mail comprado pela Microsoft em 1997, na véspera de ano Ano Novo.
Steve McGeown, diretor de gestão do produto da Sandvine, uma empresa de Waterloo, em Ontário, fabricante de equipamento para redes de banda larga, diz que a aposta de Draper pode valer a pena. Colegas de McGeown utilizam o Skype regularmente em viagens e já mandaram inserir nos cartões de apresentação seu número de contato pelo Skype — um procedimento atraente para o mercado de massas. “O Skype não possui ainda um mercado de massas, mas eu já tenho meu número de Skype impresso no cartão”, diz McGeown.
Migrando para serviços pagos
Por enquanto, as receitas do aplicativo provêm da venda de serviços de valor agregado, como voice mail e ligações telefônicas que saem por alguns poucos cents o minuto. No futuro, o Skype poderá vender assinaturas, cobrar pequenas taxas ou licenciar o software. De acordo com Zennström, que também discursou na conferência AlwaysOn, se o Skype conseguir arrebanhar uma fração pequena que seja de pessoas dispostas a baixar o software para utilização de serviços pagos, a empresa terá lucro, porque “não cobramos por usuários a mais”. A companhia não fala sobre suas finanças.
Faulhaber diz que o desafio do Skype consiste em começar como serviço gratuito e depois migrar para o pago. “O Skype não pode se contentar em ser apenas um protagonista barato. Se for, seu uso disseminado não gerará lucros em volumes significativos.” Segundo Kahn, um modelo que oferecesse serviços gratuitos e cobrasse por outros adicionais poderia dar certo. “Os serviços gratuitos podem se tornar um hábito, e nós, dependentes deles. A partir do momento em que não á mais possível viver sem esse serviços, não relutaremos em pagar uma pequena quantia para tê-los.” Para Werbach, a questão não é saber se o Skype pode ser lucrativo ou não, e sim se pode ser bastante lucrativo. “É possível que o aplicativo cresça e gere lucros ao mesmo tempo? Seria essa uma oportunidade modesta ou seria algo da magnitude do Google?”, indaga Werbach.
Outra possibilidade para o modelo de negócios emergente do Skype seria a associação com empresas de hardware, as quais instalariam o software em suas máquinas. Segundo McGeown, o Skype tem potencial para virar de cabeça para baixo o modelo tradicional de telecomunicações — em que os provedores fornecem aos clientes aparelhos baratos em troca de tarifas mensais de serviços. “Nesse modelo, o que se levaria em conta não seriam as chamadas de longa distância e os serviços adicionais”, observa McGeown. “A coisa mais inteligente que estão fazendo no momento é o licenciamento do software para handhelds (computadores de mão) e telefones.”
Se o Skype conseguir um número suficiente de usuários, acrescenta, poderá ser incorporado aos handhelds em troca de uma tarifa de um dólar, por exemplo, para cad aparelho vendido. O cliente pagaria basicamente apenas pelo aparelho, já que o serviço seria praticamente gratuito.
Mesmo que essa estratégia não funcione, McGeown acredita que a empresa poderá se tornar lucrativa com a comercialização de serviços de videoconferência para empresas e indivíduos. “Esses serviços de pequena monta podem gerar margens enormes”, diz McGeown. “Se a empresa conseguir um mercado de massas, precisará apenas de um pequeno número de clientes para se tornar viável financeiramente.”
Um problema pode ser a qualidade do serviço, diz Faulhaber. Ele observa que existem, às vezes, demoras de uma fração de segundo apenas que tornam os serviços de voz do Skype falhos. Por exemplo, uma chamada de Cingapura para uma linha telefônica local pode ter alguns pequenos atrasos que acabam por sobrepor as vozes das partes em contato. Dreze observa que as conexões entre PCs via Skype são mais confiáveis. Enquanto os serviços por meio de linhas convencionais de telefone não foram confiáveis, Faulhaber acredita que o Skype será utilizado como complemento aos serviços de telecomunicações existentes. Werbach, porém, assinala que o aplicativo se tornará parte de um conjunto regular de serviços utilizados pelo consumidor. Com relação às chamadas feitas durante viagens internacionais, acrescenta, o Skype poderá se tornar a opção predileta nesses casos.
A questão da regulamentação
De acordo com Faulhaber, um dos maiores desafios da Skype consistirá em definir o âmbito de operação do seu software: se a empresa se enquadrar na área de telecomunicações, ficará sujeita à regulamentação do setor; se for empresa de software, terá de operar de acordo com as diretrizes da Comissão Federal de Comunicações (FCC). Assim, por exemplo, a Vonage e as empresas Bell regionais vêm batalhando para que as chamadas de emergência para o número 911 possam trafegar pela telefonia via Internet. A Vonage disponibiliza atualmente essas chamadas, porém os clientes precisam informar sua localização — a telefonia via Internet não identifica a origem da chamada. Além disso, a empresa admite que as chamadas para o 911 poderão falhar devido a interrupções na rede elétrica ou de banda larga.
O fato de que alguns serviços básicos nem sempre se acharem disponíveis é uma pedra no caminho da telefonia via Internet e de serviços como os do Skype. “A questão é que o telefone está sempre disponível”, observa Faulhaber. “O VoIP evoluirá, ganhará novas características, mas é imprescindível que se torne mais confiável.”
Por enquanto, Zennström não vê o Skype como serviço de voz. Quando lhe perguntaram se o Skype viabilizaria serviços de chamadas urgentes para o número 911, Zennström disse que não via necessidade disso. Afinal de contas, o Skype não é necessariamente um serviço de telefonia local. De acordo com McGeown, esse argumento mostra como é crítica a questão do posicionamento quando se trata de regulamentação. “Todas essas empresas estão vivendo uma grande mentira”, diz. “A Vonage diz que não é concorrente do Skype porque o aplicativo é usado entre PCs. A Skype diz que seu aplicativo não substitui a voz, o que é muito inteligente, já que há muitas outras coisas nesse pacote além da voz. Contudo, quando estou na Coréia, não vejo diferença entre o Skype e uma ligação telefônica convencional, exceto que se usar o Skype não pago pela chamada.”
A regulamentação dos serviços oferecidos pelo Skype é extremamente difícil, se não impossível, acrescenta Werbach. “As questões relativas à regulamentação são um desafio para o FCC. Como aplicar a regulamentação a uma empresa de Luxemburgo que utiliza um software livre? É difícil imaginar de que modo a legislação se aplicaria.” A Skype talvez tenha de “trilhar um caminho bastante delicado, mas não pode se deixar levar por essa batalha jurídica”, acrescenta McGeown. “Se isso acontecer, o negócio pode se tornar clandestino”.
Alvo de aquisição?
Ninguém sabe ao certo o futuro do Skype. Há algumas opções possíveis:
· O software se tornaria uma nova plataforma de comunicação que uniria voz e vídeo, sem contar os milhões de pessoas que se comunicariam por meio de handhelds. Apesar disso, Dreze acredita que o Skype deverá enfrentar uma concorrência cada vez mais acirrada de empresas como a Microsoft, Yahoo e Google.
· A empresa poderia ser adquirida por uma companhia de mídia ou de comunicações já estabelecida. Werbach diz que há rumores sobre empresas pouco valorizadas dispostas a comprar a Skype. Contudo, um relatório da CNET.com desta semana informa que a News Corp., de Rupert Murdoch, estaria discutindo a aquisição da Skype por cerca de 3 bilhões de dólares, mas as negociações teriam sido interrompidas. A grande dificuldade é fixar um preço pela empresa. Quando perguntaram ao CEO Zennström qual seria o valor da Skype, ele respondeu: “Não sabemos. Estamos satisfeitos com nossa condição de empresa privada.”
· Ao evoluir, a empresa poderia ser enquadrada em um marco regulatório por causa de questões como as chamadas para o número 911, convertendo-se em uma empresa de telecomunicações.
· Ou pode se consolidar como um movimento clandestino que continuará a arrebanhar milhões de usuários em todo o mundo, mantendo-se à margem dos marcos regulatórios.
Outra ameaça potencial ao Skype são as empresas de cabo e de telecomunicações, que poderiam bloquear sua utilização. Contudo, Zennström diz que tal atitude seria contraprodutiva para as teles. “As pessoas utilizam a Internet para ter acesso a serviços”, observa. “Se uma empresa de telecomunicações bloqueia o acesso a esses serviços, é como se dissessem às pessoas que procurassem outra coisa para fazer.” Por isso, talvez fosse mais sensato que uma operadora de serviços de telecomunicações comprasse a Skype. “Isso é possível, porém a cultura e a história da empresa seria um desafio para a maior parte das empresas de telecomunicações e de mídia”, diz Werbach. “Eu ficaria surpreso, mas não chocado, se a empresa fosse comprada.”
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